Curtidas que decidem o humor: quando a aprovação nas redes vira dependência
Curtidas, comentários e seguidores transformaram reconhecimento em números visíveis e podem reforçar inseguranças que já existiam fora das redes sociais
A fotografia foi publicada. Alguns minutos depois, começa uma segunda experiência: conferir quem curtiu, quantas pessoas visualizaram, quem comentou e se a repercussão correspondeu ao esperado. Nas redes sociais, uma necessidade humana antiga, a de ser reconhecido pelos outros, passou a vir acompanhada de números, comparação permanente e uma plateia disponível quase o tempo inteiro.
Gostar de um elogio ou sentir satisfação diante de uma reação positiva não representa, por si só, um problema. A relação muda quando esse retorno começa a interferir diretamente na maneira como uma pessoa percebe o próprio valor.
“Quando uma pessoa precisa constantemente que os outros confirmem o seu valor, talvez ela ainda não tenha conseguido reconhecer esse valor dentro de si. O problema não está em gostar de receber um elogio ou uma curtida. O problema começa quando precisamos disso para acreditar que somos importantes”, afirma o médico ginecologista, obstetra e escritor Albino Bonomi.
As redes não inventaram a comparação, mas deram a ela frequência, alcance e uma espécie de placar. O cotidiano alheio chega à tela filtrado por fotografias escolhidas, conquistas anunciadas e momentos considerados dignos de publicação. Do outro lado, quem observa continua convivendo também com aquilo que normalmente fica fora do enquadramento: frustrações, conflitos, inseguranças e dias comuns.
É justamente essa diferença que, segundo Bonomi, torna a comparação desigual. “As redes sociais criaram uma vitrine permanente da vida. O indivíduo olha para o outro e imagina que aquela pessoa é mais feliz, mais bonita, mais bem-sucedida ou mais realizada. Mas ele está comparando a sua vida real com uma versão editada da vida de outra pessoa”, explica.
Antes da curtida, já existia a necessidade de agradar
A dependência do olhar alheio não começa necessariamente quando alguém cria um perfil. Ela pode ser construída muito antes, em ambientes nos quais ser aceito significa corresponder continuamente às expectativas de outras pessoas.
“Uma pessoa que passou a vida tentando corresponder às expectativas dos outros pode chegar à idade adulta sem saber exatamente quem é. Ela aprendeu a perguntar ‘o que esperam de mim?’, mas não aprendeu a perguntar ‘quem eu realmente sou?’”, observa Bonomi.
As plataformas encontram essa necessidade e oferecem algo que antes não existia com a mesma precisão: uma resposta quantificável. Uma publicação pode ser acompanhada quase em tempo real, e a quantidade de reações passa a funcionar como confirmação ou frustração.
Esse movimento pode se repetir até que a expectativa pela resposta se torne parte da própria publicação. “É uma armadilha psicológica. A pessoa publica esperando uma reação. Quando recebe, sente satisfação; quando não recebe, começa a questionar o próprio valor. Aos poucos, a autoestima deixa de ser construída internamente e passa a depender de uma plateia”, afirma o médico.
Entre adolescentes e jovens, a questão ganha uma camada adicional. É justamente nessa fase que identidade, aceitação e pertencimento ocupam espaço importante na formação pessoal. Nas redes, essas experiências passam a conviver com números visíveis: seguidores, visualizações, comentários e alcance.
Para Bonomi, uma das armadilhas está em interpretar visibilidade como sinal de vínculo. “Uma curtida é uma reação. Um abraço é uma relação. Um comentário pode durar alguns segundos; uma conversa verdadeira pode transformar uma vida. Precisamos tomar cuidado para não confundir visibilidade com pertencimento”, diz.
O que se publica também diz algo sobre o que se espera
A discussão não exige transformar a rede social em inimiga nem abandonar as plataformas. O ponto está em perceber por que uma experiência precisa ser mostrada e quanto a reação recebida depois interfere no significado daquele momento.
Bonomi propõe que o próprio motivo da publicação entre nessa análise. “Precisamos aprender a utilizar as redes sem permitir que elas nos utilizem. Se eu publico uma fotografia porque quero compartilhar uma experiência, tudo bem. Mas se publico apenas para provar que sou feliz, talvez seja importante perguntar para quem estou tentando provar isso”, afirma.
A discussão também aparece em O Ciclo Gestatório de um Homem, obra autobiográfica na qual o autor percorre infância, adolescência, casamento, separação, educação dos filhos e processos de autoconhecimento. No livro, a necessidade de aprovação aparece ligada a uma pergunta anterior às redes sociais: até que ponto uma pessoa consegue distinguir aquilo que deseja daquilo que aprendeu a fazer para atender às expectativas dos outros.
É nessa direção que Bonomi sugere trocar a pergunta sobre aceitação por outra, voltada à própria percepção. “Talvez a pergunta mais importante não seja ‘quantas pessoas gostam de mim?’, mas ‘eu gosto da pessoa que estou me tornando?’. Quando conseguimos responder isso com sinceridade, a necessidade de aprovação começa a perder força”, comenta.
Nem toda fotografia publicada esconde insegurança, assim como gostar de receber curtidas não significa depender delas. O sinal de atenção aparece quando a quantidade de respostas começa a decidir o humor, a sensação de sucesso ou a percepção de valor pessoal.
Para Bonomi, recuperar experiências que não dependem de exposição também faz parte desse movimento. “Precisamos recuperar a capacidade de viver momentos que não precisam ser fotografados, experiências que não precisam ser publicadas e sentimentos que não precisam receber aprovação. A vida não precisa de uma plateia para ter valor”, conclui.
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