Inep alerta para uso de “repertório de bolso” no Enem 2026
Cartilha reforça que referências devem sustentar a argumentação e ter relação com o tema
Decorar a frase de um filósofo, um dado estatístico ou o nome de uma obra famosa pode até dar segurança antes da prova. O problema começa quando a referência entra na redação sem explicar nada. Na edição de 2026 da Cartilha do Participante do Enem, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) chama atenção para o chamado “repertório de bolso”, usado de forma automática, genérica ou apenas para dar aparência de erudição ao texto.
O alerta mira uma estratégia comum entre candidatos: preparar referências “coringas” antes de conhecer o tema e tentar adaptá-las a qualquer proposta. A cartilha orienta o caminho contrário. Informações, fatos, citações e experiências podem compor o repertório sociocultural, desde que tenham pertinência com o assunto, sejam contextualizados e contribuam efetivamente para a defesa do ponto de vista.
Essa exigência aparece sobretudo na Competência II, responsável por avaliar a compreensão da proposta e o uso de conhecimentos de diferentes áreas no desenvolvimento do tema. Para alcançar a pontuação máxima, não basta recorrer a uma fonte reconhecida. É preciso mostrar por que aquele conteúdo ajuda a compreender a questão colocada pela prova.
A cartilha detalha esse critério ao apresentar a Matriz de Referência, recomendações aos participantes e exemplos comentados de redações. O material permite acompanhar, na prática, a diferença entre uma referência apenas mencionada e outra integrada à argumentação.
Em uma redação sobre envelhecimento, por exemplo, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, aparece associado à invisibilização das pessoas idosas a partir da crítica social presente no romance. Em outro caso, o filme “A Substância” é usado para discutir a influência da mídia na construção de estereótipos relacionados à velhice.
Nos dois exemplos, conhecer o título da obra é apenas o começo. O candidato interpreta um aspecto específico e o relaciona ao problema discutido. É essa passagem entre conhecimento e análise que torna a referência útil dentro do texto.
A Competência III observa outro passo desse processo: como informações, fatos, opiniões e argumentos são selecionados, organizados e relacionados para sustentar um ponto de vista. Isso exige planejamento. Uma obra pode ser pertinente ao tema e, ainda assim, perder força se aparecer deslocada da linha de raciocínio ou sem relação clara com o parágrafo em que foi inserida.
A orientação também muda a preparação nas semanas anteriores ao exame. Em vez de tentar memorizar dezenas de frases atribuídas a filósofos, sociólogos ou escritores, o estudante pode aproveitar melhor aquilo que já conhece. Uma reportagem, por exemplo, pode render mais do que um número decorado se o candidato souber identificar qual problema está sendo apresentado, quem é atingido, quais fatores ajudam a explicá-lo e que consequências produz.
O mesmo vale para conteúdos de História, Geografia, Sociologia, Literatura, Filosofia ou Ciências. Uma aula sobre urbanização pode ajudar em uma discussão sobre moradia ou mobilidade. Uma obra literária pode oferecer elementos para analisar preconceito, desigualdade ou relações sociais. Um documentário pode fornecer elementos para temas ligados ao meio ambiente, tecnologia ou saúde. Não é a origem da referência que determina sua força, mas o uso que se faz dela.
Na reta final, esse raciocínio pode ser treinado sem escrever uma redação inteira. Diante de uma proposta, o candidato pode primeiro definir a tese e os dois principais argumentos. Só depois escolhe os conhecimentos capazes de desenvolvê-los. A pergunta útil deixa de ser “que citação cabe aqui?” e passa a ser “o que esta informação acrescenta ao que estou defendendo?”.
A redação do Enem continua dividida em cinco competências, com até 200 pontos em cada uma. São avaliados o domínio da escrita formal, a compreensão da proposta, a construção da argumentação, a articulação entre as partes do texto e a elaboração da proposta de intervenção.
O aviso contra o “repertório de bolso” toca, portanto, em uma prática comum na preparação para o exame: tentar chegar à prova com respostas prontas para uma pergunta que ainda não se conhece. A cartilha aponta outro caminho. Nas últimas semanas, pode ser mais produtivo entender melhor aquilo que já foi lido, assistido ou estudado do que colecionar novas citações. No Enem, saber uma referência é só o começo. O que pesa na redação é conseguir transformá-la em argumento.
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