domingo, 11 de outubro de 2026
ludopatia

Enquanto patrocínio ao futebol é debatido, bets alcançam 43,8 mi de pessoas

Crescimento das plataformas amplia discussões sobre endividamento, saúde mental, consumo das famílias e financiamento do esporte

Anna Salgadopor em
bets
Foto: ABr

O número de brasileiros que apostaram em plataformas de apostas on-line de quota fixa, conhecidas como bets, chegou a 43,8 milhões até o fim de agosto de 2026, segundo dados do Ministério da Fazenda extraídos do Sistema de Gestão de Apostas (Sigap). O volume corresponde a 27% da população adulta do país e representa um crescimento de 75,2% em relação aos 25 milhões registrados no fim de 2025. A expansão do setor ocorre em meio a discussões sobre os efeitos das apostas na renda das famílias, na atividade econômica, na saúde pública e no financiamento de clubes esportivos.

Estimativas apontam que os brasileiros gastam entre R$ 60 bilhões e R$ 240 bilhões por ano com apostas. Diante do avanço do setor e dos problemas relacionados ao comportamento compulsivo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou as bets como uma “doença” e comparou o vício em apostas ao impacto do crack. O Poder Executivo prepara uma Medida Provisória para proibir os cassinos virtuais on-line, como os jogos conhecidos como “Tigrinho”. A proposta prevê uma cláusula de transição de 180 dias para apreciação pelo Congresso Nacional.

No campo econômico, levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/FEA-USP) estima que as apostas on-line retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025. O valor corresponde a uma perda estimada entre 0,9% e 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) e representa entre 40% e 50% de todo o crescimento econômico registrado pelo País naquele ano.

A transferência líquida das famílias para plataformas de apostas, calculada pela diferença entre valores apostados e prêmios recebidos, chegou a R$ 62,5 bilhões. Segundo pesquisadores, os recursos deixaram de circular em segmentos como alimentos, vestuário e calçados. O estudo também aponta que parte das apostas pode ter sido financiada por crédito, o que corresponderia a cerca de 14% do crescimento do endividamento das pessoas físicas no período.

O economista Pedro Henrique Evangelista Duarte avalia que uma proibição ou restrição severa das casas de apostas poderia alterar a circulação desses recursos na economia. “Se R$ 62 bilhões estão indo para o consumo específico desses bens e eu proíbo as casas de aposta, consequentemente esses recursos voltam para a atividade econômica, eles vão voltar para o comércio, vão voltar para o serviço. O dinheiro volta a circular na economia, volta a incentivar a atividade econômica”, afirma.

Duarte também questiona a relação entre a arrecadação tributária do setor e os valores retirados da atividade econômica. O governo federal arrecadou R$ 6,8 bilhões com o segmento entre janeiro e setembro de 2025. Na avaliação do economista, a diferença entre os valores representa uma proporção reduzida. 

Os impactos relacionados às apostas também aparecem na área da saúde mental. Estimativas apontam que cerca de 2 milhões de brasileiros sofrem com ludopatia em nível grave, enquanto quase 11 milhões apresentam risco elevado ou sintomas de dependência. 

 

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Foto: Freepik

Apostas afetam saúde, consumo e esporte

A psicóloga Kelyane Olanda explica que o comportamento problemático pode se intensificar quando a aposta deixa de ser uma atividade recreativa e passa a ser utilizada para lidar com emoções desagradáveis ou buscar alívio imediato. “No início, a pessoa pode apostar de forma recreativa, buscando diversão, emoção ou a possibilidade de ganhar dinheiro. O problema surge quando as apostas passam a funcionar como uma fonte de recompensa imediata”, explica.

Os impactos na saúde também estão relacionados a custos econômicos. Dossiê do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) calcula que os danos à saúde associados às apostas geram um custo social de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano no Brasil. Desse total, R$ 17 bilhões são relativos a custos associados a mortes por suicídio e R$ 13,4 bilhões a quadros de depressão.

O acesso às plataformas também aparece entre estudantes. Levantamento da Frente Parlamentar Mista da Educação em parceria com o portal Equidade.info aponta que 23,7% dos estudantes do Centro-Oeste já tiveram contato com apostas online. A proporção é a segunda maior entre as regiões brasileiras, atrás apenas do Nordeste, com 25,4%, e acima da média nacional, de 20,4%.

De acordo com a pesquisa, a proporção aumenta conforme o avanço das etapas escolares. O contato com apostas chega a 16,2% no fim do Ensino Fundamental e a 27,3% entre estudantes do Ensino Médio. Entre estudantes do sexo masculino do Ensino Médio, o índice chega a 41%.

Em Goiás, os efeitos econômicos também estão relacionados ao comércio varejista. O Sindicato do Comércio Varejista no Estado de Goiás (Sindilojas-GO) associa a retração nas vendas da região ao redirecionamento do orçamento familiar para as apostas online. Segundo a entidade, recursos que seriam destinados à compra de vestuário, calçados e alimentos passam a ser direcionados às plataformas.

As propostas de restrição ou fechamento das plataformas também geram divergências entre especialistas sobre os possíveis efeitos de uma proibição. O especialista em políticas públicas Tiago Zancopé é contrário à proibição das casas regulamentadas e avalia que a medida poderia ampliar o mercado clandestino. 

Entre as medidas defendidas por Zancopé estão a proibição total da publicidade de apostas em emissoras de televisão e redes sociais com participação de artistas, cantores e atletas de alto renome; o bloqueio do uso de recursos de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, em apostas; e ações de esclarecimento público para diferenciar apostas de investimentos.

Bets clandestinas já existiam

O economista Pedro Henrique Evangelista Duarte apresenta outra avaliação sobre a relação entre a proibição e o mercado clandestino. Para Duarte, plataformas clandestinas já operavam antes da regulamentação e continuariam existindo caso as casas legalizadas fossem proibidas. “As plataformas clandestinas já existiam antes, elas vão continuar existindo. Passa a ser um mercado ilegal, como outros, e aí cabe ao governo criar mecanismos para suprimento”, afirma.

O debate também envolve o financiamento do esporte. Atualmente, 13 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro têm casas de apostas como patrocinadores máster. Após o governo federal estudar restrições ou veto às bets, clubes das Séries A e B divulgaram o manifesto “O Fim do Futebol Brasileiro”, no qual reconhecem os problemas relacionados à dependência em apostas, mas alertam para possíveis impactos financeiros de uma interrupção dos contratos.

O documento afirma que a medida poderia favorecer plataformas clandestinas. “Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba”, diz o manifesto.

Em outros países, há diferentes modelos de restrição. Na Inglaterra, clubes da Premier League adotaram acordo voluntário para banir patrocínios de apostas na frente das camisas. Itália e Espanha proíbem publicidade e patrocínios do setor no esporte. Bélgica e Países Baixos adotaram restrições graduais, enquanto a Austrália analisa medidas para limitar a publicidade em eventos, transmissões e uniformes esportivos.

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