Economia dos bicos cresce e 61% dos brasileiros buscam renda extra
Pesquisa em dez capitais mostra que 73% dos brasileiros superaram a escolaridade dos pais, mas apenas 46% conseguiram renda maior na mesma idade
A busca por uma segunda fonte de renda deixou de ser uma alternativa pontual para se tornar parte da rotina de milhões de trabalhadores nas grandes cidades brasileiras. Pesquisa realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) em parceria com a Ipsos-Ipec mostra que 61% dos entrevistados fizeram algum tipo de atividade extra nos últimos 12 meses para complementar ou obter renda. O índice subiu cinco pontos percentuais em relação à rodada anterior, quando era de 56%.
O levantamento ouviu 3.500 internautas com 16 anos ou mais em dez capitais, entre elas Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Belém, Manaus e Porto Alegre. A pesquisa considera moradores dessas cidades há pelo menos dois anos e tem margem de erro de dois pontos percentuais para o conjunto da amostra.
O crescimento dos chamados “bicos” ocorre mesmo em um cenário no qual os indicadores oficiais de trabalho apresentam melhora. Segundo o IBGE, o rendimento médio real habitual chegou a R$ 3.762 no trimestre encerrado em julho de 2026. A taxa de desocupação ficou em 5,3% no mesmo período.
Trabalho extra ganha espaço no orçamento
Os dados mostram que a necessidade de complementar a renda não atinge todos os grupos da mesma forma. Entre pessoas das classes D e E, 67% realizaram alguma atividade adicional no período analisado. O percentual chega a 69% entre famílias com renda de até dois salários mínimos. Pessoas com deficiência ou que convivem com alguém com deficiência também registraram índice de 69%.
Entre as atividades mais citadas estão os chamados serviços gerais, que incluem trabalhos como faxina, manutenção e jardinagem, mencionados por 18% dos entrevistados. A venda de roupas e objetos usados aparece em seguida, com 13%, enquanto a produção de alimentos para comercialização foi citada por 11%.
O fenômeno também ganhou força em Goiânia. A capital registrou aumento de 14 pontos percentuais na proporção de pessoas que recorreram a atividades extras em comparação com a pesquisa anterior. O crescimento foi um dos maiores entre as cidades analisadas.
Educação avança, mas renda não acompanha
A pesquisa também mostra um descompasso entre a evolução da escolaridade e a capacidade de aumentar os ganhos. 73% dos entrevistados afirmam ter alcançado um nível de escolaridade superior ao dos pais, mas apenas 46% dizem ter renda maior que a geração anterior quando comparados na mesma idade. Em relação à moradia, 51% consideram estar em situação melhor que a dos pais.
O cenário ajuda a explicar por que a qualificação profissional não aparece, necessariamente, acompanhada de maior segurança financeira. A diretora de opinião pública e política da Ipsos-Ipec, Patricia Pavanelli, aponta que a educação continua sendo um vetor de mobilidade, mas outros fatores também interferem na evolução da renda, como origem social, patrimônio, redes de relacionamento e oportunidades no mercado de trabalho.
A percepção sobre a própria renda reforça essa diferença. 45% afirmaram que os ganhos ficaram estáveis nos últimos 12 meses, enquanto 31% disseram que a renda diminuiu e 18% relataram aumento. Ou seja, mesmo com melhora nos indicadores médios do mercado de trabalho, uma parcela significativa dos entrevistados não percebe avanço financeiro no orçamento familiar.

Alimentação é principal pressão sobre as famílias
A necessidade de reforçar a renda está diretamente relacionada ao custo de vida. A alimentação foi apontada por 87% dos entrevistados como um dos gastos que mais pressionam o orçamento doméstico. Saúde e moradia aparecem empatadas em segundo lugar, com 57% cada. Transporte foi citado por 35%, enquanto educação apareceu para 18%.
Essa pressão também alterou hábitos de consumo. 35% disseram ter aumentado o consumo de ovos, enquanto 41% reduziram a compra de carnes, 34% diminuíram o consumo de laticínios e 30% reduziram frutas, legumes e verduras.
Entre as classes D e E, os cortes são ainda mais acentuados: 39% relataram redução no consumo de carnes, 41% diminuíram a compra de laticínios e 36% reduziram frutas, legumes e verduras.

O movimento ocorre paralelamente a um mercado de trabalho que, segundo o IBGE, apresenta rendimento médio real em nível elevado. No primeiro trimestre de 2026, o valor já havia chegado a R$ 3.722, acima dos R$ 3.527 registrados um ano antes.
A diferença entre os indicadores ajuda a entender o cenário: uma melhora na média da renda não significa necessariamente que todas as famílias tenham ampliado seu poder de compra. A pesquisa mostra que, para uma parcela expressiva da população, manter o orçamento exige diversificar as fontes de receita.
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