quarta-feira, 23 de setembro de 2026
COMPORTAMENTO E INFÂNCIA

Por que crianças deixam de criar e o que os adultos podem fazer para mudar isso

Psicanalista explica que o medo de errar pode sufocar a imaginação infantil antes mesmo que a criança coloque a mão no papel; reação do adulto ao erro faz mais diferença do que parece

Luana Avelarpor em
crianças
FOTO: MAGNIFIC

Antes mesmo de encostar o lápis no papel, algumas crianças já sabem o que não querem: fazer feio, responder errado, desenhar “mal”. O receio pode surgir em frases aparentemente banais, como “não sei”, “não consigo” ou “vai ficar ruim”, mas revela uma mudança importante. Em vez de experimentar primeiro e descobrir depois, a criança passa a antecipar o julgamento sobre aquilo que ainda nem fez.

O medo de errar não nasce necessariamente de grandes cobranças. Pode se formar aos poucos, quando correções constantes, comparações ou elogios sempre ligados ao resultado ensinam que existe uma maneira certa de criar. A imaginação, então, deixa de ser território de descoberta e começa a funcionar como uma prova.

Para a psicanalista, escritora e jornalista Carla Meneghini, em entrevista ao jornal O HOJE, o sinal aparece quando a referência deixa de ser a própria curiosidade. “Quando a criança começa a prestar mais atenção à expectativa do adulto do que à própria vontade de criar. Em vez de pensar ‘o que eu quero inventar?’, começa a pensar ‘o que esperam de mim?’”, afirma Carla.

Nesse ambiente, o erro pode ganhar um peso que não deveria ter. Se uma tentativa mal sucedida é acompanhada por vergonha, desaprovação ou sensação de fracasso, não tentar passa a parecer menos arriscado. É assim que uma criança capaz de inventar mundos inteiros pode começar a dizer que não sabe desenhar ou contar uma história.

“Muitas vezes, esse ‘não sei’ esconde um ‘tenho medo de não ficar bom’. E a criatividade precisa justamente do contrário: liberdade para tentar, errar, voltar atrás e recomeçar”, explica a psicanalista.

A discussão também atravessa Era uma vez uma história, primeiro livro infantojuvenil de Carla. Na obra, uma narrativa ganha vida dentro da cabeça de uma escritora bloqueada e parte em busca de um final. Ao longo do caminho, encontra personagens, memórias e, por fim, a infância da própria criadora. O bloqueio, ali, não desaparece porque surge uma ideia perfeita, mas quando a necessidade de chegar ao resultado ideal perde força.

Fora da literatura, Carla chama atenção para outro elemento cada vez mais raro na rotina infantil: o tempo sem programação. Uma agenda ocupada por escola, atividades, compromissos e telas pode deixar pouco espaço para aquilo que não tem objetivo imediato. O tédio, frequentemente tratado como problema, pode ser justamente o intervalo em que uma brincadeira, um desenho ou uma história começam a existir.

Isso não significa transformar toda hora livre em atividade criativa. A própria necessidade de produzir pode repetir a lógica da cobrança. Para Carla, incentivar a imaginação passa por diminuir a importância do resultado. Nem todo desenho precisa ser bonito, nem toda história precisa terminar bem, nem toda brincadeira precisa ensinar alguma coisa.

A reação do adulto faz diferença. Diante de um “não sei desenhar”, responder apenas “claro que sabe” pode não alcançar o medo que está por trás da frase. Uma alternativa é retirar a obrigação de acertar e permitir que a criança faça algo que não precise ser bonito, lógico ou elogiável.

Também ajuda evitar comparações, deixar que pequenas dificuldades sejam resolvidas sem intervenção imediata e mostrar que adultos erram, mudam de ideia e começam novamente. Uma infância cercada apenas por respostas certas oferece poucas oportunidades para descobrir o que acontece quando nenhuma resposta está pronta.

Criar exige justamente essa margem de incerteza. E talvez uma das formas mais importantes de proteger a imaginação infantil seja mostrar que uma tentativa não precisa terminar em acerto para valer a pena.

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