Liderança de Flávio Bolsonaro no 1º turno anima mercado com possível alternância de poder
Ibovespa salta 7,7% e dólar recua abaixo de R$ 5 enquanto analistas comparam os impactos da continuidade de Lula ou vitória de Flávio
O mercado financeiro reagiu nesta segunda-feira (5) à liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições para presidente. Diante da expectativa de uma possível alternância na política fiscal, o Ibovespa fechou aos 206.911 pontos, alta de 7,7% sobre os 192.114 pontos de sexta-feira (2), após tocar a máxima histórica de 209.605 pontos. O dólar recuou para R$ 4,99, chegando na mínima a R$ 4,952 (-5,06%), menor nível desde maio, quando chegou a R$ 4,893.
O movimento superou o registrado após o primeiro turno de 2018, quando Jair Bolsonaro liderou e a Bolsa subiu 4,57%, e de 2022, quando Lula terminou à frente e o índice avançou 5,54%. Os juros futuros também caíram em bloco: o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para 2027 cedeu 13 pontos-base, a 13,40%, e o de 2029 recuou 118 pontos-base, a 12,57%. Com o alívio na curva de juros, ações de bancos, petroleiras e varejistas dispararam.
A economista Greice Guerra destaca que esse cenário de euforia do mercado não era visto desde a pré-pandemia. “Se a gente for traçar uma linha do tempo de momentos de euforia, acho que foi em 2006, quando foi descoberto o pré-sal e quando tivemos a recuperação econômica logo após a dura recessão de 2016”, pontua.
Para a presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-GO) e coordenadora do curso de Ciências Econômicas da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Adriana Pereira de Sousa, o contraste entre os dois modelos explica a atenção dos agentes econômicos, mas exige análise sobre a execução prática.
“O programa de Lula trabalha com a continuidade do arcabouço fiscal, investimentos públicos e utilização do Estado como indutor do crescimento e da produtividade. Já Flávio Bolsonaro apresenta uma agenda mais orientada à redução de despesas, diminuição da estrutura administrativa, criação de uma nova regra fiscal, redução de impostos e retomada de desestatizações”, aponta.
Segundo Adriana, a gestão Lula tem histórico recente que permite avaliar resultados e limites, enquanto a proposta de Flávio ainda precisa detalhar o tamanho dos cortes e como conciliar queda de gastos e de tributos. Embora uma política expansionista possa pressionar a inflação, cujas expectativas para 2026 e 2027 seguem acima da meta, a economista ressalta que a qualidade do gasto importa mais nesse cenário.
Já a economista Greice Guerra avalia que a vantagem de Flávio no primeiro turno sinaliza um maior compromisso com o controle das contas públicas e das estatais, em contraste com o avanço de gastos desde 2022. “Pode favorecer a queda da Selic e atrair os investimentos nacionais e internacionais, o que, por sua vez, gera mais emprego, mais renda e maior arrecadação também”, analisa Greice.
O mercado já projeta a chance de o Copom acelerar o corte da Selic em 0,5 ponto percentual em dezembro caso a vitória se confirme, além de prever uma reaproximação diplomática com os Estados Unidos.
Outro ponto destacado por Greice Guerra é o peso dos impostos sobre os negócios, especialmente micro e pequenas empresas, em uma eventual reeleição petista. Na visão da economista, é preciso manter um equilíbrio nas contas para não pressionar aquelas empresas que geram a maior parte dos empregos e da renda do País.
Setores produtivos e reforma tributária
No setor produtivo, Adriana explica que cada segmento apresenta necessidades diferentes. O agronegócio monitora crédito, logística, câmbio, pauta ambiental e comércio exterior. A indústria demanda juros menores, energia competitiva, inovação e qualificação. O setor de serviços foca na carga tributária e no custo do trabalho. “Para o setor produtivo, o que importa é qual Estado e com que eficiência”, diz a presidente do Corecon-GO.
Esse horizonte passa pelo ano de 2027, quando começa a implantação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), com a extinção do PIS/Cofins rumo à transição até 2033. Adriana nota que Lula tende a consolidar a regulamentação em curso, enquanto a proposta de Flávio de revisar exceções e regimes diferenciados pode ampliar a base tributária e permitir uma alíquota padrão menor.
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