quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Apostas

Bets reduzem em até R$ 54,8 bi a arrecadação e avançam sobre renda e saúde

Estudo da USP aponta impacto de até 1,1% do PIB, enquanto economista e psicóloga alertam para efeitos sobre consumo, renda e saúde mental

João César Almeidapor em
Bets reduzem em até R$ 54,8 bi a arrecadação e avançam sobre renda e saúde
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ABr

As apostas esportivas, conhecidas como bets, podem produzir efeitos que vão além das perdas individuais e atingir o consumo das famílias, a atividade econômica e o endividamento. Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA/USP, estima que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, montante equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

Segundo o levantamento, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento registrado pela economia naquele ano. O estudo também calcula uma redução de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Mesmo descontando aproximadamente R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com as plataformas, o efeito líquido sobre as contas públicas permaneceria negativo, entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões.

A economista Greice Guerra relaciona esse impacto à retirada de recursos que poderiam ser direcionados ao consumo. O problema se torna ainda mais relevante em um cenário no qual as famílias já convivem com crédito caro e endividamento elevado. “Aposta não é investimento, é entretenimento. Esse entretenimento está endividando as pessoas e isso é muito preocupante. Porque além de agravar a situação das famílias, retira a possibilidade de consumo”, afirma.

Segundo Greice, quando parte da renda passa a ser destinada às apostas, a capacidade de gastar em outras áreas diminui, com reflexos no comércio. O Sindicato do Comércio Varejista no Estado de Goiás (Sindilojas-GO) também relaciona parte da redução das vendas ao redirecionamento de recursos para as plataformas. Dinheiro que poderia ser utilizado em roupas, alimentos e calçados acaba destinado às apostas.

Para a economista, políticas de educação financeira poderiam contribuir para que consumidores compreendam os riscos associados às apostas e consigam planejar melhor a utilização da renda.

O estudo da USP também analisou uma possível relação com o aumento do endividamento. Em uma hipótese considerada extrema pelos próprios pesquisadores, caso toda a transferência líquida de R$ 62,5 bilhões para as plataformas tivesse sido financiada por novo crédito, o valor representaria cerca de 14% do crescimento do endividamento das pessoas físicas em 2025. Naquele ano, o saldo de crédito para esse público avançou aproximadamente R$ 450 bilhões.

Exposição começa mais cedo

Levantamento nacional realizado pela Frente Parlamentar Mista da Educação, em parceria com o portal Equidade.info, aponta que 23,7% dos alunos do Centro-Oeste já tiveram contato com apostas online. A pesquisa ouviu 1.912 estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio entre agosto e setembro de 2026.

O percentual coloca o Centro-Oeste na segunda posição entre as regiões, atrás apenas do Nordeste, com 25,4%. A média nacional ficou em 20,4%. O levantamento não apresenta dados separados por Estado, portanto, não permite identificar especificamente a situação de Goiás.

Problemas para a saúde

Além das consequências econômicas, o comportamento de apostas pode se transformar em um problema psicológico. A psicóloga Kelyane Olanda explica que o hábito pode começar de forma recreativa, motivado por diversão, emoção ou expectativa de ganho, mas se tornar problemático quando passa a funcionar como fonte de recompensa imediata ou como forma de lidar com ansiedade, estresse, frustração e tédio.

Entre os principais sinais de alerta estão a perda de controle, o aumento do tempo ou do valor destinado às apostas, tentativas frustradas de parar, utilização de dinheiro reservado para outras necessidades e continuidade do comportamento mesmo diante de prejuízos. O problema também pode afetar trabalho, estudos, sono, relações familiares e organização financeira.

Os efeitos psicológicos do vício podem incluir ansiedade, irritabilidade, culpa, vergonha, alterações do sono e sintomas depressivos. Em alguns casos, a pessoa perde dinheiro e volta a apostar justamente na tentativa de recuperar o prejuízo, comportamento conhecido como “perseguir as perdas”. A psicóloga destaca que não é necessário esperar que os prejuízos se tornem extremos para buscar acompanhamento profissional.

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