Aava tem 123 mil votos, mas fica fora da Câmara e resultado expõe fragilidade do PSB sob sua própria presidência
Presidente estadual do PSB, vereadora teve a sétima maior votação para deputado federal em Goiás, mas o partido não conquistou nenhuma das 17 cadeiras; semanas antes, ela havia defendido nas redes sociais que tinha uma “chapa forte”
A derrota de Aava Santiago (PSB) na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados não foi exatamente uma surpresa. O que surpreende é a dimensão da votação alcançada pela vereadora. Com 123.311 votos, ela terminou a eleição como a sétima candidata mais votada para deputado federal em Goiás e, ainda assim, ficou fora das 17 cadeiras destinadas ao Estado. O resultado expõe não uma falta de força eleitoral da candidata, mas uma estratégia partidária que não conseguiu transformar seu desempenho individual em representação para o PSB.
Aava tinha motivos para acreditar em sua própria candidatura. Ao longo da campanha, consolidou-se como um dos principais nomes da esquerda goiana e conseguiu uma votação expressiva. O problema foi acreditar que essa força poderia ser suficiente para compensar a fragilidade da chapa. Em uma eleição proporcional, entretanto, política não se faz sozinha. O desempenho de um candidato depende também da capacidade de sua legenda de reunir votos e conquistar uma cadeira.
E esse era um risco que estava colocado antes mesmo da abertura das urnas. Como presidente estadual do PSB, Aava não era apenas uma candidata preocupada com a própria votação. Cabia a ela também conduzir a estratégia da legenda e construir uma chapa capaz de disputar uma cadeira. O questionamento sobre a competitividade da nominata, portanto, não era uma crítica meramente eleitoral à candidata, mas uma cobrança sobre a dirigente partidária.
A questão chegou às redes sociais poucas semanas antes da eleição. Em uma discussão no X, antigo Twitter, a composição da chapa do PSB foi questionada justamente sob esse aspecto. A avaliação era de que Aava poderia ter uma votação expressiva, mas que o partido corria o risco de não alcançar o quociente necessário para transformar essa votação individual em uma cadeira.
A vereadora reagiu e defendeu a própria estratégia. Disse que estava com uma “chapa forte” e argumentou que não precisaria alcançar sozinha os cerca de 180 mil votos que poderiam representar o quociente eleitoral. Tecnicamente, ela estava certa nesse ponto: o candidato não precisa atingir sozinho o quociente eleitoral, já que a votação do partido ou federação é determinante para a distribuição das cadeiras.
Mas esse nunca foi o ponto principal da crítica. A questão era justamente a capacidade de somar os votos da chapa. E o resultado mostrou que o problema existia.
Aava teve 123.311 votos. O PSB, porém, não conseguiu eleger nenhum deputado federal em Goiás. A candidata foi a sétima mais votada do Estado e recebeu mais votos que candidatos que conquistaram uma das 17 cadeiras. Ainda assim, terminou a eleição sem mandato.
O paradoxo é evidente: Aava conseguiu fazer uma campanha individual suficientemente forte para ficar entre os principais candidatos de Goiás, mas o partido que ela própria presidia não conseguiu construir uma votação coletiva suficiente para aproveitar esse desempenho.
É aí que a discussão sobre a chapa ganha outro peso. Se Aava fosse apenas uma candidata do PSB, seria possível atribuir o resultado exclusivamente à estratégia eleitoral da legenda. Mas, como presidente estadual do partido, ela também era responsável pela construção política que levou à eleição. A força individual da candidata não pode ser dissociada da fragilidade coletiva da legenda.
A derrota, portanto, estava desenhada no risco que havia sido apontado durante a campanha. Aava apostou que sua capacidade de mobilização eleitoral seria suficiente para superar as dificuldades da chapa. Não foi.
Os 123.311 votos mostram que ela tinha força política e eleitoral. Mas também mostram outra coisa: ter uma candidatura forte não é o mesmo que ter um partido forte.
A eleição proporcional exige articulação, composição, nomes competitivos e capacidade de somar votos. Um candidato pode carregar uma parcela enorme da votação de uma legenda e, mesmo assim, ficar sem mandato se o partido não conseguir alcançar os patamares necessários para disputar as cadeiras.
No caso de Aava, foi exatamente isso que aconteceu. Ela não perdeu por falta de votos. Perdeu porque os votos dela não encontraram uma chapa capaz de transformá-los em uma cadeira.
E talvez essa seja a principal lição deixada pela eleição para a própria presidente do PSB: política não se faz sozinha. Uma votação individual extraordinária pode colocar um candidato entre os mais votados do Estado, mas, no sistema proporcional, é a força coletiva que transforma voto em poder institucional.
Aava provou que consegue fazer votos, já o PSB, sob sua direção, não conseguiu fazer a cadeira.
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