Tarifas dos EUA colocam etanol e soja de Goiás no centro das negociações
Sobretaxas atingem parte das exportações brasileiras enquanto etanol e comércio mundial de soja entram nas tratativas entre Brasil e Estados Unidos
As tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros aumentaram a incerteza sobre o comércio bilateral e colocaram setores relevantes para Goiás no centro das negociações. Em julho, os EUA passaram a aplicar sobretaxas adicionais de 25% e de 12,5% sobre parcelas das importações do Brasil, com possibilidade de acúmulo para 37,5% em determinados produtos. Segundo o MDIC, as medidas alcançam 23,1% das exportações brasileiras ao mercado norte-americano.
Segundo reportagem do Estadão, que obteve com exclusividade cópias das propostas apresentadas pelo governo Donald Trump ao Brasil, os Estados Unidos condicionaram a redução das tarifas a uma série de exigências comerciais e políticas. Na primeira proposta, apresentada em 16 de outubro de 2025, estavam incluídas 21 ações. Uma segunda versão, enviada em 9 de janeiro de 2026, reduziu o número de temas e retirou parte das exigências relacionadas à política doméstica brasileira.
O etanol aparece diretamente entre os pontos de atrito. A investigação comercial norte-americana incluiu o acesso do biocombustível dos EUA ao mercado brasileiro entre os temas considerados pelo USTR. Em propostas anteriores, Washington também defendeu a eliminação da tarifa brasileira sobre o etanol norte-americano.
Para Goiás, uma eventual mudança nas condições de entrada do produto dos EUA pode afetar uma cadeia em expansão. Na safra 2025/2026, o Estado produziu cerca de 5,3 bilhões de litros de etanol, dos quais 841,6 milhões vieram do milho. Em julho de 2026, os estoques de etanol hidratado em Goiás ficaram 76% acima do mesmo período do ano anterior.
As exportações brasileiras podem alcançar 1,535 milhão de metros cúbicos na safra 2026/2027, alta de 20% em relação ao ciclo anterior. Ao mesmo tempo, a competitividade brasileira pode perder força a partir de outubro ou novembro, quando o produto norte-americano tende a ficar mais barato.
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) defende uma solução negociada. “Brasil e Estados Unidos são protagonistas globais na produção de biocombustíveis e compartilham oportunidades relevantes de cooperação”, afirmou a entidade.
A Unica ressalta ainda que a tarifa brasileira integra a Tarifa Externa Comum do Mercosul e que o acesso do etanol e do açúcar brasileiros ao mercado dos EUA também enfrenta barreiras.
Soja entra no radar
Na primeira proposta americana, Brasil e Estados Unidos deveriam trabalhar para estabilizar o comércio mundial do grão. Embora o produto não esteja entre os principais itens citados nas novas sobretaxas específicas, mudanças na relação comercial entre dois grandes produtores e exportadores podem alterar fluxos de compra, preços e destinos das exportações.
Esse movimento é relevante para Goiás. A produção estadual de soja para a safra 2025/2026 é estimada em 20,1 milhões de toneladas, o segundo maior volume da série histórica, com produtividade acima da média nacional. O Estado também ocupa posição importante no comércio exterior e na industrialização da oleaginosa.
Em junho, Goiás exportou 319,4 mil toneladas de farelo de soja, recorde para o mês. Municípios como Rio Verde, Jataí, Itumbiara, Anápolis e Luziânia concentram unidades de processamento, ampliando o peso econômico da cadeia além da venda do grão in natura.
Uma alteração nos fluxos entre Brasil, Estados Unidos e outros compradores pode ter efeitos distintos. Maior demanda pela soja brasileira pode sustentar preços e prêmios de exportação, enquanto uma oferta mundial mais ampla ou perda de mercados pode pressionar as cotações. Em julho, a competição entre compradores já havia contribuído para elevar preços e prêmios no mercado brasileiro, embora a oferta global tenha limitado avanços maiores.
As negociações entre Brasília e Washington foram retomadas no fim de agosto.
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