El Niño e expansão urbana explicam alta de acidentes com peçonhentos em Goiás
Biólogo da SMS de Goiânia associa o calor do El Niño ao aumento na reprodução de escorpiões em áreas urbanas do Estado
Goiás registrou queda nos acidentes com escorpiões em 2026, e leve diminuição nos acidentes com serpentes. Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), levantados a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), o Estado registrou 5.094 acidentes com escorpiões entre janeiro e julho de 2026, contra 10.258 no mesmo período de 2025.
A redução também aparece em Goiânia. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) registrou 372 casos entre janeiro e julho deste ano, contra 431 no mesmo intervalo do ano passado. A Capital lidera o número de ocorrências no Estado, seguida por Formosa, Itumbiara, Rio Verde e Quirinópolis. O mês de maio concentrou o maior número de picadas de escorpião no Estado, com 820 registros. Goiás registrou dois óbitos por picada de escorpião em 2025. Em 2026, não há registro de mortes até o momento.
Segundo o Dr. Daniel Graziani, PhD em Ciências Biológicas, o Brasil registra aumento expressivo de acidentes com escorpiões, e por esse motivo agentes de endemias intensificaram o trabalho de educação ambiental na cidade. “A Gerência de Controle de Animais Sinantrópicos [que vivem em área urbana] intensificou o trabalho de educação ambiental por meio dos agentes de endemias, que já realizam visitas domiciliares para o controle do Aedes aegypti e passaram a levar também orientações sobre escorpiões. O escorpião tem como principal fonte de alimento as baratas”, comenta.
Graziani explica que a rede de esgoto oferece abrigo, alimento, água e proteção contra luz, além de ausência de predadores, o que favorece a reprodução da espécie. “Uma das orientações da Prefeitura de Goiânia à população é vedar o acesso da rede de esgoto ao interior das residências. A queda nos casos registrados no município é atribuída ao resultado dessa política de disseminação de informação”, completa o biólogo.
Flúvia Amorim, subsecretária de vigilância em saúde da SES-GO, afirma que a presença de escorpiões em áreas urbanas está ligada à oferta de alimento para o animal. Segundo Amorim, a limpeza constante da casa reduz a proliferação de baratas e o risco de aparecimento de escorpiões.
Segundo Daniel Graziani, o aumento de temperatura, característico do El Niño, favorece a proliferação de escorpiões. “O aumento de temperatura impulsiona a reprodução de insetos e amplia a oferta de alimento para outras espécies. O calor também intensifica o ciclo reprodutivo das baratas, o que amplia a disponibilidade de alimento para os escorpiões, favorece sua reprodução e aumenta o contato entre humanos e o animal”, ressalta.
O biólogo atribui o alto número de casos em Goiânia à eficiência da vigilância municipal, que ampliou a detecção de ocorrências. Graziani afirma que a cidade adotou medidas de controle de escorpiões cedo, com base no exemplo de São Paulo, onde o problema já era tratado como questão urbana grave com risco de morte.
Goiás registra 9,3 mil acidentes com cobras em 2026
O Sinan mostra que Goiás registrou 9.381 acidentes com serpentes entre janeiro e agosto de 2026, número próximo aos 9.711 casos registrados no mesmo período de 2025. O total de acidentes foi 15.070 em 2025 e 11.931 em 2024. O Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT) notificou 5.036 ocorrências envolvendo animais peçonhentos até setembro de 2026. O total supera os 2.060 casos de 2025 e os 1.618 de 2024. Entre esses atendimentos, 273 envolveram serpentes neste ano.
Para Daniel Graziani, o comportamento dos acidentes com serpentes está relacionado à expansão urbana sobre áreas de vegetação nativa, habitat natural dos animais. O biólogo aponta o crescimento de condomínios horizontais como uma das explicações para o fenômeno.
Segundo Graziani, esses empreendimentos ocupam áreas de transição entre o ambiente urbano e o silvestre e preservam elementos como lagos e áreas verdes, que antes serviam de abrigo às serpentes.
Como evitar acidentes e o que fazer em caso de picada
O dia 19 de setembro é o Dia Internacional de Atenção aos Acidentes Ofídicos, causados pela picada de serpentes peçonhentas, e serve para conscientizar sobre as medidas a serem tomadas frente a acidentes. Segundo Flúvia Amorim, a recomendação em acidentes com serpente ou escorpião é procurar atendimento médico imediatamente. A subsecretária orienta lavar o local da picada apenas com água e sabão antes de procurar a unidade de saúde mais próxima.
O Estado de Goiás distribui soro antiveneno em 86 dos 246 municípios goianos. Amorim afirma que a limitação de cobertura não decorre de problemas de gestão, mas da dificuldade dos laboratórios brasileiros em abastecer todas as unidades de saúde do País. A distribuição do soro segue estudo de incidência de casos. Municípios sem estoque acionam o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CEATOX), responsável por orientar a equipe médica sobre onde buscar o soro.
As medidas de prevenção recomendadas por Flúvia Amorim dependem do tipo de animal peçonhento e do ambiente. Em áreas urbanas, a orientação para reduzir a presença de escorpiões é manter quintais limpos, já que o acúmulo de sujeira favorece a presença de baratas, principal fonte de alimento do animal. Em zonas rurais, a recomendação para evitar acidentes com escorpiões inclui verificar os calçados antes do uso. Para serpentes, a subsecretária orienta o uso de botas de proteção durante a circulação em áreas de vegetação densa, além de atenção ao caminhar por esses locais.
As serpentes do gênero Bothrops, grupo que inclui as jararacas, são registradas na maior parte dos acidentes ofídicos identificados em Goiás. Até agosto de 2026, foram 761 ocorrências desse tipo, contra 920 no mesmo período de 2025. As serpentes do gênero Crotalus, como a cascavel, somaram 126 casos neste ano, e 219 no ano passado. Os acidentes por cobras corais verdadeiras totalizaram 11 registros no período.
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