sábado, 19 de setembro de 2026
OPINIÃO

Caiado sacrifica candidatura presidencial para salvar Daniel

Ascensão de Flávio Bolsonaro pode aumentar chances de Wilder e, para evitar surpresas como a que quase o vitimou em 2022, o ex-governador gasta seu tempo em caravanas pelo interior para evitar derrota

Nilson Gomespor em
Caiado sacrifica candidatura presidencial para salvar Daniel
Os comandantes da campanha oficial pediram que o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) se dedicasse ao périplo de Daniel pelo interior Foto: Divulgação

As pesquisas, das sérias às vagabundas, apontam a liderança do governador Daniel Vilela (MDB), candidato à reeleição numa frente de 12 partidos, 400 candidatos a deputado estadual e federal (4 vezes mais que os principais adversários), o dobro (quatro) de senatoriáveis. Na retaguarda, mais de 200 prefeitos atuais (nenhum outro concorrente chega sequer a 20), cerca de 2 mil outras lideranças municipais, como ex-prefeitos e vices, primeiras-damas atuais e ex, vereadores, secretários. Mesmo assim, os comandantes da campanha oficial pediram que o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) se dedicasse ao périplo de Daniel pelo interior. A princípio, o convite foi recusado, porém, agora, a agenda de Caiado está quase exclusiva à disposição de seu apadrinhado. Se o quadro estivesse tão róseo, o ex-governador desistiria de seu sonho de ser presidente da República para reassumir o papel de babá de um nepo baby? Dizem que é medo de Wilder Morais (PL) após a ascensão de Flávio Bolsonaro (PL). Como naquele meme, será?

Uma rápida leitura dos compromissos de Caiado desde que passou a faixa de governador para Daniel, no último 31 de março, mostra um quadro preocupante para quem deseja vê-lo no lugar de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em vez de aumentar, o número de visitas a outros Estados tem diminuído. Na maioria das vezes, as viagens não resultam em contato com eleitores reunidos para ouvi-lo, mas somente reuniões com lideranças empresariais que terão o mesmo semblante enfadonho para anfitrionar os demais aspirantes ao Palácio do Planalto, sede do Executivo federal. Apesar de estar no centro do País, Goiás não está no centro das decisões e é periférico quanto à economia e aos demais itens da administração. Tem somente 5.081.043 dos 158.745.463 dos eleitores. Quem só fica onde estão 5, não dá aos demais 153 o direito de o conhecer.

Outros dois governadores estão em campanha para Caiado

Além de Daniel, outros dois governadores estão em campanha para Caiado, ambos de seu PSD e muito bem avaliados, o do Paraná, Ratinho Jr., e o do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que inclusive foram pré-candidatos a presidente junto com ele. Mas estão em campanha mesmo ou apoiam só de fachada, para dar desculpas pelo péssimo desempenho daqueles que lançaram em seus Estados? O PSD do Norte e do Nordeste do Brasil estão com Lula. O do Distrito Federal conta com um candidato competitivo a governador, José Roberto Arruda, que já exerceu o cargo.

O entrave é que Arruda está inelegível. A maré de más notícias se amplia ao se observar o ínfimo prestígio do irmãos Carmo no meio evangélico nacional. Ao escolher Luiz do Carmo para vice de Daniel, foram atropelados caiadistas eméritos, como Adriano Rocha Lima (considerado gênio em gestão e tecnologia, primo de Ronaldo) e José Mário Schreiner (um dos maiores líderes do agro no Brasil, amigo do presidenciável há décadas). E a Igreja Evangélica Assembleia de Deus, para quem se avalia com 12 milhões de fiéis, não está com Caiado nas outras unidades da federação, nem com o ramo Madureira, no qual congrega a família Carmo.

Sedentos por discursos como os seus

Talvez por falha de estratégia na condução da campanha, Caiado não conseguiu entrar em territórios sedentos por discursos como os seus. É o maior herói do campo desde 1986, sacudiu o País com manifestações capitaneando a União Democrática Ruralista (UDR), influenciou na escrita da Constituição de 1988 para suprimir o fim do direito de propriedade, exerceu aplaudidíssimos 5 mandatos de deputado federal, ficou 4 anos no Senado e 87 meses no Governo de Goiás. A experiência como governador lhe deu um nicho fantástico, a segurança pública, de onde vêm os maiores males do Brasil, inclusive a impunidade em que mora a corrupção de figurões. O staff de Caiado não conseguiu universalizar os 3 temas, aliás, nenhum deles.

