Day Martins fala sobre maternidade e luto no Manda Vê Com Elas
Escritora relembra a morte do marido durante a gravidez, os desafios de criar os filhos e como encontrou na fé e na escrita caminhos para recomeçar
Aos seis meses de gravidez, Day Martins precisou enfrentar uma perda para a qual não estava preparada. O marido, Felipe, morreu repentinamente aos 37 anos, após procurar atendimento médico com suspeita de infarto. Além da dor de perder o companheiro, a escritora se viu diante de uma realidade que exigia decisões imediatas: cuidar da filha mais velha, manter a gestação e reorganizar a vida financeira da família. A experiência, que alterou seus planos para o futuro, tornou-se parte do livro Depois Daquela Carta.
A trajetória foi compartilhada na quarta-feira (28), durante participação no podcast Manda Vê Com Elas, apresentado por Marília Sylwitch e Ludmila Paim. Ao longo da entrevista, Day falou sobre a infância, os relacionamentos, a maternidade e a maneira como a escrita passou a acompanhar diferentes momentos de sua vida.
Natural de Belo Horizonte, a escritora cresceu em uma comunidade de poucos recursos. Aos cinco anos, sofreu violência sexual e, durante a adolescência, enfrentou a ausência paterna, problemas com álcool e drogas e um período de depressão. Foi nessa fase que encontrou nas cartas dirigidas a Deus uma maneira de expressar sentimentos e registrar sonhos.
O hábito começou quando tinha aproximadamente 17 anos e permanece até hoje. Inicialmente escritas em cadernos, as cartas passaram a ser registradas também no celular. Nelas, Day reúne desabafos, agradecimentos e expectativas para o futuro.
Entre os desejos que colocou no papel estava o de construir uma família. Depois de relacionamentos difíceis, conheceu Felipe durante um evento profissional em Goiânia, cidade onde trabalhava no mercado imobiliário. O relacionamento avançou rapidamente, e os dois passaram a dividir a vida.
A aproximação de Felipe com Maria Clara, filha de Day, foi determinante para a construção dessa família. A menina tinha cinco anos quando o conheceu e, segundo a escritora, desenvolveu com ele uma relação de afeto que se fortaleceu ao longo da convivência.
O casal se casou em Goiânia e, posteriormente, decidiu ampliar a família. Após dificuldades para engravidar, Day descobriu que esperava Mateus, notícia recebida com entusiasmo por Felipe, que desejava ter um filho.
A perda e os desafios da maternidade
Em abril de 2025, quando a gestação se aproximava do sétimo mês, Felipe começou a apresentar desconfortos no estômago. Inicialmente, os sintomas foram associados à alimentação durante o feriado de Páscoa. Na manhã seguinte, porém, sentiu uma forte dor no peito enquanto passeava com os cachorros e decidiu procurar atendimento hospitalar.
Day se preparava para encontrá-lo quando recebeu a informação de que havia suspeita de infarto. Ao chegar à unidade, soube que o marido havia morrido.
A notícia trouxe, além do sofrimento, a difícil tarefa de explicar a ausência à filha. Durante a entrevista, a escritora recordou que Maria Clara não compreendia por que não poderia voltar a ver o homem que havia aprendido a chamar de pai.
O impacto emocional também provocou preocupação com a gravidez. Após apresentar contrações, Day optou por não participar do sepultamento e procurou atendimento para acompanhar a saúde do bebê. No mesmo dia em que Felipe era enterrado, ouviu os batimentos cardíacos de Mateus durante um ultrassom.
A morte do marido também agravou dificuldades financeiras que o casal já enfrentava. Sem acesso a parte dos recursos administrados por Felipe, Day precisou encontrar alternativas para manter a casa e cuidar dos filhos.
Com apoio de amigos e familiares, conseguiu ajuda para despesas como aluguel e mensalidades escolares. Também organizou uma feijoada beneficente para arrecadar dinheiro e enfrentar compromissos financeiros. Meses depois, Mateus nasceu.
A escrita como forma de recomeçar
O desejo de escrever um livro existia desde a infância, mas ganhou outro significado após a morte de Felipe. Day decidiu reunir experiências que atravessaram diferentes fases de sua vida, desde as primeiras cartas até a construção da família e a perda do companheiro.
O resultado foi Depois Daquela Carta, obra na qual a escritora aborda a fé, os relacionamentos, a maternidade e os desafios de continuar depois de uma mudança inesperada.
Durante o programa, Day contou que o livro já vendeu milhares de exemplares e chegou a leitores brasileiros que vivem em países como Japão, Estados Unidos e Canadá. Segundo ela, as mensagens recebidas de pessoas que também enfrentam perdas reforçam a importância de compartilhar sua trajetória.
A escritora também revelou que desenvolve, em parceria com um amigo, um aplicativo voltado a pessoas em processo de luto. Ainda em fase de testes, a ferramenta pretende reunir orientações práticas e atividades para ajudar usuários a lidar com questões que surgem após a morte de alguém próximo.
Passado cerca de um ano e meio da morte de Felipe, Day afirma que começou a dedicar mais atenção à própria saúde e à rotina pessoal. Durante boa parte desse período, os cuidados com os filhos e as responsabilidades financeiras ocuparam praticamente todo o seu tempo.
A experiência também modificou sua relação com o futuro. “Eu vivo hoje e quero estar presente no agora”, afirmou durante a entrevista.
Para Day, seguir adiante não significa apagar o passado ou deixar de sentir saudade. A memória de Felipe permanece na criação dos filhos, nas histórias compartilhadas e no livro que nasceu dessa trajetória. Hoje, a escritora procura conciliar a maternidade com o trabalho, os novos projetos e a reconstrução de uma vida diferente daquela que havia imaginado. A entrevista completa está disponível no canal do Manda Vê no YouTube.
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