Que fome é essa? Médico explica quando a comida vira resposta emocional e não necessidade
Ansiedade, cansaço e solidão podem transformar o prazer da comida em resposta automática ao desconforto
O dia termina mal. Houve pressão no trabalho, uma discussão, horas de cansaço ou simplesmente aquela sensação difícil de nomear. A fome talvez nem tenha aparecido, mas o desejo por um doce específico, um hambúrguer ou algum alimento que traga conforto surge quase imediatamente. Quando esse caminho se repete, a comida pode deixar de responder apenas às necessidades do corpo e assumir outra função: aliviar, ainda que por poucos minutos, emoções que continuam ali depois da última mordida.
Em entrevista ao jornal O HOJE, o médico e escritor Juliano Pimentel afirma que uma das pistas está justamente na urgência. A fome física costuma surgir gradualmente e pode ser atendida por diferentes alimentos. Já a busca emocional tende a aparecer de repente e com preferência definida. “A comida deixa de ser prazer e vira anestesia quando você não está com fome, mas está com pressa de não sentir”, afirma.
A diferença nem sempre é fácil de perceber em uma rotina atravessada por pressa, aplicativos de entrega e alimentos disponíveis a poucos passos. Para Pimentel, quando a comida passa a ser a resposta habitual à ansiedade, à frustração, ao tédio ou à solidão, é importante observar o que acontece antes de comer, e não apenas aquilo que chega ao prato.
Esse comportamento também pode se esconder em uma frase corriqueira: “eu mereço”. Depois de um dia exaustivo, associar determinado alimento à recompensa parece natural. O problema, de acordo com o médico, começa quando essa passa a ser uma das únicas maneiras de compensar o desgaste. O alívio é rápido, mas não resolve aquilo que provocou a busca pela comida.
A discussão aparece em “Vícios: O que fazer quando a dependência entra na sua casa e como ajudar quem você ama antes que seja tarde demais”, livro em que Pimentel aborda diferentes comportamentos capazes de ocupar cada vez mais espaço na rotina. Entre eles estão redes sociais, apostas, álcool, medicamentos e alimentos ultraprocessados. No caso da alimentação, o autor chama atenção para produtos ricos em açúcar, gordura e sal e para a facilidade com que eles passam a integrar momentos de prazer, celebração e conforto.
Essa presença cotidiana torna mais difícil perceber quando o hábito começa a escapar do controle. Doces, salgadinhos e fast foods não estão escondidos nem associados socialmente a uma conduta incomum. Pelo contrário: aparecem em festas, encontros, intervalos e reuniões familiares. É justamente essa normalidade que pode dificultar a identificação de uma relação problemática com a comida.
O ambiente doméstico também participa dessa equação. Armários sempre abastecidos, entregas disponíveis em poucos minutos e refeições feitas diante de celulares ou computadores reduzem o intervalo entre o impulso e a ação. “O ambiente não é detalhe, ele é metade da batalha”, diz Pimentel. Para ele, organizar a rotina e diminuir a exposição constante aos gatilhos pode ser mais efetivo do que depender exclusivamente de força de vontade.
Comer diante de uma tela acrescenta outra dificuldade. Enquanto a atenção está concentrada no trabalho, em vídeos ou no celular, sinais do próprio corpo podem receber menos atenção. A pessoa termina a refeição sem perceber claramente quanto comeu, se estava satisfeita ou mesmo como aquele alimento foi consumido. Recuperar presença durante as refeições, nesse contexto, também significa reaprender a reconhecer fome e saciedade.
Outro obstáculo aparece depois do episódio de excesso: a culpa. Em vez de funcionar necessariamente como freio, ela pode acrescentar mais sofrimento a uma relação que já estava sendo usada para lidar com emoções difíceis. Comer para aliviar, sentir culpa e voltar à comida diante do mal-estar pode formar um ciclo difícil de interromper.
Por isso, Pimentel rejeita a ideia de que compulsão alimentar possa ser resumida à falta de disciplina. “A compulsão alimentar é sofrimento, e num número grande de casos é um transtorno de verdade, com nome, com mecanismo, que a medicina reconhece e que se trata. Não é fraqueza moral”, afirma. A vergonha, acrescenta, pode fazer com que a pessoa esconda o comportamento e adie a procura por ajuda.
Da mesma forma, responder ao problema com restrições radicais pode ampliar o conflito com a alimentação. Proibições rígidas, medo de determinados alimentos e punições após comer não necessariamente resolvem aquilo que desencadeou o comportamento. O cuidado passa também por compreender qual emoção está sendo respondida naquele momento e ampliar as formas disponíveis de lidar com ela.
O primeiro movimento pode ser menos ambicioso do que uma transformação completa da dieta. Antes de abrir o aplicativo, o armário ou a geladeira, criar alguns segundos de intervalo e perguntar “que fome é essa?” ajuda a interromper o automatismo. A resposta pode ser fome, mas também cansaço, raiva, ansiedade ou solidão.
Isso não significa que toda vontade de comer algo prazeroso esconda sofrimento, nem que alimentos específicos devam ser tratados como inimigos. O alerta está na repetição e na perda de escolha: quando comer deixa de ser uma possibilidade entre várias formas de cuidado e passa a ser a saída usada quase sempre para não entrar em contato com aquilo que incomoda.
Quando esse padrão provoca sofrimento, sensação de perda de controle ou interfere na rotina, procurar acompanhamento médico ou psicológico é parte do cuidado. Recuperar autonomia sobre a comida não começa necessariamente retirando algo do prato. Muitas vezes, começa entendendo o que se espera que aquele alimento resolva.
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