Mesmo com emprego formal em alta, 68% dos goianienses recorrem a ‘bicos’
Índice era de 54% em 2025; alta de 14 pontos percentuais foi a maior entre as dez capitais avaliadas
68% dos goianienses ouvidos pela pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social 2026 afirmaram ter realizado algum “bico”, para complementar renda nos últimos 12 meses. Em 2025, o índice era de 54%. A alta de 14 pontos percentuais foi a maior entre as dez capitais avaliadas, em período que indicadores oficiais do mercado de trabalho apresentam melhora na cidade.
O levantamento foi realizado pelo Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), em parceria com a Ipsos-Ipec, entre 1º e 20 de julho deste ano. Foram feitas 3.500 entrevistas online com internautas de 16 anos ou mais, moradores há pelo menos dois anos das capitais pesquisadas. Em Goiânia, a amostra foi de 300 pessoas, com margem de erro de seis pontos percentuais e acurácia de 95%. Segundo o relatório, a diferença entre Goiânia e o total da amostra não é estatisticamente significativa.
Na média das dez capitais avaliadas, 61% precisaram de renda extra, e 56% na rodada anterior. Depois de Goiânia, os maiores índices registrados foram em Belém e Salvador (66%) e Fortaleza (65%). Em Goiânia, 32% dos entrevistados disseram que a renda pessoal diminuiu nos últimos 12 meses, 44% afirmaram que ficou estável e 19% relataram aumento.
Para Pedro Henrique Evangelista, professor de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Goiás (UFG), o resultado da pesquisa não é compatível com o desempenho do mercado de trabalho no estado. Segundo Pedro, o emprego formal e o rendimento crescem em Goiás, impulsionados pelo agronegócio.
No segundo trimestre de 2026, o rendimento médio do trabalho no estado subiu 9,1% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a alta nacional foi de 2,8%. O professor também afirma que a informalidade em Goiás está abaixo da média do país e que a de Goiânia é menor que a do estado.
O professor atribui o aumento da busca por renda extra ao custo de vida. Segundo o economista, a inflação acumulada em 12 meses em Goiânia é de 5,39%, a maior entre as capitais. “Quando a gente percebe o acumulado dos últimos meses, a inflação na cidade de Goiânia cresceu 5,39%, o que faz com que Goiânia seja a capital que lidera o ranking nacional de inflação acumulada dos últimos 12 meses. De todas as capitais, é a que teve a maior inflação, e isso encarece o custo de vida.”, afirmou.
Para Pedro, o crescimento da inflação é o que leva as famílias a se endividarem e a recorrerem a atividades de complemento de renda.
Serviços gerais lideram
Entre as atividades citadas em Goiânia, o “bico” de serviços gerais, que inclui faxina, manutenção, reformas e jardinagem, foi o mais mencionado, com taxa de 26%, em comparação com 19% em 2025. A média das capitais é de 18%. A venda de roupas e outros artigos usados foi citada por 15% dos goianienses, e o trabalho como motorista ou entregador por aplicativo passou de 9%. A produção de alimentos em casa para vender foi a única dessas quatro atividades a recuar, de 10% para 7%.
Segundo Pedro Henrique, o crescimento dos serviços gerais depende do porte e da estrutura da cidade, que ampliam a oferta de trabalho e de bicos.”O bico de serviço geral vai crescer em regiões mais estruturadas, com maior infraestrutura urbana, econômica e social, porque a oferta de serviço é mais ampla e, com ela, a possibilidade de ofertar serviço na forma de bico. Numa cidade de 5.000 habitantes, por exemplo, você tem baixa oferta de trabalho doméstico e não consegue oferta de aplicativos de transporte ou de entrega. Quanto maior a cidade, mais complexa a estrutura e maior a quantidade de serviços ofertados”, disse.
Nesse sentido, o professor analisa que Goiás apresenta uma dinamicidade, principalmente em torno da construção civil, que oferta vagas de pedreiro, servente, na limpeza e na manutenção de obras. Esses bicos não ocorrem no mercado formal, porque não se trata de contrato de trabalho: você oferta um serviço por um período muito curto. Mas certamente tem relação com o custo de vida, que está mais alto”, fecha.
Custo de vida é a principal causa do aumento
A alimentação foi apontada por 87% dos entrevistados como um dos itens que mais pesam no orçamento doméstico, na média das capitais. Em Goiânia, o índice foi de 84%, moradia (61%) e saúde (58%) vêm em seguida. 41% dos entrevistados nas capitais disseram ter reduzido o consumo de carnes, 34% o de laticínios e 30% o de frutas, legumes e verduras. O consumo de ovos aumentou para 35%.
Em Goiânia, a principal medida apontada para enfrentar a fome e a pobreza foi a criação de políticas de garantia de emprego, citada por 79% dos entrevistados. A ampliação da assistência social foi mencionada por 61%, contra 54% em 2025.
Segundo Pedro Henrique, as causas da alta nos bicos são diversas e precisam ser analisadas caso a caso, com algumas se repetindo, como o desemprego. “Quando a gente tem uma alta taxa de desemprego, há uma expansão de bicos e de trabalho autônomo, porque as pessoas precisam ter acesso a uma renda para comprar o mínimo básico para sobreviver. Se a economia não está gerando emprego nem renda, no caso geral as pessoas vão fazer bico”, disse.
O economista organizou os fatores que explicam a estatística na hierarquia. O desemprego vem em primeiro lugar, seguido dos baixos salários, que são insuficientes para garantir as condições de vida, e, com menor peso, da baixa qualificação. Segundo Pedro, mesmo em uma economia dinâmica há uma fração da população com baixa qualificação, inserida em trabalhos mais vulneráveis, com piores condições, baixos salários e altas jornadas.
Sobre Goiânia, o professor afirma que o principal problema não é o salário, mas a inflação. “Quando a inflação cresce acima do rendimento, o poder de compra da classe trabalhadora está caindo, porque o rendimento cresce menos do que o custo de vida. O que a gente tem hoje em Goiânia efetivamente é a inflação que cresce acima dos rendimentos”, declarou.
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