terça-feira, 6 de outubro de 2026
EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA

Jovens encontram respostas online, mas poucos checam as fontes

Só 10% das pessoas de 16 a 24 anos verificam ativamente o que recebem na internet

Luana Avelarpor em
online

De cada dez jovens brasileiros entre 16 e 24 anos, apenas um costuma verificar ativamente se a informação que encontrou na internet é verdadeira. O dado expõe um problema que entrou na rotina das famílias sem pedir licença: nunca foi tão fácil conseguir uma resposta, mas ficou mais difícil saber em qual delas confiar.

O índice de 10% aparece no Painel TIC – Integridade da Informação, levantamento do Cetic.br em parceria com a Agência Lupa, e é o menor entre todas as faixas etárias pesquisadas. Entre esses jovens, 17% dizem se informar exclusivamente por redes sociais ou aplicativos de mensagem. Ao mesmo tempo, o ChatGPT já é usado por 47% dos internautas brasileiros.

A mudança aparece nas perguntas mais banais. Uma dúvida de matemática, um episódio histórico ou a indicação de um livro podem ser resolvidos antes mesmo que alguém em casa seja consultado. TikTok e ferramentas de inteligência artificial passaram a dividir com escola, livros e família um espaço importante na formação de crianças e adolescentes.

Isso desloca a função dos responsáveis. Em vez de disputar com a tecnologia o lugar de fonte principal, a tarefa passa a ser ajudar os filhos a perceber de onde veio uma informação, quem a produziu, se há evidências para sustentá-la e se outras fontes dizem a mesma coisa.

“Para os jovens, o TikTok não é só mais um espaço de entretenimento, é onde eles buscam respostas. O ChatGPT, por sua vez, entrega tudo pronto e rápido, mas nem sempre é confiável. Sem orientação de uso para essas plataformas, o jovem aprende a confiar na popularidade de um conteúdo, e não na qualidade dele”, afirma Marco Giroto, fundador da SuperGeeks.

Da tarefa escolar às questões pessoais

A presença dessas ferramentas já ultrapassa o estudo. A pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Cetic.br em parceria com o NIC.br, mostra que 10% das crianças e adolescentes brasileiros recorreram à inteligência artificial para conversar sobre problemas pessoais ou emoções.

O número acrescenta outra camada ao debate. Acompanhamento digital deixa de significar apenas estabelecer tempo de tela ou saber quais aplicativos o filho utiliza. Também envolve compreender para que essas ferramentas estão sendo procuradas e como as respostas recebidas são interpretadas.

A discussão chegou às políticas públicas. O Conselho Nacional de Educação aprovou, em votação inicial, diretrizes que tratam a inteligência artificial como apoio possível à aprendizagem, mas ressaltam que ela não substitui o raciocínio do estudante nem o acompanhamento de um adulto. O texto ainda precisa passar pelo plenário e pela homologação do Ministério da Educação.

Desde março, o chamado ECA Digital também estabelece medidas relacionadas à proteção de menores no ambiente online, entre elas verificação de idade, vínculo de contas de crianças e adolescentes a adultos responsáveis e maior transparência das plataformas sobre riscos e segurança.

Checar também precisa ser hábito dos adultos

Cobrar senso crítico dos filhos pressupõe que os próprios pais façam o mesmo. Informações falsas, conteúdos manipulados e afirmações sem contexto não circulam apenas entre adolescentes.

“Os pais também precisam questionar o que veem online, e podem até contar quando eles mesmos já caíram numa informação falsa. Compartilhar essa vulnerabilidade aproxima e mostra que checar uma fonte é um hábito que vale para qualquer idade, não só para quem está aprendendo. É uma necessidade capacitar os adultos, e não só os jovens, a se relacionar de maneira mais intencional e consciente”, explica Giroto.

O desafio, portanto, não está em fazer crianças e adolescentes deixarem de procurar respostas na internet. Esse movimento já faz parte da maneira como uma geração pesquisa, estuda e se informa. A questão é ensinar que rapidez, número de visualizações e uma resposta escrita com segurança não são garantias de verdade.

Nesse cenário, a conversa dentro de casa talvez comece justamente depois que a tela responde. Quem disse isso? De onde veio? Há outra fonte? Pode estar errado? São perguntas simples, mas que devolvem à família uma função que nenhum algoritmo consegue assumir sozinho: ensinar o jovem a não acreditar automaticamente na primeira resposta que aparece.

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