Uso prolongado de telas preocupa oftalmologistas; entenda o que a exposição faz com os olhos
Exposição contínua pode provocar cansaço visual e desconforto; entre os mais jovens, hábito também está ligado ao avanço da miopia
A ardência no fim do expediente, a sensação de areia nos olhos e a dor de cabeça depois de horas no celular ou no computador têm uma explicação comum: diante das telas, piscamos menos. A redução desse movimento, essencial para espalhar a lágrima e manter a superfície ocular lubrificada, ajuda a transformar um hábito cotidiano em fonte de desconforto.
A oftalmologista Kamylla Rocha explica que a atenção contínua aos dispositivos altera a dinâmica natural dos olhos. “Quando estamos diante de uma tela, principalmente concentrados, piscamos menos. O ato de piscar é responsável por espalhar a lágrima e lubrificar os olhos. Quando piscamos menos, o olho fica mais seco e surgem sintomas como ardência, vermelhidão e sensação de areia”, explica.
Em adultos, o uso prolongado não provoca, por si só, uma lesão direta nos olhos, mas favorece ressecamento, cansaço visual e dor de cabeça, sobretudo ao final do dia. Entre crianças e adolescentes, há uma preocupação adicional: o excesso de atividades que exigem visão de perto está relacionado ao aumento e à progressão da miopia.
“Na criança e no adolescente, temos um prejuízo que já é quantificado. O uso excessivo de telas pode aumentar ou favorecer a progressão da miopia”, afirma.
O tamanho desse hábito aparece na TIC Kids Online Brasil 2024. Entre crianças e adolescentes de 9 a 17 anos que usam internet, 85% acessam a rede mais de uma vez por dia. Dos usuários de 11 a 17 anos, 24% disseram já ter tentado reduzir o tempo on-line sem conseguir. Outros 22% afirmaram ter deixado de dedicar o tempo necessário à família, aos amigos ou às tarefas escolares por permanecerem conectados.
Não é apenas a duração que merece atenção. A distância entre os olhos e o aparelho também interfere no esforço visual. Celulares e computadores devem ficar, em média, a 45 ou 50 centímetros do rosto. Quando uma criança precisa se aproximar demais da televisão ou do celular para enxergar, o comportamento pode sinalizar alteração visual e deve ser investigado.
Para os menores, as recomendações são mais restritivas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda tempo de tela sedentário para crianças de 1 ano. Aos 2 anos, a orientação é de no máximo uma hora por dia. A mesma referência vale para crianças de 3 e 4 anos, com a indicação de que menos tempo é preferível.
Para quem passa boa parte do dia conectado, uma pausa curta pode aliviar o esforço imposto aos olhos. A regra 20-20-20 orienta que, a cada 20 minutos de uso, a pessoa interrompa a atividade por 20 segundos e olhe para um ponto a pelo menos seis metros de distância. Trocar o computador pelo celular não conta como descanso. “O olho estava fazendo um esforço para olhar de perto. Quando olhamos para uma distância maior, ajudamos a relaxar essa musculatura”, explica Kamylla.
O ambiente também faz diferença. Uma tela muito iluminada em um cômodo escuro aumenta o contraste e pode intensificar o cansaço visual. Ajustar o brilho, manter iluminação adequada e evitar os dispositivos perto do horário de dormir ajudam a reduzir o desconforto. Filtros de luz azul podem proporcionar conforto a algumas pessoas, mas não substituem pausas, distância adequada e hábitos de uso mais equilibrados.
Quando ardência, dor de cabeça, cansaço visual ou alterações na visão deixam de ser ocasionais, a avaliação oftalmológica é recomendada. Entre crianças e adolescentes, o acompanhamento periódico é importante mesmo sem queixas, porque mudanças no grau podem passar despercebidas.
“O principal não é necessariamente deixar de usar as telas. É usar com equilíbrio e, principalmente, fazer os descansos visuais. Os olhos também precisam desse descanso”, orienta a oftalmologista.
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