Cavalhadas de Corumbá mantêm tradição de quase 275 anos
Espetáculo gratuito acontece de sexta a domingo no Campo das Cavalhadas, no Bairro 9 de Junho, com expectativa de receber mais de 15 mil turistas em Corumbá de Goiás
Em Corumbá de Goiás, a preparação para as Cavalhadas não começa quando os cavaleiros entram em campo. Em algumas famílias, ela começa anos antes, quando crianças acompanham pais, tios e avós nos ensaios, observam os movimentos dos cavalos e aprendem, aos poucos, uma encenação que faz parte da história da cidade desde o século 18.
Essa transmissão entre gerações ajuda a explicar por que, quase 275 anos depois das primeiras apresentações, mouros e cristãos continuam a ocupar a arena. De sexta-feira (4) a domingo (6), 24 cavaleiros voltam ao Campo das Cavalhadas Rei Hastímphilo Cesas Curado Fleury, no Bairro 9 de Junho, para mais uma edição do festejo. As apresentações acontecem das 15h às 18h, com entrada gratuita, e a expectativa é receber mais de 15 mil turistas.
A encenação coloca frente a frente 12 cavaleiros mouros e 12 cristãos, liderados pelos respectivos reis. Espadas, lanças, garruchas e tiros de festim compõem uma batalha inspirada nos conflitos medievais entre cristãos e muçulmanos. Ao longo dos três dias, diferentes etapas do confronto são apresentadas até o desfecho, no domingo, com a vitória dos cristãos e a conversão dos mouros ao cristianismo.
Em entrevista ao O Hoje, o historiador Ramir Curado explica que a permanência da festa não significa uma sequência ininterrupta de apresentações. O maior intervalo ocorreu entre 1956 e 1980, quando as Cavalhadas ficaram 24 anos sem ser encenadas.
Ainda assim, a tradição não se perdeu. Participantes da fase anterior estavam vivos quando a festa foi retomada e ajudaram a reconstruir a dinâmica do espetáculo. Documentos com diálogos e descrições das coreografias também foram preservados, assim como roupas e adornos utilizados por cavaleiros e cavalos.
A falta de recursos foi, de acordo com Curado, o principal motivo das paralisações. A retomada de 1980 marcou uma mudança nesse cenário, quando a Prefeitura de Corumbá passou a destinar recursos para a realização das Cavalhadas.
A música foi outro elemento preservado. A Banda de Música 13 de Maio acompanha o espetáculo desde 1891 e mantém em seu repertório galopes e quadrilhas associados às apresentações. Antes dela, outras formações já tinham participado da tradição, entre elas a Banda de Couro de Santo Elesbão, a União Corumbaense e a 14 de Julho.
Mas é dentro das famílias que a continuidade ganha outra dimensão. “Alguns cavaleiros levam para o ensaio um filho, sobrinho ou neto em idade infantil ou juvenil que demonstra interesse pelas Cavalhadas, para se entrosar e treinar a sua futura participação nesse espetáculo como seu sucessor. Esse costume é fundamental para a manutenção dessa tradição, pois cria laços entre a nova geração e a tradição, incentivando a sua permanência”, explicou Ramir.
Essa passagem de funções entre gerações convive com mudanças feitas ao longo do tempo. “A coreografia de algumas corridas, as coroas dos reis e os capacetes dos embaixadores foram alterados no final do século XX. Já as formas, cores e símbolos existentes nos uniformes dos cavaleiros, bem como os capacetes dos soldados mouros e cristãos, não sofreram alterações significativas desde o século XVIII”, afirmou o historiador.
Os cristãos entram no campo vestidos de azul, com enfeites prateados e símbolos ligados ao cristianismo. Os mouros usam vermelho, detalhes dourados e elementos associados ao islamismo. Os cavalos recebem ornamentação correspondente ao grupo de seus cavaleiros e são treinados para participar das corridas ao ritmo da banda.
Nos intervalos da batalha, entram os mascarados. Sem falas, eles circulam pelo espaço e interagem com o público por meio de gestos e ações. Neste ano, entre os participantes estarão as filhas de José Quirino Gouveia de Moraes, o Juca, atual Rei Mouro.
Aos 70 anos, Juca integra as Cavalhadas desde os 22. Foi soldado mouro na retomada de 1980 e, em 2026, completa 45 participações. “Toda vez que entro em campo sinto mais a força e a responsabilidade da minha encenação. As Cavalhadas são a minha vida, a minha história”, afirmou.
Do outro lado está Eudes Soares Cardoso, atual Rei Cristão. Ele começou a participar em 1993, como sétimo soldado cristão, tornou-se embaixador em 2014 e assumiu o posto de rei em 2019. “Desde pequeno vivo essa tradição. Eu não tenho palavras para representar o que sinto quando entro na arena. É uma alegria muito intensa. Esse momento é o mais precioso que compartilhamos entre nós, corumbaenses. É a nossa tradição”, disse.
A participação da cidade não termina nos cavaleiros. Costureiras trabalham nos figurinos, cozinheiras cuidam das refeições e ajudantes participam da preparação do espaço e dos ensaios. Os 24 cavalos pertencem aos próprios cavaleiros e também fazem parte de uma rotina de treinamento que antecede as apresentações.
“Para os corumbaenses, as Cavalhadas representam a oportunidade de vivenciar um teatro que herdaram das gerações anteriores, relembradas e referenciadas nesse espetáculo nas figuras dos ex-cavaleiros locais. O espetáculo mostra suas origens europeias ao encenar as lutas entre os cristãos europeus e os muçulmanos da Mauritânia na Europa medieval”, comentou Ramir.
A renovação da festa também passa pelas crianças. Corumbá mantém as Cavalhadas Mirins e projetos escolares voltados à tradição. “Continuando a incentivar as Cavalhadas Mirins, nas quais as crianças corumbaenses encenam, de forma simplificada e resumida, esse espetáculo, e também os projetos escolares desenvolvidos nas escolas locais, visando estudar essa manifestação cultural”, afirmou o historiador.
É nesse contato, ainda na infância, que novos participantes começam a se aproximar de uma tradição mantida há quase três séculos.
Serviço
O quê: Cavalhadas de Corumbá de Goiás
Quando: 4, 5 e 6 de setembro, das 15h às 18h
Onde: Campo das Cavalhadas Rei Hastímphilo Cesas Curado Fleury, Bairro 9 de Junho, Corumbá de Goiás
Entrada: gratuita
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