quarta-feira, 21 de outubro de 2026
PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO

Trabalhadores por aplicativo somam 2 milhões no Brasil e enfrentam alta informalidade, aponta IBGE

Dados do IBGE revelam que sete em cada dez trabalhadores de aplicativo estão na informalidade, sem direito a férias, 13º salário ou auxílio-doença

Gabriel Diaspor em
Entregador por aplicativo do Ifood
Entregador por aplicativo. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Cerca de 2 milhões de brasileiros vivem hoje de trabalhos em aplicativos de entrega. Sete a cada dez não têm carteira assinada, direito a férias ou 13º salário. Esses dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (4) pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), ferramenta que investiga as condições do mercado de trabalho no Brasil.

Segundo o levantamento, que considerou entregadores a partir de 14 anos de idade, motoristas por aplicativo ganham cerca de R$14,4 por hora trabalhada, enquanto os que não usam as plataformas ganham R$16,0 por hora. Para complementar a renda, muitos entregadores esticam a jornada semanal, que atualmente é de 45,9 horas em média. Os que não trabalham em plataformas cumprem 39,3 horas semanais em média.

Lucas Cordeiro, de 27 anos, é promotor de vendas e usa as plataformas de entrega para complementar a renda. Segundo Cordeiro, a autonomia do trabalho se restringe a escolher horários e rotas, já que a plataforma dita os valores. “A única autonomia que temos no trabalho é escolher a hora de trabalhar e de voltar para casa. Eles pagam o valor que querem, na hora que querem, no momento que querem. Às vezes, quando está chovendo, pagam um valor a mais. Ou em feriados, para garantir que as pessoas trabalhem, pagam um adicional, que aí compensa. Mas fora isso, a única autonomia que temos é aceitar ou não aceitar um pedido.”

A antropóloga Camilla Nascimento, doutoranda pela Universidade Federal de Goiás (UFG), chama esse arranjo de “neoliberalismo autoritário”. “Existe uma contradição estrutural entre a promessa de liberdade e a realidade de controle tecnológico e falta de autonomia. O trabalhador assume sozinho os custos operacionais, como combustível e manutenção, e os riscos corporais. Ao mesmo tempo, para sobreviver, se submete a jornadas de até 45,9 horas semanais, monitorado por algoritmos que ditam as regras do jogo.”

Leia também:

 

 

A falsa promessa de autonomia

A autonomia vendida pelas plataformas é sustentada por três pilares frágeis, segundo a antropóloga. O primeiro é a ausência de poder de definir o valor das corridas. Enquanto um autônomo tradicional estipula o preço do próprio serviço, as plataformas determinam tarifas e regras de remuneração. O segundo é a combinação de jornadas maiores com ganho menor por hora. Motoristas por aplicativo recebem menos e, para compensar, estendem a jornada semanal a 45,9 horas, enquanto motociclistas cumprem 44,9 horas. O terceiro é a subordinação. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a liberdade de se conectar ou desconectar não elimina o controle rígido exercido por sistemas de pontuação, que influenciam diretamente a oferta de corridas. “Essa autonomia se limita à escolha de quando se expor ao cansaço e ao risco de acidentes”, resume Nascimento.

O preço da informalidade

A ausência de previdência, como auxílio-doença, aposentadoria garantida e pensão por morte em caso de acidente fatal, é o principal sintoma da precarização dos motociclistas. Lucas Cordeiro está atualmente afastado do trabalho por motivos de saúde e destaca o “score” do aplicativo, mecanismo que pune quem deixa de fazer corridas e recompensa quem mantém a frequência. “A plataforma às vezes incentiva, manda convite para se cadastrar. Mas quando a gente não pode ir, o nosso score dentro da plataforma cai. Conforme você vai aumentando, vão caindo mais pedidos pra você. O aplicativo tem um seguro, ele aconselha todos os motoqueiros a pagar um seguro, caso aconteça alguma coisa, pra ter algo ali pra se resguardar. Mas não tem auxílio-doença.”

Nascimento alerta que essa informalidade terá consequências diretas em todo o sistema previdenciário do país. Conforme a geração envelhecer ou adoecer sem ter contribuído para a previdência tradicional, o sistema público de assistência social será sobrecarregado. “Para o sistema de seguro social, o contingente desses profissionais cresce aceleradamente. O número de motociclistas de aplicativos praticamente dobrou em três anos, enquanto os motoristas somam 905 mil pessoas. No futuro, à medida que essa grande massa de trabalhadores envelhecer ou adoecer, haverá uma enorme sobrecarga sobre o sistema público de assistência social do Estado, uma vez que essas pessoas não contribuíram para a previdência tradicional para equilibrar o sistema.”

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Entregadores IBGE ifood Informalidade Mercado de trabalho motoristas de aplicativo precarização do trabalho previdência social trabalho por aplicativo uberização

Veja também

Goiânia inaugura unidade de saúde no Vale dos Sonhos após retomada de obra paralisada

SAÚDE

Goiânia inaugura unidade de saúde no Vale dos Sonhos após retomada de obra paralisada

USF tem capacidade para cerca de 3 mil atendimentos por mês, recebeu investimento de R$ 3,1 milhõe...
Homem fica prensado entre dois carros e sofre fratura em São Sebastião (DF)

Colisão

Homem fica prensado entre dois carros e sofre fratura em São Sebastião (DF)

Acidente aconteceu no estacionamento de um bloco residencial, no Crixá 4, na manhã desta quarta-fe...
Mulher investigada por furto de 36 coletes balísticos do Detran-DF se apresenta à polícia

furto de coletes

Mulher investigada por furto de 36 coletes balísticos do Detran-DF se apresenta à polícia

Suspeita estava foragida e teve prisão temporária cumprida nesta terça-feira (20). Caso é invest...
Colisão entre carro e caminhão deixa motorista ferido no Guará (DF)

carro x caminhão

Colisão entre carro e caminhão deixa motorista ferido no Guará (DF)

Colisão ocorreu na Avenida Central da QI 25, na tarde desta quarta-feira (21). Vítima teve ferimen...
Professora de 79 anos segue em coma após agressão em Goiânia

Violência

Professora de 79 anos segue em coma após agressão em Goiânia

Elizabeth Caramaschi está intubada no Hugo e aguarda estabilização clínica para passar por cirur...
DF

FUNCIONALISMO PÚBLICO

DF transfere ponto facultativo do Dia do Servidor para 30 de outubro

Decreto publicado no Diário Oficial altera o calendário da administração pública distrital e mu...
Goiânia amplia rede e prepara programa para população de rua

ASSISTÊNCIA SOCIAL

Goiânia amplia rede e prepara programa para população de rua

Estudo do Programa Recomeço estima R$ 120 mil mensais em passagens para que pessoas em situação d...
MPGO investiga suspeitos de invadir redes sociais para aplicar golpes com falsos investimentos

Alerta ao Golpe

MPGO investiga suspeitos de invadir redes sociais para aplicar golpes com falsos investimentos

Operação Strike Back cumpriu seis mandados de busca e apreensão em São Paulo e no Paraná; núme...