sábado, 7 de novembro de 2026
INVESTIGAÇÃO

Cassiterita ilegal da Amazônia teria abastecido gigantes globais

Investigação aponta que cassiterita extraída ilegalmente da Amazônia teria abastecido empresas globais por meio de esquema de falsificação

Micael Mourapor em
Amazônia
Foto: Reprodução/Agência do Senado

A cassiterita extraída ilegalmente de áreas protegidas da Amazônia teria abastecido a cadeia de suprimentos de grandes empresas globais de tecnologia e outros setores. Documentos sigilosos da Operação Forja de Hefesto, da Polícia Federal, e investigações do Ministério Público Federal (MPF) apontam para um esquema envolvendo extração, transporte, beneficiamento e comercialização do minério.

As informações foram divulgadas pelo GLOBO, que acompanhou a investigação e teve acesso aos documentos. Entre as empresas citadas na apuração estão Apple, Microsoft, Amazon, Disney e Sony, além de companhias como Starbucks, Caterpillar, PepsiCo, Colgate-Palmolive e Victoria’s Secret.

Esquema teria movimentado R$ 200 milhões

Segundo a investigação, a empresa brasileira White Solder, com sede em Ribeirão Preto (SP) e filiais em Manaus (AM) e Ariquemes (RO), tornou-se ré na Justiça sob acusação de participar de um esquema de receptação, refino e regularização fraudulenta de cassiterita.

De acordo com os documentos obtidos pelo GLOBO, o esquema teria movimentado pelo menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025. Somente entre maio e agosto de 2021, a contabilidade apreendida pela Polícia Federal registrou o escoamento de mais de 525 toneladas do minério de origem ilegal.

A cassiterita é a matéria-prima bruta da qual é extraído o estanho, utilizado, entre outras aplicações, na fabricação de componentes eletrônicos.

Minério teria recebido documentação falsa

A investigação aponta que parte da cassiterita extraída ilegalmente em território Yanomami, em Roraima, era registrada com documentos que davam aparência de legalidade ao produto.

Segundo o MPF, a Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil (Coopertin) teria emitido guias e notas fiscais para simular que o minério era proveniente de áreas autorizadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM).

Depois de chegar às instalações de beneficiamento em Rondônia, a cassiterita era transformada em lingotes de estanho. O processo industrial, segundo a apuração, eliminava características físicas que poderiam indicar a origem do material.

Com a documentação regularizada, o produto era inserido no mercado formal e poderia chegar à cadeia internacional de fornecimento.

Empresas foram notificadas

O MPF cruzou relatórios de auditoria apresentados pela White Solder com dados da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a SEC.

A análise apontou que a empresa brasileira aparecia formalmente como fornecedora de estanho nos registros de grandes companhias listadas nas bolsas americanas.

Dez multinacionais com atuação no Brasil foram notificadas em uma investigação cível por possíveis falhas nos mecanismos de verificação socioambiental e de direitos humanos.

A apuração também resultou em pedidos de indenização por danos ambientais, patrimoniais e morais coletivos relacionados à cadeia de extração, transporte, industrialização e comercialização de minerais de origem ilegal.

Garimpo avança sobre áreas protegidas

As investigações apontam que a extração ilegal de cassiterita ocorria na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e também no Parque Nacional dos Campos Amazônicos.

No território Yanomami, a investigação identificou uma estrutura organizada de exploração, com uso de máquinas, bombas, aeronaves e pistas clandestinas.

Segundo o GLOBO, o MPF denunciou empresários e operadores apontados como envolvidos no esquema. Empresas como White Solder e Coopertin também foram incluídas na ação.

No Parque Nacional dos Campos Amazônicos, uma vistoria realizada em 2024 identificou acampamentos clandestinos e áreas de degradação. Imagens do Censipam apontaram 193 hectares de floresta devastados e 15 pistas de pouso ilegais no parque e em sua zona de amortecimento.

