Greve dos administrativos continua após 85% da categoria rejeitar proposta da Prefeitura de Goiânia
Oferta foi recusada por 85,1% da categoria; servidores cobram revisão da tabela salarial e Plano de Carreira ainda durante o atual mandato
Administrativos da rede municipal de Educação de Goiânia decidiram, em assembleia realizada nesta segunda-feira (24), manter a greve iniciada no último dia 17. A proposta apresentada pela Prefeitura foi rejeitada por 85,1% dos trabalhadores, enquanto 14,9% votaram a favor. O movimento reúne servidores administrativos e tem como principal reivindicação a revisão da tabela salarial e a construção de um Plano de Carreira que, segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego), reconheça a função desempenhada pela categoria e seja implementado ainda durante o atual mandato.
A votação ocorreu após nova rodada de negociações. Para o sindicato, a proposta não respondeu às principais reivindicações. A presidente em exercício do Sintego, Ludmylla Morais, afirmou que a categoria decidiu continuar mobilizada porque a oferta não atende aos administrativos.
“Não estamos falando apenas de uma tabela salarial, mas do reconhecimento de trabalhadores que são fundamentais para o funcionamento da Educação”, afirmou Ludmylla. Segundo a presidente do Sintego, existem administrativos que recebem menos de um salário mínimo e profissionais que trabalham lado a lado, na mesma unidade, exercendo funções semelhantes, mas com remunerações diferentes.
O sindicato convocou novas ações. Nesta terça e quarta-feira (25 e 26), haverá mobilização nas redes sociais. Na quinta-feira (27), está prevista manifestação às 8h30, na porta do Paço Municipal. A orientação é levar contracheques, com dados pessoais ocultados.
Proposta da prefeitura é rejeitada
A proposta colocada em votação prevê o parcelamento da atualização da tabela salarial em cinco vezes. O município também propôs que o enquadramento funcional seja facultativo, mediante solicitação individual de cada trabalhador. A oferta inclui o pagamento da data-base em janeiro, conforme a Lei nº 9.850/2026; do auxílio-locomoção referente a julho; do bônus em dezembro, sem desconto relativo ao período de greve; e o abono dos dias parados.
Apesar desses pontos, a maioria entendeu que a proposta não resolve a defasagem salarial. A principal divergência está no prazo: os administrativos defendem a valorização dentro do atual mandato, enquanto o município apresentou cronograma até 2030.
Para o Sintego, a discussão não se limita ao reajuste. O sindicato afirma que há desigualdade dentro da própria rede, com servidores que desempenham funções semelhantes recebendo valores diferentes e trabalhadores com remunerações inferiores ao salário mínimo. A categoria também aponta diferenças em relação a outras áreas da administração municipal.
Com a rejeição, o calendário de mobilização continuará nesta semana. O sindicato afirma que a greve é necessária para pressionar o município por uma proposta capaz de atender às reivindicações.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Educação (SME), mas, até o fechamento desta edição, não obteve retorno.
Impasse salarial motivou início da paralisação
A paralisação começou na segunda-feira (17), depois de a categoria aprovar a greve em assembleia realizada na quinta-feira (13). A decisão ocorreu após os trabalhadores rejeitarem uma proposta anterior da Prefeitura para a recomposição da tabela salarial. Na ocasião, mais de 60% dos participantes votaram contra a oferta.
A proposta anterior previa aumento salarial de 5,4%, mas com implementação parcelada até 2030. Para os servidores, o modelo não respondia à defasagem acumulada e não garantia a valorização dentro da atual gestão. A categoria decidiu, então, iniciar a paralisação por tempo indeterminado.
A greve passou a ser acompanhada pelo Judiciário. O Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO), por decisão do desembargador Augusto Ventura, determinou que 70% do efetivo fosse mantido em cada unidade escolar. O descumprimento pode gerar multa de R$ 5 mil por dia ao sindicato, limitada inicialmente a R$ 100 mil.
A Justiça também determinou que o Sintego apresentasse documentos sobre a assembleia e um plano de contingência para cada unidade, incluindo serviços como alimentação escolar e atendimento na educação infantil. Uma audiência de conciliação foi marcada para 19 de agosto, no TJ-GO.
A greve ocorre em meio a uma discussão sobre a oferta de vagas na educação infantil de Goiânia. Na terça-feira (18), a Secretaria Municipal de Educação (SME) e o Ministério Público de Goiás (MP-GO) prorrogaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2019. O acordo prevê a criação de 4.984 vagas em creches e estabelece metas para reduzir a demanda até 2027, com objetivo final em dezembro de 2028.
Segundo a SME, há déficit de aproximadamente 2.300 vagas, embora a Prefeitura afirme ter cerca de 2.500 disponíveis. A secretária Giselle Faria explicou que parte do problema está na distribuição territorial: vagas em uma região nem sempre atendem às famílias de outra área.
A Prefeitura informou ainda que investiu R$ 107,4 milhões no primeiro semestre de 2026 por meio do Pafie. Até o fim do ano, prevê entregar 76 novas salas, com capacidade para gerar 1,7 mil vagas. Também estão em conclusão três novos CMEIs.
Para as famílias, a paralisação representa um problema adicional quando o atendimento não pode ser mantido. Uma mãe relatou que precisou recorrer a uma creche particular para conseguir trabalhar. A mulher afirmou que sua família depende do CMEI como principal rede de apoio, mas disse compreender o direito dos servidores.
“Estamos tendo que pagar creche para conseguir deixar nossos filhos e trabalhar, porque eu e meu esposo contamos com o CMEI como nossa única rede de apoio”, relatou. A mãe afirmou estar preocupada com os impactos para famílias e crianças e cobrou uma solução que concilie a continuidade do serviço com a valorização dos profissionais.
Fiscalização periódica
O TAC prevê fiscalização periódica das metas, com relatórios semestrais sobre vagas, fila de espera, obras, execução financeira e eventuais atrasos. Em caso de descumprimento, o MP-GO poderá solicitar auditorias e outras medidas. A fiscalização segue até dezembro de 2028.
Enquanto não há uma nova proposta capaz de ser aceita pela categoria, os administrativos seguem em greve. O Sintego afirma que manterá a mobilização e deverá divulgar novas atividades ao longo da semana. A expectativa agora é por novos avanços nas negociações, enquanto trabalhadores, famílias e a rede municipal acompanham os efeitos da paralisação.
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