terça-feira, 6 de outubro de 2026
Agronegócio

Endividamento dificulta acesso ao crédito do Plano Safra

Queda no custeio e juros elevados podem complicar a contratação por produtores endividados às linhas de financiamento

João César Almeidapor em
Plano Safra
Foto: Valter Campanato/ABr

O Plano Safra 2026/2027 chega ao campo em um momento de maior endividamento e dificuldade de acesso ao crédito. Embora o programa tenha ampliado os recursos, produtores que já enfrentam problemas financeiros podem encontrar barreiras para contratar as linhas disponíveis e manter a atividade.

 

Uma das preocupações está justamente na distribuição do dinheiro. O crédito destinado a custeio e comercialização, utilizado em despesas como sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis e mão de obra, passou de R$ 414,7 bilhões no ciclo anterior para R$ 384,9 bilhões na safra 2026/2027. Na direção contrária, os recursos voltados a investimentos em máquinas, irrigação, armazenagem e infraestrutura cresceram mais de 38%.

 

Para o advogado Eliseu Silveira, especialista em recuperação judicial, esse desequilíbrio ganha ainda mais importância entre produtores que já acumulam dificuldades financeiras. “Para aquele produtor que já enfrenta problemas financeiros, essa diferença entre crédito para investimento e dinheiro disponível para custear a produção faz toda a diferença”, explica.

Segundo Silveira, custos elevados, oscilações nos preços das commodities, problemas climáticos, margens menores e juros altos ampliam a pressão sobre as propriedades rurais.

 

O avanço dos pedidos de recuperação judicial ajuda a demonstrar esse cenário. Somente no primeiro trimestre de 2026, o agronegócio registrou 474 solicitações, aumento de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. Entre produtores rurais que atuam como pessoa jurídica, o crescimento chegou a 73,5%.

 

Para Silveira, um dos sinais de que a situação financeira deixou de ser apenas uma dificuldade momentânea de caixa aparece quando o produtor precisa recorrer a um novo financiamento para pagar uma dívida anterior. “O sinal mais claro é quando o crédito novo deixa de financiar a produção e passa a financiar a dívida”, afirma.

 

Outros alertas podem surgir antes disso, como a venda antecipada da safra por necessidade, e não por estratégia comercial, o comprometimento sucessivo da mesma propriedade em garantias e a busca por fontes de financiamento com juros elevados.

Silveira também aponta que a relação entre o serviço da dívida e a receita da safra precisa ser acompanhada para evitar que os compromissos financeiros cresçam acima da capacidade de pagamento.

 

Acesso não é automático

Mesmo quando existem linhas disponíveis, o acesso não é automático. Os bancos analisam risco, garantias e capacidade de pagamento. Produtores que tiveram safras ruins ou já acumulam dívidas podem enfrentar mais dificuldade justamente quando mais precisam do crédito subsidiado. “O recurso acaba concentrado no produtor que já está bem, com garantia livre e histórico limpo”, afirma Silveira.

A Cogo Consultoria avalia que o Plano Safra continua abaixo da demanda de crédito do setor. Mesmo com alta de 41% nos recursos para equalização de juros, o volume de crédito subsidiado caiu 14,8%, de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões. Para a consultoria, os juros elevados fazem com que cada real desembolsado pelo Tesouro financie menos crédito rural.

 

Para o produtor endividado, porém, recorrer a novas fontes não significa resolver o problema. Silveira alerta que sucessivas renegociações podem substituir dívidas mais baratas por operações mais caras e consumir as garantias. A renegociação direta é mais adequada quando o problema é de prazo e envolve poucos credores. Já a recuperação judicial pode ser necessária quando há vários credores, vencimentos incompatíveis com o fluxo da safra e risco de execução.

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