Sindicatos cobram a Prefeitura de Goiânia prioridade à saúde diante de repasse de R$ 6 mi a clubes de futebol
Simego e Sindsaúde questionam prioridades do município enquanto problemas em unidades de urgência e emergência se acentuam
A decisão da Prefeitura de Goiânia de destinar R$ 6 milhões para um projeto de patrocínio envolvendo Goiás, Vila Nova e Atlético-GO ocorre em um momento delicado para a rede municipal de Saúde. Enquanto o Executivo encontra espaço no orçamento para uma ação de divulgação da Capital por meio do futebol, unidades de urgência e emergência continuam enfrentando problemas que afetam diretamente o atendimento à população.
O valor destinado aos clubes não é o mesmo recurso que esteve no centro da recente discussão sobre o financiamento da Saúde. A Prefeitura e a Câmara Municipal dividirão os R$ 6 milhões, sendo R$ 3 milhões do Executivo e R$ 3 milhões provenientes de sobras orçamentárias do Legislativo. O repasse será feito à Federação Goiana de Futebol (FGF), responsável pela distribuição aos três clubes.
A Prefeitura justifica o investimento como uma estratégia de promoção institucional de Goiânia. Segundo a administração, a exposição durante os jogos pode divulgar a imagem e os atrativos turísticos da Capital, além de movimentar setores como hotelaria, gastronomia e comércio. O projeto também é apresentado como uma forma de fomentar o esporte e contribuir para a geração de emprego e renda.
Para as entidades médicas, entretanto, o momento exige outra discussão: a definição das prioridades do dinheiro público. O Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego) afirma que a aplicação dos recursos deve considerar, antes de tudo, as necessidades essenciais da população. A entidade reconhece a importância do esporte e do futebol para a cidade, mas questiona a escolha de direcionar recursos para essa finalidade diante das dificuldades enfrentadas atualmente pela Saúde municipal.
Na avaliação do Simego, a rede de Saúde enfrenta falta de medicamentos, insumos e equipamentos, déficit de profissionais e dificuldades na realização de exames. O sindicato também chama atenção para as condições de trabalho dos profissionais e afirma que uma eventual redução de aproximadamente R$ 6 milhões mensais na Saúde representaria R$ 72 milhões a menos por ano, ampliando a preocupação sobre a capacidade de atendimento da rede.
O Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde) adota posição semelhante. A entidade afirma reconhecer a importância do futebol e do incentivo ao esporte, mas questiona a destinação de recursos públicos aos clubes enquanto a rede municipal convive com falta de medicamentos, insumos e equipamentos, além de déficit de profissionais e dificuldades relacionadas às condições de trabalho.
Os problemas apontados pelos sindicatos não são apenas uma avaliação das entidades. Inspeções realizadas pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) em unidades de urgência e emergência identificaram falta de medicamentos, materiais e equipamentos, além de dificuldades na realização de exames e insuficiência de profissionais. Em uma nova vistoria, realizada em agosto, parte das irregularidades permanecia. Entre os problemas encontrados estava a ausência de hemogasometria, exame utilizado na avaliação de pacientes em estado grave.
Permanência por mais de 24 horas
O MP-GO também identificou pacientes que permaneciam por mais de 24 horas nas unidades, insuficiência de profissionais e dificuldades na oferta de exames. Diante da permanência dos problemas, o Ministério Público levou o caso à Justiça e pediu providências para garantir o abastecimento das unidades e a realização do exame.
Outro ponto de tensão envolve justamente os médicos credenciados. Em setembro, o Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO) proibiu a Prefeitura de reduzir plantões, escalas, horários de atendimento, unidades ou serviços essenciais da rede municipal. A discussão surgiu após a definição de um limite de R$ 4 milhões para pagamentos de profissionais credenciados com recursos do Tesouro Municipal, enquanto a média anterior era de aproximadamente R$ 10 milhões.
O Simego afirma que a redução poderia atingir até 160 mil atendimentos mensais na rede de urgência e emergência e relata que já havia identificado redução de plantões e escalas desfalcadas. Segundo o sindicato, a situação é ainda mais preocupante porque ocorre em uma rede que já enfrenta problemas de abastecimento e falta de profissionais.
Questionamentos
É nesse cenário que a aplicação dos R$ 6 milhões ao futebol passa a ser questionada pelas entidades. Não se trata, segundo os próprios dados, de afirmar que o dinheiro destinado aos clubes foi retirado diretamente da Saúde.
O Simego defende que a Prefeitura mantenha transparência, planejamento e responsabilidade na aplicação dos recursos municipais e que as necessidades essenciais da população sejam consideradas na definição das prioridades. O Sindsaúde também cobra que os serviços essenciais tenham preferência diante das dificuldades enfrentadas pela rede.
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