Solidão e exaustão são associadas à abstenção eleitoral em Goiás
Estudo da Avaaz em parceria com o Datafolha aponta falta de vínculos comunitários e esgotamento entre fatores ligados ao afastamento das urnas
No segundo turno da eleição presidencial de 2022, 20,74% dos eleitores aptos de Goiás não compareceram às urnas, segundo o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-GO). Nas eleições municipais de 2024, o estado teve a maior taxa de abstenção do país no segundo turno, de 34,43%, conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A pesquisa Termômetro do Bem Viver, realizada pela Plataforma Avaaz em parceria com o Datafolha e divulgada na última segunda-feira (14), concluiu que solidão, exaustão mental e falta de vínculos comunitários ajudam a explicar por que eleitores deixam de votar.
Segundo o levantamento, cerca de 30 milhões de eleitores brasileiros — um em cada três — deixaram de votar nas últimas eleições. Entre os classificados como “desvinculados”, 47% já deixaram de votar ou votam raramente, e três em cada dez desistiram do voto. Os jovens de 18 a 34 anos representam 44% desse grupo. Apenas dois em cada dez jovens afirmam sentir conexão comunitária.
O estudo aponta que muitos desses eleitores recorrem à televisão e às redes sociais para lidar com o cansaço, mas ficam mais isolados, desesperançados e culpados. A coordenadora da pesquisa, Nana Queiroz, diretora do Projeto Desapocalíptica, da Avaaz, afirma que essa percepção de falta de poder sobre o coletivo leva as pessoas a parar de votar. Nana cita jornadas de trabalho, como a escala 6×1, entre os fatores que reduzem o tempo para lazer e para a construção de vínculos. A pesquisa não traz recorte por estado, e os dados de Goiás vêm de fontes oficiais.
A abstenção em Goiás
O eleitorado goiano soma 4.870.354 pessoas aptas a votar. Em 2022, a abstenção foi de 21,72% no primeiro turno e de 20,74% no segundo, segundo o TRE-GO. Em 2014, foi de 18,83%, o equivalente a 815.638 eleitores. Em 2018, chegou a 20,19%, com 899.478 ausentes.
Em Goiânia, a abstenção no segundo turno das eleições municipais de 2020 foi de 36,75%. Dos 971.221 eleitores aptos, 356.949 não votaram. O então presidente do TRE-GO, Leandro Crispim, atribuiu o resultado à pandemia de covid-19.
A antropóloga Camilla Nascimento, doutoranda da Universidade Federal de Goiás (UFG), afirma que os jovens continuam em busca de pertencimento, mas que as formas de organização mudaram. Segundo a antropóloga, pesquisas recentes mostram que os jovens migraram para o que o sociólogo Manuel Castells chama de “individualismo conectado”. Os vínculos passaram a ser fluidos, baseados em afinidades temporárias e mediados por telas e redes sociais, e não em relações comunitárias duradouras, ligadas à convivência presencial.
Para a pesquisadora, as novas gerações tendem a ver o voto e outros rituais institucionais como burocráticos e distantes da vida cotidiana. Camilla avalia que o pertencimento foi privatizado e que, sem o “chão comum” do espaço público, o voto deixa de ser visto como ferramenta de transformação coletiva.
Saúde mental
A pesquisa também associa o afastamento das urnas ao esgotamento mental e à dependência digital. Segundo o estudo, pessoas exaustas e isoladas tendem a acreditar que o voto não muda a realidade coletiva.
Camilla afirma que o afastamento das urnas tem relação com a rotina de trabalho e o uso das redes sociais. “A combinação de trabalho exaustivo com consumo digital movido por algoritmos priva o indivíduo de duas condições essenciais para a cidadania ativa: o tempo livre e o convívio com o diferente na comunidade real. A falta de vínculos comunitários e a abstenção eleitoral são sintomas de uma sociedade que mercantilizou o tempo e individualizou os afetos.”
O Termômetro do Bem Viver adota metodologia estrangeira e observa indicadores de qualidade de vida menos frequentes em pesquisas de enfoque econômico, como acesso ao consumo e desempenho da economia.
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