Para completar a confusão, Caiado foi traído por seus amigos da onça

Kassab, que seria o candidato do grupo se Tarcísio fosse o nome da direita a presidente da República, não tem conseguido sequer marcar reunião para Caiado nos 206 municípios paulistas administrados pelo PSD

Como o próprio Caiado diz no Horário Eleitoral, realmente tem autoridade moral, experiência política e talento administrativo para fazer dos três temas uma realidade das ruas. Acabou não levando o belo resultado do combate à violência em Goiás para as guerras urbanas de Salvador, Recife, Fortaleza, Manaus, São Paulo (Região Metropolitana da Capital e Baixada Santista) e Rio de Janeiro (todo o Estado). Tampouco reavivou as lutas gloriosas que travou pelos produtores rurais no Oeste da Bahia, no interior de SP, MG, PR, RS, além do Centro-Oeste. E ainda perdeu a oportunidade de ser o raríssimo gestor público e probo para eliminar bandalheira como a que se lamenta estar ocorrendo em siglas como INSS, STF, PCC e CV, somadas a Master, Lulinha etc..

Foto: Reprodução

Para completar a confusão, Caiado foi traído por seus amigos da onça. O próprio Daniel falhou miseravelmente em atrair o MDB para a campanha do padrinho, não conseguiu um diretório regional sequer além do que preside em Goiás. Seu vice, Gilberto Kassab, era o homem-forte do virtualmente reeleito governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. E Kassab, que seria o candidato do grupo se Tarcísio fosse o nome da direita a presidente da República, não tem conseguido sequer marcar reunião para Caiado nos 206 municípios paulistas administrados pelo PSD. O mesmo se diga de Ratinho e Leite, que não encabeçam movimento algum em favor de seu presidenciável.

Desfeito o enigma da presença constante de Caiado em Goiás

Reúnam-se todas as intempéries acima e está desfeito o enigma da presença constante de Caiado em Goiás – ninguém reúne gente para ouvi-lo nos demais Estados. Caiado tem apresentado alguns perrengues de saúde, mas é firme, não tem doenças crônicas, ainda consegue ficar durante 10 horas em carrocerias de caminhonetes fazendo carreatas de Formosa (no Entorno de Brasília) a Campos Belos (na tríplice fronteira GO-TO-BA). Portanto, tinha condições físicas de rodar o Brasil como nos tempos da UDR. Faltou, para começar, o apoio da direita, Centrão incluído e seu então partido (UB) principalmente. Foi esfaqueado pelas costas por todos os que se beneficiaram de suas articulações durante 24 anos no Congresso Nacional.

Como azar pouco é bobagem, algo que não havia até a eleição de 2014 se afunilou para valer nesta de 2022, a polarização. Não é ideologia, ou partido, ou religião, ou isso, ou aquilo, é só a natural vontade de um matar o outro sem ter motivo, de a família não fazer festa de Natal porque um parente é lulista e alguém, bolsonarista. Diante disso, ele ficou fora da polarização e seu candidato em Goiás, Daniel Vilela, também. Lula subir ou cair, Flávio Bolsonaro se erguer ou despencar, nada beneficia ou prejudica Daniel. Até 2018, as disputas nacionais nada apitavam nas urnas em Goiás, tanto que Marconi Perillo e o próprio Caiado se elegeram nos mesmos pleitos que os petistas Lula e Dilma Rousseff.

E se o outro Bolsonaro, o Flávio, legar a Wilder o mesmo triunfo?

Esse movimentação beneficia quem conta com candidatos a presidente, como é o caso apenas de Wilder Morais, colega de partido de Flávio Bolsonaro, e Luis Cesar Bueno, petista igual a Lula. Nesta mesma época do ano em 2022, no ápice da contenda entre Lula e o pai de Flávio, Jair Bolsonaro, Wilder estava entre 5º e 6º lugar para o Senado. Contados os votos, esmagou os campeões das pesquisas e está na única cadeira em disputa na eleição passada. Claro, graças a Bolsonaro, o Jair. E se o outro Bolsonaro, o Flávio, legar a Wilder o mesmo triunfo? É o que Caiado responde trabalhando por Daniel. Abre mão de seu sonho, mas tenta salvar os dedos, coisa que nem Lula conseguiu. (Especial para O HOJE)

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