Morre Gloria Steinem, jornalista e símbolo do feminismo americano, aos 92 anos
Jornalista e ativista ajudou a levar temas como aborto, igualdade salarial e violência contra as mulheres ao debate público nos Estados Unidos
Gloria Steinem, jornalista e uma das principais referências do feminismo nos Estados Unidos, morreu aos 92 anos em sua casa, em Nova York. A morte ocorreu na quarta-feira (2) e foi anunciada na quinta-feira (3) pela fundação que leva seu nome. A causa não foi divulgada. Por mais de cinco décadas, Steinem atuou pela ampliação dos direitos das mulheres, da participação política aos direitos reprodutivos.
Parte dessa atuação nasceu justamente das limitações que encontrou dentro do jornalismo. No início da carreira, teve propostas de reportagens sobre feminismo recusadas por editores. Em vez de permanecer apenas na escrita, passou a ocupar auditórios, universidades, manifestações e organizações políticas. O que começou como dificuldade para publicar determinados assuntos acabou ampliando sua presença no debate público.
Antes disso, em 1963, já havia produzido uma das reportagens mais conhecidas de sua carreira. Para escrevê-la, se infiltrou como funcionária em um Playboy Club, rede de clubes ligada à revista Playboy. O relato, dividido em duas partes e publicado pela revista Show, expôs as condições de trabalho das garçonetes e contrariou o discurso de Hugh Hefner sobre a proposta do empreendimento.
Cinco anos depois, publicou na revista New York, que também ajudou a fundar, o artigo After Black Power, Women’s Liberation. O texto contribuiu para consolidá-la como uma das vozes da segunda onda feminista, que ganhava força nos Estados Unidos no fim dos anos 1960.
Cinco anos depois, publicou na revista New York, que também ajudou a fundar, o artigo After Black Power, Women’s Liberation. O texto contribuiu para consolidá-la como uma das vozes da segunda onda feminista, que ganhava força nos Estados Unidos no fim dos anos 1960.
Steinem levou essa agenda também para a imprensa feita por mulheres. Foi uma das fundadoras da revista Ms., criada na década de 1970 e dedicada a assuntos que raramente encontravam espaço de destaque nas publicações femininas tradicionais. Aborto, violência doméstica, assédio sexual, igualdade salarial e participação política passaram a ocupar suas páginas.
A militância se expandiu para outras frentes. Em 1971, Steinem ajudou a criar o National Women’s Political Caucus ao lado de Bella Abzug, Shirley Chisholm e Betty Friedan. Também participou da criação de organizações voltadas à representação das mulheres na política, na mídia e no trabalho. Em 2013, recebeu de Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil dos Estados Unidos.
Entre as pautas que atravessaram sua vida pública, o direito ao aborto ocupou lugar central. A discussão também tinha uma dimensão pessoal: aos 22 anos, Steinem havia passado por um aborto clandestino. Décadas depois, continuaria defendendo o direito das mulheres de decidir sobre o próprio corpo e a necessidade de acesso legal e seguro ao procedimento.
Nascida em Toledo, Ohio, em 1934, Steinem permaneceu ativa até a velhice. Já depois dos 80 anos, seguia viajando e participando de discussões sobre igualdade de gênero e outras questões sociais. Em 2026, aos 91, colaborou com a vencedora do Nobel da Paz Leymah Gbowee em um livro ilustrado voltado a jovens.
Sua influência ultrapassou o ativismo e o jornalismo. A vida de Steinem chegou ao teatro e ao cinema e foi retratada em The Glorias, longa de 2020 baseado em suas memórias, com Julianne Moore interpretando a ativista na maturidade.
Steinem passou mais de meio século tornando públicas discussões que, quando começou a escrever, muitas vezes eram tratadas como questões privadas. Foi nessa passagem entre reportagem, organização política e participação nas ruas que seu nome se tornou inseparável da história recente do feminismo norte-americano. Ativa até os últimos anos de vida, deixou ainda um novo livro de memórias, An Unexpected Life, com lançamento previsto para este mês nos Estados Unidos.
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