Goiás mira datacenters para ampliar investimentos em inteligência artificial
Incentivos federais se somam à política estadual e aos aportes no Ceia-UFG para ampliar infraestrutura, pesquisa e atração de empresas de tecnologia
O Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), sancionado pelo governo federal, pode ampliar a disputa por investimentos em infraestrutura digital e abrir espaço para que Goiás fortaleça sua posição no setor de inteligência artificial. A política reduz custos para implantação, modernização e expansão de datacenters, ao suspender por cinco anos tributos na aquisição de equipamentos de tecnologia da informação e comunicação.
Em contrapartida, as empresas deverão utilizar energia renovável ou de baixa emissão, cumprir critérios de eficiência hídrica e investir em pesquisa e desenvolvimento no País. Também terão de reservar ao mercado nacional pelo menos 10% da capacidade de processamento, armazenagem e tratamento de dados.
Para empreendimentos instalados no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o Redata reduz em 20% parte dessas contrapartidas, criando uma condição diferenciada para Goiás. A medida federal se soma a uma estratégia estadual voltada à expansão da inteligência artificial.
O Estado anunciou, ainda em junho, R$ 78 milhões em novos investimentos no Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (Ceia-UFG) entre 2026 e 2031. Desse total, R$ 40 milhões serão destinados a um AI Data Center e a um laboratório de veículos autônomos. O centro já atraiu cerca de R$ 500 milhões em investimentos privados.
Para o professor Celso Camilo, do Instituto de Informática (INF) da Universidade Federal de Goiás (UFG), a combinação entre o Redata e a política estadual pode colocar Goiás em posição favorável na atração de novos empreendimentos. “O grande potencial econômico está no que essa infraestrutura pode habilitar, como computação em nuvem, treinamento e inferência de modelos de IA, empresas de tecnologia, startups, pesquisa aplicada e digitalização de setores tradicionais da economia”, afirma.
O potencial econômico da tecnologia também aparece em projeções nacionais. Levantamento do Reglab estima que a inteligência artificial pode adicionar até R$ 986,7 bilhões ao Produto Interno Bruto brasileiro entre 2027 e 2030. No cenário-base, o efeito equivaleria a 2,77% do PIB acumulado no período. Segundo o estudo, 65% desse impacto viria de ganhos de produtividade do trabalho e 35% da maior eficiência de máquinas e processos.
A projeção também reforça quanto do valor gerado pela IA permanecerá na economia local e quanto será direcionado ao pagamento de tecnologias e serviços desenvolvidos fora do País. Nesse sentido, Camilo considera que o ganho não deve ser medido apenas pelo investimento realizado na construção dos datacenters, mas pela capacidade de gerar pesquisa, empresas e empregos qualificados.
Esse potencial encontra um ambiente em expansão em Goiás. Pesquisa da consultoria Ecossistema Great People & GPTW aponta que 48% das empresas goianas já utilizam IA. O Mapa Estratégico da Indústria de Goiás 2025-2032 também coloca digitalização, produtividade e adoção de novas tecnologias entre os eixos de desenvolvimento industrial.
Instalação isolada
O professor alerta que a instalação dos centros de dados, isoladamente, não garante que Goiás capture toda a cadeia de valor. “Um datacenter pode representar bilhões em investimento e, ainda assim, gerar relativamente poucos empregos permanentes quando comparado a outros setores”, observa. Para Camilo, o sucesso deve considerar quanto de pesquisa, startups, empregos qualificados e produtividade serão gerados a partir da infraestrutura.
Empresas do setor também analisam fatores como disponibilidade e custo de energia, conexão, licenciamento, estabilidade regulatória e capacidade de expansão. Segundo o professor, Goiás pode combinar localização geográfica, oferta energética, ambiente de pesquisa e uma política estadual específica para inteligência artificial.
O desafio será transformar a atração de datacenters em desenvolvimento tecnológico de maior valor agregado. “A cadeia tecnológica não nasce automaticamente com a chegada de um datacenter”, destaca. Cerca de 60% das cargas digitais brasileiras são processadas no exterior, segundo diagnóstico do Ministério da Fazenda.
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