Entorno do DF é o mapa da mina da eleição para governador desde 1998
Região Metropolitana de Brasília tem 1 milhão de eleitores, com ambições próprias, sem qualquer vínculo com seus conterrâneos de outras regiões, o que os principais candidatos descobriram há tempos e transformaram no segredo mais divulgado de Goiás, porque não saem de lá
Olhe a agenda dos candidatos a governador de Goiás dos últimos meses… (10 minutos depois). Olhou? Olhe de novo… (outros 5 minutos se passam). Percebeu que eles não saem do Entorno do Distrito Federal? Tem sido assim desde 1998. Dos quatro principais nas pesquisas neste 2026, se consideradas as últimas votações, Daniel Vilela (MDB) perdeu em todas em 2018, Wilder Morais (PL) ganhou em quase todas em 2022, Luis Cesar Bueno (PT) teve pequeníssima preferência em 2018, Marconi Perillo (PSDB) vem despencando desde 2014, quando se reelegeu governador, depois tem sido só desengano. Todos, claro, querendo o milhão de votos reunidos em poucos quilômetros.
Há 28 anos, o MDB caminhava para vitória tranquila de Iris Rezende (PMDB) contra Marconi. Tanto que Iris sequer considerou a opinião de quem o alertou para colocar de vice alguém do Entorno, pois Lúcia Vânia havia escolhido Walter Rodrigues, de Luziânia, na eleição anterior. Iris lembrou que ela, ainda assim, perdera para Maguito Vilela, lançado por ele. Lúcia seguiu o que seu grupo político, quando estava no PMDB, fizera em 1986: Henrique Santillo optou por Joaquim Roriz, também de Luziânia, que foi a cidade mais populosa da região até 2019, quando foi superada por Águas Lindas. Em 1998, Iris preferiu para vice Romilton Moraes, do Sudoeste. E não aprendeu a lição: na eleição seguinte, novamente era favoritaço e escolheu para suplente a professora Lêda Borges, de Valparaíso, no Entorno. De última hora, tirou-a e novamente perdeu.
Poluídas por propaganda inútil de políticos idem
As cidades na vizinhança do Distrito Federal têm zero ligação com Goiânia. Capital, para elas, é a do Plano Piloto. Três delas, Águas Lindas, Luziânia e Valparaíso, somam 600 mil habitantes. O HOJE passou nesta semana por Luziânia e Cristalina. Estão iguais aos outros lugares de Goiás, poluídas por propaganda inútil de políticos idem. Por ali, o repórter só viu material de Daniel e Wilder. Dos deputados, todo mundo. A novidade é que aos poucos os moradores vão fazendo na marra o voto digital. Célio Silveira e Lêda Borges, os dois federais da região, ele de Luziânia, apenas complementaram em outras paragens.
O maior líder da Região Metropolitana de Brasília (RMB) continua sendo Roriz, que depois de Juscelino Kubitschek, o construtor da capital federal, é o maior personagem dos dois lados da fronteira do quadradinho. A herança é tamanha que a atual governadora do DF, Celina Leão (PP), começou na vida pública por influência e chamada por Roriz. Por isso, uma das melhores ideias de Celina foi justamente atender às lideranças goianas, pois as cidades estão conurbadas.
É preciso se dar bem com o GDF
Qualquer que seja o governador de Goiás, é preciso se dar bem com o GDF, que é quem cuida da saúde dos goianos. A mão de obra de órgãos públicos e das empresas privadas de Brasília se divide entre as duas unidades da federação. Em geral, é uma população sem link com seus conterrâneos do restante do Estado. Seus desejos são outros. Suas lutas são outras. Por isso, seus representantes devem ser outros.
No momento, a maior liderança no DF e Entorno é Michelle Bolsonaro, que é brasiliense da gema. A ex-primeira-dama deve ser uma das raras personalidades de proa da política que conseguem andar dos dois lados sem Waze nem Google Maps. Michelle é raiz, circula por ali desde antes de se propagar o GPS. Dos principais candidatos a todos os cargos goianos, nenhum nasceu, nenhum mora, nenhum tem convivência diária na circunvizinhança. Wilder tem shopping em Valparaíso desde o início do século, além de investimentos em empresas. Talvez por isso, nas duas eleições estaduais que disputou como titular, foi muito bem aceito ali: perdeu no Estado em 2018, mas se a eleição de senador fosse apenas no Entorno, teria ganhado; em 2022, quando se elegeu, tirou ali suas melhores votações.
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“Baiano” é o apelido mais frequente do Entorno
Marconi Perillo e o presidenciável Ronaldo Caiado tiveram grandes votações no Entorno, como o 1° em 2002 e 2014, e o 2° em 2018 e 2022. Caiado tem um trunfo exclusivo, Gracinha Caiado, sua mulher, que é nordestina, como a maioria absoluta do milhão de eleitores. Gracinha é da Bahia, como mais de 200 mil dos que vão votar, pois nasceram na boa terra ou são filhos ou netos dos imigrantes. “Baiano” é o apelido mais frequente do Entorno. Mas também pululam maranhenses, cearenses, piauienses, alagoanos, pernambucanos, também com suas descendências. Ter o sotaque de Gracinha por ali é um trunfo.
Apesar de tudo isso, a maioria dos votos vai para os paraquedistas. A torcida agora é para que o aparelho não abra. (Especial para O HOJE)
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