quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Endividamento

Nem todo trabalho paga as contas; pesquisa mostra que 82% das famílias têm alguma dívida

Entre salários apertados, jornadas exaustivas e dívidas acumuladas, trabalhar nem sempre é suficiente para garantir segurança, descanso e estabilidade

Luana Avelarpor em
Nem todo trabalho paga as contas; pesquisa mostra que 82% das famílias têm alguma dívida
Foto: Magnific

Nem todo trabalho oferece propósito, realização ou pertencimento. Para uma parcela dos brasileiros, a questão vem antes: o salário precisa chegar ao fim do mês. Quando isso não acontece, trabalhar deixa de ser uma discussão sobre carreira ou satisfação profissional e passa a significar uma tentativa de manter água, luz, alimentação e outras despesas básicas em dia.

Os números do endividamento ajudam a dimensionar esse cenário. Em agosto, 82% das famílias declararam possuir algum tipo de dívida, maior percentual desde fevereiro de 2026, segundo levantamento do Pagou Fácil, plataforma digital da Paschoalotto. Quase três em cada dez, 29,9%, estavam com contas atrasadas, enquanto 12,5% afirmaram não ter condições de quitar o que deviam.

O problema não está apenas na quantidade de pessoas endividadas. O valor acumulado cresceu mais rapidamente. Entre julho e agosto, o número de inadimplentes avançou 0,06% e chegou a 83,9 milhões. Já o estoque de dívidas em atraso aumentou 0,96%, alcançando R$592 bilhões. O valor médio devido ficou em R$1.687,27 por inadimplente.

A pressão aparece também dentro do orçamento mensal. Para 19,2% das famílias, mais da metade da renda já é destinada ao pagamento de dívidas. O prazo médio das contas vencidas chegou a 65 dias.

A situação pesa mais entre quem ganha menos. Famílias com renda de até três salários mínimos foram as únicas a registrar aumento da inadimplência no período, de 38,5% para 38,8%. Nos demais grupos, o índice permaneceu estável ou recuou. O dado mostra como qualquer oscilação na renda pode comprometer rapidamente um orçamento já dividido entre despesas essenciais e compromissos acumulados.

E é justamente a renda que aparece no centro das explicações. O desemprego foi apontado como principal motivo para a inadimplência por 43,24% dos consumidores. O atraso no salário ou em outros rendimentos veio logo depois, com 38,39%. Somados, fatores ligados à perda ou à instabilidade dos ganhos apareceram em mais de 80% das respostas.

Cartões de crédito e outros produtos bancários concentram 27,3% das dívidas. Mas despesas cotidianas também ocupam parcela relevante: água, luz e telefone representam 20,7% do total, enquanto compromissos com financeiras correspondem a 20,1%.

Nesse contexto, falar de trabalho apenas como fonte de identidade ou realização deixa de fora uma dimensão decisiva. Nem todos escolhem permanecer em um emprego porque encontram sentido nele. Há quem aceite jornadas exaustivas, informalidade ou ocupações precárias porque precisa garantir a próxima conta.

O trabalho pode ocupar lugar importante na vida, mas não deveria definir o valor de quem o exerce nem ser tratado como se todos partissem das mesmas condições. Para milhões de brasileiros, antes de encontrar propósito no que fazem, ainda existe uma pergunta mais urgente: o que entra no fim do mês é suficiente para viver?

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