sexta-feira, 16 de outubro de 2026
Setembro Amarelo

Uso de medicamentos para saúde mental cresce no Brasil; saiba quando o remédio é mesmo necessário

No Setembro Amarelo, avanço no consumo reforça debate sobre diagnóstico, prescrição e acompanhamento médico

Luana Avelarpor em
medicamentos
Foto: Magnific

O Setembro Amarelo amplia, todos os anos, a conversa sobre sofrimento psíquico, prevenção e busca por ajuda. Em 2026, esse debate encontra um cenário que mudou de forma na última década: mais brasileiros chegaram aos serviços de saúde mental e o uso de medicamentos também cresceu. O avanço pode significar maior acesso ao tratamento, mas levanta uma questão cada vez mais presente nos consultórios: quando a medicação é necessária e quando emoções difíceis da vida estão sendo tratadas como doença?

Levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), divulgado em 2025, mostra que o uso de antipsicóticos aumentou mais de 50% no país entre 2013 e 2023. No mesmo período, o volume de medicamentos utilizados em tratamentos relacionados à saúde mental passou de 29 milhões para 44,6 milhões.

A procura por assistência também avançou no Sistema Único de Saúde (SUS). Os atendimentos psicossociais praticamente dobraram em dez anos, de 13,1 milhões para 26,4 milhões.

Para a psiquiatra Renata Pedroso Carvalho, os números precisam ser lidos por mais de uma perspectiva. Há mais sofrimento psíquico, mas também menos resistência em procurar acompanhamento. “Hoje se fala mais sobre o assunto, existe menos estigma em procurar um psiquiatra ou um psicólogo e, consequentemente, pessoas que antes sofreriam durante anos sem tratamento estão chegando mais aos serviços de saúde”, explica.

Essa mudança representa um avanço, mas não elimina o risco de excesso. Tristeza, frustração, ansiedade diante de determinadas situações e períodos de maior vulnerabilidade fazem parte da experiência humana. O que diferencia essas situações de um transtorno envolve duração, intensidade dos sintomas e o impacto provocado na rotina.

“Nem todo sofrimento emocional é necessariamente um transtorno mental e nem todo sofrimento precisa ser tratado com medicação”, ressalta Renata. É justamente essa distinção que impede que o aumento da atenção à saúde mental se transforme automaticamente em aumento de diagnósticos.

Tratamento não é sinônimo de remédio

Medicamentos podem ser fundamentais em quadros como depressão, transtornos de ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia e TDAH, a depender da gravidade e dos prejuízos provocados pelos sintomas. Mas a prescrição é apenas uma das possibilidades.

Em determinadas situações, psicoterapia e mudanças no estilo de vida podem ser suficientes. Em outras, o medicamento torna-se necessário e pode ser associado a essas estratégias. A decisão deve partir de avaliação individualizada.

O mesmo cuidado vale para crianças e adolescentes. Alguns transtornos começam ainda nessa fase da vida e podem exigir tratamento medicamentoso. Como o organismo e o cérebro ainda estão em desenvolvimento, porém, a análise de benefícios, efeitos colaterais e necessidade de acompanhamento precisa ser ainda mais criteriosa.

Ao mesmo tempo em que os tratamentos se tornaram assunto mais comum, os próprios medicamentos entraram no vocabulário das redes sociais. Memes e piadas ajudam a reduzir constrangimentos em torno dos diagnósticos, mas podem produzir outro efeito quando fazem determinados remédios parecerem inofensivos.

“São medicamentos importantes e que têm seu lugar no tratamento, mas precisam de indicação e acompanhamento médico. Alguns deles, inclusive, podem causar tolerância e dependência quando utilizados de forma inadequada”, alerta a psiquiatra.

O risco aumenta quando alguém decide experimentar uma medicação porque um amigo ou familiar teve bons resultados. Sintomas semelhantes podem ter origens diferentes, e o uso sem avaliação médica pode provocar efeitos adversos, mascarar sinais e atrasar o diagnóstico correto.

Parar também exige cuidado

A atenção não termina quando o medicamento começa a funcionar. Aumentar, reduzir ou suspender doses sem orientação pode comprometer o tratamento. Dependendo da substância, a retirada abrupta provoca sintomas próprios e pode favorecer o retorno ou a piora do quadro inicial.

A introdução também costuma ser gradual. Doses altas logo no início aumentam a possibilidade de efeitos colaterais e podem levar o paciente a abandonar uma medicação que teria bom resultado se ajustada de outra maneira.

Não há, ainda, um prazo padrão para o tratamento. Algumas pessoas usam medicamentos por meses; outras, durante anos ou por tempo indeterminado. Diagnóstico, gravidade, resposta e histórico individual entram nessa decisão.

Sentir-se melhor, portanto, não significa necessariamente que chegou a hora de interromper o uso. Da mesma forma, permanecer anos em tratamento não indica, por si só, que há algo errado. A necessidade da medicação deve ser revista ao longo do acompanhamento.

No contexto do Setembro Amarelo, o crescimento desses números ajuda a mostrar uma transformação importante: falar de saúde mental e procurar ajuda se tornou mais comum. O próximo desafio é preservar esse avanço sem reduzir o cuidado à receita. Entre negligenciar o sofrimento e medicá-lo automaticamente existe uma etapa decisiva: compreender o que está acontecendo com cada pessoa e escolher, a partir daí, o tratamento que realmente faz sentido.

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