terça-feira, 1 de setembro de 2026
MEIO AMBIENTE

MP-GO suspende corte de gameleiras em meio a padrão recorrente de derrubadas de árvores em Goiânia

Assinada pela promotora Alice de Almeida Freire, medida também abre procedimento para apurar divergências entre três laudos da Amma sobre as árvores

Gabriel Diaspor em
Gameleiras da praça da cirrose
Gameleiras na Praça da Cirrose, em frente à Padaria Sonho de Mel. (Foto: Pedro Banzoni/O HOJE)

O Ministério Público de Goiás (MP-GO) expediu, na tarde desta terça-feira (1º), recomendação urgente para que a Prefeitura de Goiânia suspenda imediatamente o corte das quatro gameleiras da Praça Mestre Maria Henriqueta Péclat, conhecida como Praça da Cirrose, no Setor Oeste.

Assinada pela promotora Alice de Almeida Freire, a medida determinou também a abertura de procedimento para apurar os três laudos da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), que chegaram a conclusões contraditórias sobre a necessidade do corte. Para o MP-GO, a divergência entre os laudos já é justificativa suficiente para não realizar intervenções em árvores centenárias da cidade. A situação, no entanto, tem se repetido com frequência na capital.

Um padrão que se repete

Goiânia recebeu em 2023 o título de Cidade Arborizada do Mundo, concedido pela ONU, e dados do Censo de 2022 do IBGE apontam que 89,5% das vias públicas da cidade têm árvores. Entretanto, o título vive em constante insegurança devido ao corte acelerado de árvores antigas, o que impacta a infraestrutura urbana e a climatização.

O selo, baseado em critério que soma mais de um milhão de áreas verdes na capital, convive com episódios que questionam a política de arborização da cidade. Em menos de quatro meses, dois casos de repercussão popular expuseram o mesmo padrão: decisões técnicas da Amma pela remoção de árvores antigas geram manifestações — organizadas principalmente pelo Grupo Goiânia Verde —, que ganham apoio de vereadores, viram denúncia ao MP-GO e terminam na suspensão do corte.

O primeiro caso ocorreu em maio, no dia 24, quando a mobilização popular somada à denúncia do vereador Fabrício Rosa (PT) suspendeu a derrubada de 48 árvores no Parque Lago das Rosas, retiradas para viabilizar um projeto de revitalização. O parecer técnico da Amma foi comunicado no dia 18 de maio, mesma data em que a Prefeitura publicou o ofício 596/2026 anunciando o projeto.

Questionado sobre os dois casos, o vereador citou também um projeto — hoje suspenso — de abertura de uma via de mão dupla dentro do Parque Flamboyant, que exigiria a remoção de 1,3 mil metros quadrados de área verde e de oito coqueiros, e comprometeria a nascente que existe dentro do parque:

“A informação chegou por meio da imprensa, que teve acesso ao processo interno tanto da remoção das árvores no Lago das Rosas quanto da proposta de abertura de uma rua no Parque Flamboyant. São duas áreas de proteção ambiental que servem de contenção do calor e são atração para turistas e lazer dos goianienses. É preciso ficar atento ao interesse por trás desses cortes. Existem casos de árvores que apresentam riscos, ou que danificam calçadas com raízes superficiais. Mas precisamos evitar excesso de laudos favoráveis à derrubada de árvores que garantem sombra e temperaturas mais amenas na cidade”, disse Fabrício.

Quintiliano Silva, fazendeiro de 64 anos e um dos participantes da manifestação em defesa do parque, destaca a importância da arborização para a climatização urbana e cita o exemplo de Medellín, cidade da Colômbia que, a partir de 2016, criou uma rede de corredores verdes ao longo de ruas, avenidas e cursos d’água, com o plantio de quase 900 mil árvores. A iniciativa reduziu a temperatura média da cidade em até 3°C em alguns pontos.

“Não estou comparando a China com o Brasil. Estou comparando um país latino-americano, vizinho nosso. Medellín plantou em torno de um milhão de árvores. Aqui eu já peguei o aplicativo e, em determinados momentos, aqui consegue estar mais quente do que Belém do Pará. É um absurdo”, afirma Quintiliano.

O mesmo roteiro, três meses depois

Três meses depois da manifestação no Lago das Rosas, a situação das gameleiras se repetiu. No domingo (30/8), o Grupo Goiânia Verde organizou um protesto para tentar impedir o corte de duas gameleiras centenárias da Praça, mais conhecida como Praça da Cirrose por concentrar bares na região. As árvores, que servem de sombra no local, foram alvo de três laudos técnicos da Amma com conclusões contraditórias entre si — um deles, de abril deste ano, reconheceu a estabilidade das árvores. A vereadora Kátia Maria (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Municipal, protocolou representação ao MP-GO pedindo perícia técnica independente antes de qualquer corte.

Everaldo Pastore, ambientalista da ONG Arca, destacou os impactos urbanos da remoção de árvores, que afetam diretamente a segurança da cidade nos períodos de chuva, ao evitarem que a água seja absorvida:

“É preciso compreender que são as árvores que devolvem água para a atmosfera, e essa é também uma forma de reter a água na região, porque elas ajudam a água a entrar no solo. De um lado, evitam que a água que cai sobre elas vire enxurrada — debaixo de floresta é difícil ver enxurrada, porque a água é retida pelos resíduos, como folhas secas e galhos no chão, e a produção de húmus absorve a água que vai para o lençol freático. Por outro lado, elas captam essa água e a devolvem para a atmosfera.”

Entre o plano diretor e o super El Niño

Os dois episódios ocorrem sob a vigência do Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), de 2024, base técnica citada pela Amma para decisões de plantio, poda e supressão na capital. Toda intervenção passa por vistoria de profissionais concursados e é registrada por Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), com compensação ambiental caso a caso.

Segundo o Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), Goiânia deve enfrentar, a partir de setembro, ondas de calor e estiagem prolongada, com temperaturas de até 38°C e umidade em torno de 12%, associadas ao El Niño, que bloqueia frentes frias no Centro-Oeste. Everaldo Pastore, em um apelo às autoridades, encerra:

“Nesse momento, nós estamos vivendo a situação de um super El Niño. Então, nós vamos ter catástrofes, e essas catástrofes são oriundas de uma mudança climática. Está na hora de cair a ficha das pessoas.”

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