Cassiterita ilegal da Amazônia teria abastecido gigantes globais
Investigação aponta que cassiterita extraída ilegalmente da Amazônia teria abastecido empresas globais por meio de esquema de falsificação
A cassiterita extraída ilegalmente de áreas protegidas da Amazônia teria abastecido a cadeia de suprimentos de grandes empresas globais de tecnologia e outros setores. Documentos sigilosos da Operação Forja de Hefesto, da Polícia Federal, e investigações do Ministério Público Federal (MPF) apontam para um esquema envolvendo extração, transporte, beneficiamento e comercialização do minério.
As informações foram divulgadas pelo GLOBO, que acompanhou a investigação e teve acesso aos documentos. Entre as empresas citadas na apuração estão Apple, Microsoft, Amazon, Disney e Sony, além de companhias como Starbucks, Caterpillar, PepsiCo, Colgate-Palmolive e Victoria’s Secret.
Esquema teria movimentado R$ 200 milhões
Segundo a investigação, a empresa brasileira White Solder, com sede em Ribeirão Preto (SP) e filiais em Manaus (AM) e Ariquemes (RO), tornou-se ré na Justiça sob acusação de participar de um esquema de receptação, refino e regularização fraudulenta de cassiterita.
De acordo com os documentos obtidos pelo GLOBO, o esquema teria movimentado pelo menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025. Somente entre maio e agosto de 2021, a contabilidade apreendida pela Polícia Federal registrou o escoamento de mais de 525 toneladas do minério de origem ilegal.
A cassiterita é a matéria-prima bruta da qual é extraído o estanho, utilizado, entre outras aplicações, na fabricação de componentes eletrônicos.
Minério teria recebido documentação falsa
A investigação aponta que parte da cassiterita extraída ilegalmente em território Yanomami, em Roraima, era registrada com documentos que davam aparência de legalidade ao produto.
Segundo o MPF, a Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil (Coopertin) teria emitido guias e notas fiscais para simular que o minério era proveniente de áreas autorizadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM).
Depois de chegar às instalações de beneficiamento em Rondônia, a cassiterita era transformada em lingotes de estanho. O processo industrial, segundo a apuração, eliminava características físicas que poderiam indicar a origem do material.
Com a documentação regularizada, o produto era inserido no mercado formal e poderia chegar à cadeia internacional de fornecimento.
Empresas foram notificadas
O MPF cruzou relatórios de auditoria apresentados pela White Solder com dados da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a SEC.
A análise apontou que a empresa brasileira aparecia formalmente como fornecedora de estanho nos registros de grandes companhias listadas nas bolsas americanas.
Dez multinacionais com atuação no Brasil foram notificadas em uma investigação cível por possíveis falhas nos mecanismos de verificação socioambiental e de direitos humanos.
A apuração também resultou em pedidos de indenização por danos ambientais, patrimoniais e morais coletivos relacionados à cadeia de extração, transporte, industrialização e comercialização de minerais de origem ilegal.
Garimpo avança sobre áreas protegidas
As investigações apontam que a extração ilegal de cassiterita ocorria na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e também no Parque Nacional dos Campos Amazônicos.
No território Yanomami, a investigação identificou uma estrutura organizada de exploração, com uso de máquinas, bombas, aeronaves e pistas clandestinas.
Segundo o GLOBO, o MPF denunciou empresários e operadores apontados como envolvidos no esquema. Empresas como White Solder e Coopertin também foram incluídas na ação.
No Parque Nacional dos Campos Amazônicos, uma vistoria realizada em 2024 identificou acampamentos clandestinos e áreas de degradação. Imagens do Censipam apontaram 193 hectares de floresta devastados e 15 pistas de pouso ilegais no parque e em sua zona de amortecimento.
Investigação também encontrou minerais estratégicos
A análise de rejeitos do processo de separação do estanho revelou a presença de minerais considerados estratégicos para diferentes setores tecnológicos.
Peritos da Polícia Federal identificaram concentrações de monazita e ilmenita, além de columbita. A monazita está associada a elementos de terras raras, enquanto a columbita é fonte de nióbio e tântalo.
As investigações apontam que esses materiais passaram a ser aproveitados pela rede criminosa, acompanhando o aumento da demanda internacional por minerais estratégicos.
Falta de rastreabilidade preocupa autoridades
Outro problema apontado na investigação é a ausência de um sistema nacional capaz de acompanhar a cassiterita desde a extração até o processamento industrial.
Segundo o GLOBO, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) informou que ainda não existem estudos de rastreabilidade para a cassiterita nos moldes dos que começam a ser desenvolvidos para o ouro.
A própria Agência Nacional de Mineração (ANM) admitiu que atualmente não existe um sistema nacional de rastreabilidade da cassiterita capaz de acompanhar o minério desde a extração até a transformação industrial.
Procuradas pelo GLOBO, algumas das empresas citadas não se manifestaram até a publicação da reportagem. A Amazon afirmou não ter relação comercial direta com a White Solder e disse estar reforçando mecanismos de verificação junto aos fornecedores. A Disney informou que não foi citada no inquérito mencionado. As defesas dos acusados negaram envolvimento.
O caso integra a série “Ouro Invisível”, do GLOBO, que investiga como minerais extraídos ilegalmente da Amazônia podem chegar à cadeia global de tecnologia e outros mercados.
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