Onde é que a gente se encontra? Como a cidade pode ajudar a combater a solidão
Pesquisa mostra que 41% dos brasileiros adultos se sentem solitários; entenda por que espaços públicos e culturais podem fazer diferença na vida cotidiana
A solidão está presente na vida de muitos brasileiros. Pesquisa do Family Talks, em parceria com a consultoria Market Analysis, mostra que 41,1% da população adulta relata esse sentimento. Entre as mulheres, o índice sobe para 46,2%; entre os homens, fica em 35,3%. O levantamento ouviu mais de mil pessoas em todo o país.
Os dados mostram que a solidão vai além da ausência de companhia. Ela aparece quando os vínculos existentes não correspondem às relações de que uma pessoa sente necessidade. Por isso, alguém pode passar o dia entre colegas de trabalho, mensagens e contatos nas redes sociais e, ainda assim, conviver com a falta de conexão.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já trata a solidão e o isolamento social como questões que afetam a saúde e a qualidade de vida. O debate ganhou força à medida que estudos passaram a observar os efeitos da falta persistente de conexão sobre o bem-estar físico e emocional. Mas compreender o problema exige olhar também para o que acontece fora do indivíduo.
A própria pesquisa brasileira aponta nessa direção. Para 61,1% dos entrevistados, as causas da solidão estão principalmente em fatores externos, e não em falhas pessoais. O levantamento também registra diferenças de acordo com a renda. Entre pessoas da classe A, 24,7% se declaram solitárias. Nas classes C2 e D/E, a proporção chega a cerca de 45%.
Nesse contexto, a discussão sobre solidão também chega às ruas. A maneira como uma cidade é organizada interfere nas oportunidades de encontrar pessoas fora dos círculos já estabelecidos. Quando a rotina se concentra entre casa, trabalho, transporte e compromissos previamente marcados, diminuem as situações em que o contato acontece sem planejamento.
Praças, parques, bibliotecas, centros culturais, feiras e outros ambientes compartilhados podem interromper esse circuito. Não porque tenham capacidade de produzir amizades por si só, mas porque oferecem algo cada vez menos frequente na vida cotidiana: a possibilidade de permanecer perto de outras pessoas sem que o encontro precise ser agendado.
Uma conversa depois de uma sessão de cinema, o cumprimento repetido a quem frequenta o mesmo parque ou alguns minutos trocados durante uma oficina são contatos pequenos quando comparados a relações familiares ou amizades duradouras. Ainda assim, fazem parte da construção de uma vida social. A sensação de pertencimento não nasce apenas dos vínculos mais íntimos, mas também do reconhecimento de que se ocupa um espaço comum com outras pessoas.
A cultura amplia essas possibilidades. Museus, teatros, bibliotecas e centros culturais colocam pessoas de idades, histórias e interesses distintos diante de uma experiência compartilhada. Uma exposição pode provocar uma conversa. Uma oficina cria um assunto em comum. Um espetáculo reúne, por algumas horas, desconhecidos que dificilmente estariam juntos em outra situação.
Esses lugares também permitem outro tipo de encontro, aquele em que a pessoa não necessariamente conversa com alguém. Permanecer em uma praça, observar uma obra ou passar algum tempo em uma biblioteca pode oferecer pausa e afastamento temporário de uma rotina marcada por cobranças, deslocamentos e telas. Conviver não significa conversar o tempo inteiro. Às vezes, significa apenas estar entre pessoas e perceber-se parte de uma cidade que também é ocupada por elas.
Para que isso aconteça, no entanto, não basta construir um espaço visualmente atraente. Transporte público, acessibilidade, segurança, iluminação, bancos, sombra, banheiros e atividades gratuitas influenciam quem consegue chegar, permanecer e retornar. A localização e o custo também definem quais grupos terão acesso àquele ambiente.
Quando quase todas as alternativas de lazer exigem consumo, deslocamentos longos ou planejamento financeiro, as oportunidades de convivência diminuem para quem dispõe de menos recursos. A diferença encontrada pela pesquisa entre as classes sociais reforça que a solidão não pode ser analisada apenas como resultado de escolhas individuais.
O mesmo vale para a tecnologia. As telas mantêm relações, aproximam quem está distante e permitem encontrar pessoas com interesses semelhantes. O problema surge quando o contato digital ocupa quase todas as brechas da rotina e deixa pouco espaço para experiências presenciais. Sair de casa passa a exigir uma decisão que antes podia acontecer de maneira mais espontânea.
Nenhuma praça, biblioteca ou programação cultural elimina sozinha a solidão, assim como estar entre pessoas não garante vínculos. O que esses lugares podem oferecer são condições para que o encontro aconteça. Quanto mais acessíveis e incorporados à vida cotidiana, maiores as possibilidades de criar relações que não dependam exclusivamente da família, do trabalho ou das redes sociais.
Em um país em que quatro em cada dez adultos dizem sentir-se sozinhos, discutir convivência significa também observar a cidade que existe do lado de fora de casa. Espaços onde seja possível parar, circular, encontrar gente e permanecer sem a obrigação de consumir não resolvem um problema tão amplo. Mas ajudam a recuperar algo básico para a vida coletiva: a oportunidade de estar com o outro.
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