terça-feira, 22 de setembro de 2026
Economia

Argentina vê economia encolher sob Milei às vésperas da eleição de 2027

Economia argentina perde força com queda do PIB e do consumo

Otavio Augustopor em
Argentina vê economia encolher sob Milei às vésperas da eleição de 2027
Foto: Divulgação

A economia da Argentina encolheu 0,6% no segundo trimestre de 2026, na comparação com os três meses anteriores. O resultado representa a primeira contração trimestral desde 2024 e interrompe uma sequência de expansão da atividade. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).

Apesar da queda trimestral, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2% em relação ao segundo trimestre de 2025. O avanço anual ocorreu principalmente com o aumento das exportações, enquanto o consumo e outros componentes da demanda apresentaram desempenho mais fraco.

O resultado ocorre a cerca de um ano das eleições presidenciais de 2027. Javier Milei assumiu a Presidência em dezembro de 2023 e mantém como uma das principais metas de seu governo a redução da inflação e o controle das contas públicas.

PIB cresce no ano, mas perde ritmo

Na comparação anual, a economia argentina apresentou crescimento de 2% no segundo trimestre. Segundo o Indec, o PIB desestacionalizado, porém, caiu 0,6% em relação ao primeiro trimestre. A tendência-ciclo, que busca identificar o comportamento da atividade sem os efeitos mais imediatos das oscilações, avançou 0,8%.

O desempenho positivo em 12 meses teve participação das exportações de energia e produtos agrícolas. Ao mesmo tempo, as importações diminuíram.

O consumo privado, por sua vez, recuou 2,4% no segundo trimestre. O resultado mostra perda de ritmo de um dos principais componentes da atividade econômica.

O investimento também apresentou redução. A formação bruta de capital fixo, indicador utilizado para acompanhar os investimentos, caiu 11,1% na comparação anual, segundo os dados apresentados na reportagem.

Argentina
Foto: Divulgação

Entre os setores da economia, agricultura, energia e mineração tiveram desempenho positivo. Por outro lado, comércio varejista, construção e indústria manufatureira enfrentaram redução da atividade e do emprego.

O ministro da Economia, Luis Caputo, destacou nas redes sociais que 13 dos 16 setores analisados registraram crescimento no primeiro semestre.

Inflação diminui, mas famílias enfrentam pressão

A desaceleração da inflação permanece como um dos principais resultados econômicos do governo Milei. A inflação anual estava em cerca de 34% no período citado pela reportagem, abaixo do nível superior a 200% registrado quando o presidente assumiu.

O Banco Central argentino também mantém uma política voltada à estabilidade cambial. O peso perdeu 3,7% de seu valor em relação ao dólar até agosto, enquanto os preços ao consumidor acumulavam alta de 21% no mesmo intervalo, segundo os dados apresentados pela Bloomberg.

 

 

 

A política cambial, entretanto, tornou-se alvo de críticas de setores da oposição. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, questionou a estratégia do governo e afirmou que ela prejudica a indústria argentina.

O governo, por outro lado, aponta o desempenho das exportações e dos setores de agricultura, energia e mineração como sinais de recuperação da economia.

Enquanto isso, o consumo das famílias recuou no segundo trimestre. A reportagem relaciona o movimento ao crescimento mais lento dos salários e às restrições de crédito.

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Foto: Divulgação

O cenário também aparece nos dados de emprego. Segundo os números apresentados pela Bloomberg, o emprego assalariado privado registrado diminuiu em cerca de 246,3 mil postos desde o período anterior à posse de Milei. O número de empresas também caiu em mais de 30 mil no mesmo intervalo.

Economistas divergem sobre recessão

As projeções para os próximos meses apresentam diferenças. Fernando Marull, da consultoria FM&A, estima uma possível nova contração da economia no terceiro trimestre.

Caso o PIB recue novamente entre julho e setembro, a Argentina registraria dois trimestres consecutivos de queda. Esse critério é utilizado como uma definição técnica de recessão.

Outros economistas, porém, não projetam necessariamente esse cenário. Osvaldo Giordano, presidente do IERAL, espera que a economia permaneça praticamente estável no terceiro trimestre e evite uma recessão técnica.

Carlos Melconian, diretor da MacroView, afirmou que, independentemente da definição técnica de recessão, o desempenho da economia ainda representa pressão sobre as famílias.

O governo também revisou suas projeções. A estimativa oficial de crescimento do PIB em 2026 caiu de 5% para 3%. Economistas consultados pelo Banco Central argentino projetam uma expansão próxima de 2%.

A inflação, por outro lado, segue como uma das prioridades de Milei. O presidente afirmou que pretende levar a alta mensal dos preços para menos de 1%.

 

 

 

Economia entra no debate eleitoral

O desempenho econômico também passou a integrar o debate sobre as eleições de 2027. Pesquisas citadas pela Bloomberg mostram que o desemprego ganhou espaço entre as principais preocupações dos argentinos.

Uma pesquisa da AtlasIntel mencionada pela reportagem apontou 38% de aprovação para Milei e 58% de desaprovação. O levantamento também indicou que 70% dos entrevistados consideravam ruim a situação do mercado de trabalho.

A oposição tenta concentrar parte do discurso eleitoral sobre emprego, renda e endividamento das famílias. Recentemente, parlamentares oposicionistas levaram ao Congresso uma discussão sobre o aumento das dívidas e da inadimplência nos empréstimos ao consumidor. As propostas de alívio mencionadas na reportagem, contudo, não avançaram.

Do outro lado, o governo destaca os resultados obtidos na inflação e o crescimento de setores ligados às exportações.

A economia argentina, portanto, chega ao período pré-eleitoral com indicadores distintos. O país registra crescimento de 2% na comparação anual, mas também apresentou queda trimestral de 0,6%, redução do consumo e perda de postos formais de trabalho. O comportamento da atividade nos próximos meses deverá definir se a retração do segundo trimestre será pontual ou parte de uma desaceleração mais prolongada.

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