Investigação também encontrou minerais estratégicos

A análise de rejeitos do processo de separação do estanho revelou a presença de minerais considerados estratégicos para diferentes setores tecnológicos.

Peritos da Polícia Federal identificaram concentrações de monazita e ilmenita, além de columbita. A monazita está associada a elementos de terras raras, enquanto a columbita é fonte de nióbio e tântalo.

As investigações apontam que esses materiais passaram a ser aproveitados pela rede criminosa, acompanhando o aumento da demanda internacional por minerais estratégicos.

Falta de rastreabilidade preocupa autoridades

Outro problema apontado na investigação é a ausência de um sistema nacional capaz de acompanhar a cassiterita desde a extração até o processamento industrial.

Segundo o GLOBO, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) informou que ainda não existem estudos de rastreabilidade para a cassiterita nos moldes dos que começam a ser desenvolvidos para o ouro.

A própria Agência Nacional de Mineração (ANM) admitiu que atualmente não existe um sistema nacional de rastreabilidade da cassiterita capaz de acompanhar o minério desde a extração até a transformação industrial.

Procuradas pelo GLOBO, algumas das empresas citadas não se manifestaram até a publicação da reportagem. A Amazon afirmou não ter relação comercial direta com a White Solder e disse estar reforçando mecanismos de verificação junto aos fornecedores. A Disney informou que não foi citada no inquérito mencionado. As defesas dos acusados negaram envolvimento.

O caso integra a série “Ouro Invisível”, do GLOBO, que investiga como minerais extraídos ilegalmente da Amazônia podem chegar à cadeia global de tecnologia e outros mercados.

Leia mais:

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
abastecido Amazônia Cassiterita gigantes globais ilegal

Veja também

lutador

Tentativa de feminicídio

Lutador preso por agredir três vizinhas no Rio diz não se lembrar dos ataques

Em depoimento, homem afirmou que faz uso de anabolizantes. Uma das vítimas, de 81 anos, continua in...
Bets

Bets

Justiça suspende liberação de três casas de apostas após recurso do governo

Decisão do TRF3 restabelece efeitos da medida provisória que proibiu as operações das empresas C...
Cartórios adotam regras para identificar violência patrimonial contra mulheres

Segurança da mulher

Cartórios adotam regras para identificar violência patrimonial contra mulheres

Em Goiás, recomendação da Corregedoria-Geral da Justiça orienta cartórios a identificar sinais ...
Prefeitura de Goiânia destina R$ 19,7 milhões à agricultura familiar para merenda escolar

MERENDA ESCOLAR

Prefeitura de Goiânia destina R$ 19,7 milhões à agricultura familiar para merenda escolar

Cooperativa de frango, polpa de frutas e leite UHT estão entre os produtos que a rede municipal de ...
Goiânia terá calor de 34°C e previsão de chuva neste sábado (07)

PREVISÃO DO TEMPO

Goiânia terá calor de 34°C e previsão de chuva neste sábado (07)

Dia começa com muitas nuvens, mas previsão indica chuva isolada à tarde e pancadas acompanhadas d...
Câmara de Santa Helena de Goiás abre concurso com salários de até R$ 3,3 mil

Concurso Público

Câmara de Santa Helena de Goiás abre concurso com salários de até R$ 3,3 mil

Seleção oferece oportunidades para cinco cargos de níveis fundamental, médio e superior
GCM de Aparecida de Goiânia prende dois foragidos em ações integradas

videomonitoramento

GCM de Aparecida de Goiânia prende dois foragidos em ações integradas

Um dos procurados foi identificado por câmeras inteligentes na região do Pontal Sul, em Aparecida....
Lutador

COVARDE

Lutador é preso após dar mais de 35 golpes em mulher dentro de elevador no Rio de Janeiro; veja vídeo

Agressão durou cerca de três minutos e foi registrada por câmeras de segurança