Wilder aposta em discurso de mudança e promete “fazer mais e melhor” em Goiás
Campanha apresenta propostas para desenvolvimento e emprego, mas especialistas apontam lacunas no diagnóstico e na execução
Bruno Goulart
“Fazer mais e melhor.” A frase aparece como uma das principais marcas da propaganda eleitoral de Wilder Morais (PL), candidato ao Governo de Goiás. Nas inserções, o senador procura apresentar ao eleitor a ideia de que o Estado tem capacidade econômica para avançar mais, mas ainda enfrenta problemas que atingem diretamente a população. O discurso combina pautas conservadoras de costumes, críticas à burocracia e aos impostos e propostas para áreas como emprego, educação, saúde, segurança e desenvolvimento regional.
A campanha tenta trazer uma definição política clara: a de um candidato identificado com valores conservadores, de defesa da família, da liberdade de expressão e do combate à corrupção. Também se posiciona contra o aborto, as drogas e o que chama de “ideologia de gênero” nas escolas, com típicas referências ao bolsonarismo.
Ao memo tempo, o candidato procura deslocar o discurso para problemas cotidianos. Trabalhadores e moradores relatam dificuldades relacionadas ao emprego, à renda, ao custo de vida e à falta de oportunidades. A partir desses depoimentos, Wilder constrói uma crítica ao funcionamento do Estado. A burocracia, os impostos e a dificuldade para empreender são apresentados como obstáculos para quem trabalha.
Uma das ideias centrais da propaganda é a defesa de um governo que facilite a atividade de quem produz e, ao mesmo tempo, amplie o suporte oferecido à população, propõe Wilder Essa lógica aparece quando a propaganda questiona a qualidade dos serviços públicos. Em vez de afirmar que Goiás não possui hospitais, empregos ou segurança, a peça reconhece que essas estruturas existem, mas pergunta se são suficientes, se funcionam bem e se chegam a todos. “Em Goiás tem hospital? Tem. Mas está bom? E emprego, tem? Tem. Mas estão pagando bem? E segurança, tem? Tem. Mas tem para todo mundo?”, questiona.
A campanha também defende mais empregos no interior para aproveitar a vocação econômica de cada região. Wilder afirma que a riqueza do agronegócio precisa chegar à população e propõe cursos profissionalizantes ligados às demandas do mercado.
Diagnóstico já conhecido
Para o cientista político e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) Pedro Pietrafesa, parte dos problemas apontados pela campanha já aparece em estudos produzidos pelo próprio Estado. Segundo o especialista, questões relacionadas ao crescimento desigual e à baixa dinâmica econômica de municípios pequenos estão documentadas em levantamentos do Instituto Mauro Borges (IMB).
“Algumas dessas observações já estão em relatórios do próprio IMB, do Instituto Mauro Borges, relacionadas ao crescimento do Estado de Goiás, ao crescimento desproporcional e ao fato de que municípios de pequeno porte têm pouca dinâmica econômica”, afirma.
Na avaliação de Pietrafesa, portanto, o diagnóstico apresentado por Wilder não representa necessariamente uma novidade. O desafio estaria em detalhar como uma eventual administração enfrentaria essas desigualdades. “Falta trabalhar, de fato, especificamente a questão das desigualdades e como o governo, em uma futura gestão, vai trabalhar esses elementos”, diz.
O especialista também chama atenção para a maneira como a campanha trata a burocracia. Para Pietrafesa, reduzir entraves administrativos pode ser importante, mas isso não significa necessariamente reduzir a capacidade do Estado. “Para o desenvolvimento econômico e para o próprio funcionamento do sistema produtivo, é importante ter uma burocracia capacitada, que trabalhe junto com os diferentes setores e contribua para a economia funcionar”, afirma.
Busca por espaço político
Além das propostas, a propaganda também tenta estabelecer qual é o lugar de Wilder na disputa eleitoral. O candidato procura se apresentar como nome de direita e reforça a proximidade política com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para o mestre em História e especialista em políticas públicas Tiago Zancopé, Wilder também não conseguiu construir uma imagem de identificação tão forte com o bolsonarismo quanto outros nomes da direita. Para Zancopé, uma das dificuldades está na própria comunicação do candidato, que “não reproduz uma retórica mais agressiva”. “Wilder não consegue se mostrar como sendo o mais bolsonarista dos bolsonaristas”, pontua.
Comunicação direta
O especialista ainda cita como única comunicação que considera mais acertada o momento em que Wilder, em um dos debates, fala sobre sua experiência empresarial. Ao defender sua capacidade de entregar obras dentro do prazo, o candidato afirma: “Se você quer uma obra entregue no prazo certo, então contrate a Orca [empresa ligada ao candidato]”. Para Zancopé, nesse trecho, Wilder conseguiu apresentar uma comunicação mais direta e alinhada à sua experiência pessoal. (Especial para O HOJE)
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