Adhemar Rocha fala sobre técnica, carreira e mudanças na música
No Manda Vê, preparador vocal aborda bastidores da profissão, saúde da voz e transformações no mercado musical
Na última segunda-feira (14), o preparador vocal, músico, produtor e arranjador Adhemar Rocha participou do podcast Manda Vê, apresentado por Juan Allaesse e Isadora Carvalho. Durante a conversa, ele abriu os bastidores de um trabalho que costuma permanecer longe do público: a preparação necessária para que cantores enfrentem gravações, turnês e grandes apresentações. O encontro também avançou sobre formação profissional, mudanças no consumo de música, inteligência artificial e os desafios de preservar identidade em um mercado movido pela disputa por atenção.
A relação de Adhemar com a música começou ainda na infância. Aos 5 anos, acompanhava a mãe cantar e tocar violão, enquanto encontrou na igreja evangélica espaço para experimentar instrumentos. Anos depois, já em Goiânia, transformou esse contato intuitivo em estudo. Em 2000, ingressou no Centro Cultural Gustav Ritter, onde se dedicou à teoria musical e à técnica vocal.
Foi durante essa formação que percebeu algo que mais tarde orientaria sua atuação profissional: ter uma voz considerada bonita não significa saber usá-la. Ao recordar o período, contou que conseguiu entrar nas aulas de canto depois de interpretar uma música de Marquinhos Gomes e emocionar a professora Martinha. A experiência veio acompanhada da constatação de que precisava corrigir hábitos na própria emissão vocal.
Essa combinação entre prática e estudo o levou aos bastidores de carreiras nacionais. Ao longo dos anos, trabalhou na preparação de nomes como Maiara & Maraisa, Léo Santana, Zé Neto & Cristiano, Murilo Huff, Lucas Lucco, Matheus & Kauan, Naiara Azevedo, Zé Felipe, Israel & Rodolffo e João Neto & Frederico. Como produtor e arranjador, também participou de projetos ligados a gravadoras como a Sony Music.
No podcast, Adhemar procurou afastar a ideia de que o trabalho do vocal coach se resume à aula de canto. Em grandes produções, a preparação acompanha a rotina do artista e precisa responder a situações muito diferentes. Ele relembrou aquecimentos feitos até em quartos de hotel e momentos de preparação para gravações de DVDs, quando ajustes precisam ser realizados pouco antes de o cantor entrar em cena.
Um dos conceitos apresentados por ele foi a coordenação pneumofonoarticulatória, que articula respiração, produção vocal e fala. Na prática, o objetivo é encontrar uma emissão eficiente, sem desperdício excessivo de ar ou esforço desnecessário. O conhecimento do funcionamento da laringe e das pregas vocais, afirmou, ajuda o cantor a entender melhor o próprio instrumento e a identificar como determinadas escolhas interferem na performance.
A técnica, porém, não termina na execução de uma nota. Adhemar chamou atenção para a maneira como respiração e articulação interferem no sentido de uma canção. Uma pausa feita no lugar errado pode quebrar uma frase e alterar sua compreensão. Por isso, a afinação, interpretação e entendimento do texto precisam funcionar de forma conjunta.
A manutenção da voz também exige uma rede de profissionais. Ele defendeu o diálogo entre preparadores vocais, fonoaudiólogos e otorrinolaringologistas, principalmente para artistas submetidos a uma agenda intensa. Aquecimento, desaquecimento e atenção aos sinais de fadiga fazem parte de uma rotina voltada não apenas ao resultado de uma apresentação, mas à continuidade da carreira.
A conversa saiu dos estúdios e alcançou um mercado musical que, na leitura de Adhemar, passa por uma mudança no modo de consumir entretenimento. Grandes eventos, áreas VIP e experiências que ultrapassam o próprio show ganharam espaço, enquanto as plataformas digitais intensificaram a circulação de conteúdos curtos e a cobrança por engajamento constante.
Para o preparador, adaptar-se a esse ambiente não deveria significar abandonar critérios artísticos. É nesse ponto que ele recorre à expressão “busca pelo belo”. Ao falar sobre música, defende atenção à composição, à harmonia, aos arranjos e à construção das letras. Citou Zezé Di Camargo ao mencionar repertórios em que identifica esse cuidado e argumentou que desenvolver uma escuta crítica também faz parte da formação de quem vive da música.
A inteligência artificial aparece como mais uma variável desse cenário. Adhemar acredita que ferramentas digitais devem ocupar espaço crescente nas produções e podem reduzir custos ou modificar a estrutura de apresentações. Não vê, contudo, a performance ao vivo sendo inteiramente substituída pela tecnologia. Para ele, permanece na relação direta entre artista e público algo que recursos artificiais ainda não reproduzem.
Entre técnica e mercado, a conversa retorna diversas vezes a uma ideia pessoal: “recomeçar todo dia”. Adhemar associa a expressão a uma experiência vivida em Salvador e a transformou em princípio para falar de vocação. Em um setor sujeito a mudanças rápidas, entende que permanência não depende apenas de visibilidade, mas da capacidade de continuar estudando, rever caminhos e reconhecer o que dá sentido ao próprio trabalho.
É nessa combinação que ele situa o futuro da carreira artística: utilizar as ferramentas disponíveis sem transformar tendências em finalidade. Para Adhemar, tecnologia, estratégia e exposição podem mudar a maneira como a música chega ao público, mas não eliminam a necessidade de preparação nem substituem aquilo que sustenta uma apresentação quando o artista finalmente sobe ao palco.
LEIA MAIS:
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.