segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Não-candidatos

Desistências expõem dificuldades de pesos-pesados nas eleições de 2026

Figuras com trajetória política e capital eleitoral de destaque ficaram fora da disputa por diferentes razões, em um cenário marcado por maior custo de campanha e competição interna

Thiago Borgespor Thiago Borges em
Desistências expõem dificuldades de pesos-pesados nas eleições de 2026
Após quase 40 anos de mandatos consecutivos, Aécio Neves (PSDB-MG) não disputará eleição | Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

Além das candidaturas competitivas, as eleições de 2026 também marcam as desistências de nomes conhecidos da política brasileira. Do deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG) aos governadores do PSD, Ratinho Jr. (PR) e Eduardo Leite (RS), passando pelo deputado federal Paulinho da Força (SD), as desistências revelam que experiência e passagem por cargos de destaque já não são suficientes para garantir uma candidatura viável.

Em Goiás, o caso mais recente é o de Pedro Sales (PSD), que abandonou a disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados poucos dias depois do início oficial da campanha. Ex-presidente da Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra) e um dos secretários de primeiro escalão do governo de Ronaldo Caiado (PSD), Sales chegou a participar de agendas eleitorais e teve o apoio declarado do goiano candidato à Presidência da República pelo PSD.

Ao comunicar a saída, classificou a decisão como particular e afirmou que retornaria a Brasília para reassumir a função de servidor efetivo do Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão também levou em conta o custo da campanha, já que os recursos disponibilizados pelo partido não seriam suficientes para sustentar a candidatura.

O cenário se repete, ainda que por razões diferentes, entre nomes de projeção nacional. Aécio, que chegou a ser colocado como uma alternativa ao Palácio do Planalto, desistiu de disputar qualquer cargo em 2026. A decisão encerrou uma sequência de quatro décadas de mandatos consecutivos. O tucano afirmou que pretende concentrar esforços na reconstrução do partido.

No PSD, Ratinho Jr. anunciou em março que permaneceria no Governo do Paraná até o fim do mandato e abandonaria a disputa presidencial. O governador era um dos três nomes inicialmente colocados pelo partido para concorrer ao Palácio do Planalto, ao lado de Caiado e Leite. Pouco depois, a legenda escolheu o ex-governador de Goiás como seu candidato. Leite ficou de fora da corrida presidencial e também decidiu não disputar qualquer outro cargo. Irá cumprir o mandato de governador até o dia 31 de dezembro.

Transformações eleitorais

Para o doutor em Ciência Política e diretor do Instituto Ver Pesquisa e Estratégia, Malco Camargos, parte dessas desistências precisa ser compreendida a partir das transformações na relação entre políticos e eleitores.

“Políticos que se deram muito bem de uma forma de fazer política na relação com a imprensa têm, às vezes, muita dificuldade de lidar com o eleitor hoje, que cobra conteúdo contínuo, que cobra proximidade, que cobra uma identidade, que cobra saber da vida privada, que cobra saber do que está fazendo no dia a dia, de como é que vota em cada uma das ações”, afirma ao O HOJE.

Na avaliação do cientista, a dificuldade não está necessariamente relacionada apenas à possibilidade de derrota. “Políticos tradicionais que fizeram muito sucesso tempos atrás, se não se adaptarem, porque como tudo na vida a política também muda, também terão dificuldade de sobreviver”, pontua.

Camargos ressalta, porém, que as desistências podem representar situações distintas. Em alguns casos, o político percebe que seu perfil já não corresponde às expectativas do eleitorado. Em outros, trata-se de uma decisão estratégica ou mesmo do reconhecimento de que o ciclo político chegou ao fim.

“A cada eleição, nomes tradicionais vão deixando de fazer parte da política”, afirma. O especialista cita, entre os exemplos, o ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSB), que rejeitou ser candidato ao Governo de Minas Gerais com apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e anunciou o fim da vida pública ao término de seu mandato de senador.

Efeitos de uma derrota

A decisão de permanecer fora da disputa também pode ser uma forma de preservar capital político. Segundo Camargos, uma derrota não necessariamente representa o fim de uma carreira, mas o efeito pode ser diferente quando se trata de uma figura já consolidada.

“Ao disputar uma eleição, você pode perder e sair maior, ou seja, você tem uma vitória política mesmo tendo uma derrota eleitoral. Porém, para um figurão político, alguém com grande tradição, uma derrota eleitoral dificilmente vira um ganho político”, explica. “Sobre a ameaça de uma derrota, talvez o melhor caminho seja não disputar”, conclui.

Já o professor da PUC-GO e cientista político, Pedro Pietrafesa, avalia que os casos de candidaturas majoritárias, como os de Eduardo Leite e Ratinho Jr., precisam ser analisados de maneira diferente daqueles relacionados às disputas proporcionais.

No caso do PSD, a escolha por Caiado representou uma decisão da direção nacional por um projeto mais à direita.

Para Pietrafesa, nas eleições proporcionais o cenário também é influenciado pela estrutura das chapas e pela vantagem dos políticos que já possuem mandato.

Segundo o professor, nos últimos anos houve uma valorização das carreiras de deputado federal e estadual, o que tende a elevar as taxas de reeleição e, consequentemente, aumentar as barreiras para novos candidatos. “Vai ficar mais difícil, mais caro, com alta chance de taxa de reeleição maior, que pode inibir essas novas candidaturas”, avalia.

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