Em Goiás, 148 de 216 municípios do projeto de esgoto não têm sistema coletivo
Nova licitação do esgoto está prevista para o primeiro trimestre de 2027, e o déficit se concentra nos municípios menores do estado
O governador Daniel Vilela (MDB) foi reeleito neste domingo (4) com 59,17% dos votos válidos, segundo apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e inicia o novo mandato com a licitação da parceria público-privada (PPP) do esgoto revogada. A nova licitação está prevista para o primeiro trimestre de 2027. A Saneamento de Goiás S.A. (Saneago) atende 75% da população com esgoto e precisa chegar a 90% até 2033, prazo fixado pelo Marco Legal do Saneamento.
A licitação revogada previa investimento de R$6,2 bilhões em contratos de 20 anos para ampliar a coleta e o tratamento de esgoto em 216 municípios, divididos em três blocos regionais, conforme edital publicado pela Saneago em dezembro de 2025. O leilão marcado para março deste ano não resultou em contratação, e a Saneago revogou o edital em agosto para reformular o projeto.
Segundo Fred Le Blue, urbanista e ambientalista do coletivo Goiânia 2030, o Governo de Goiás e as prefeituras precisam tomar decisões urgentes para tornar viável a meta de 90% de cobertura de esgoto em 2033. Segundo o urbanista, para efetivar a meta é necessário ampliar investimentos nos municípios mais necessitados, combinar sistemas convencionais com soluções pensadas fora dos grandes centros, integrar saneamento e planejamento urbano, fortalecer tecnicamente as prefeituras, estabelecer critérios de prioridade social e ambiental e garantir transparência no acompanhamento das metas.
“O desafio não é apenas construir mais redes de esgoto, mas criar uma política de saneamento territorialmente justa, ambientalmente responsável e economicamente sustentável”, afirmou.
Cobertura atual e metas do Marco Legal
Em março de 2026, a Saneago registrou 98% de atendimento com água e 75% com esgoto. A empresa tinha 2,6 milhões de ligações de água e 1,6 milhão de ligações de esgoto e atuava em 223 dos 246 municípios goianos. O Marco Legal do Saneamento, instituído pela Lei 14.026/2020, exige 99% de cobertura de água e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033.
O déficit se concentra nos municípios menores. Planos microrregionais da Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinfra) e da Saneago apresentados em 2025 mostram que 148 dos 216 municípios do projeto não têm sistema coletivo de esgotamento sanitário. Nesses locais, a população usa fossas. Entre os 68 municípios que têm sistema, 35 registram cobertura urbana de rede coletora superior a 60%. O projeto da PPP previa a construção de 302 estações de tratamento de esgoto e de 14 mil quilômetros de redes coletoras.
Fred afirma que a desigualdade entre a capital e o interior é um dos principais desafios do saneamento em Goiás. Para o urbanista, a diferença está relacionada, à concentração histórica de investimentos e à maior capacidade de pressão institucional, política e midiática das grandes cidades. Nos pequenos municípios, onde essa capacidade é menor, o urbanista defende políticas que considerem as características e as necessidades específicas de cada território.
O urbanista também afirmou que a baixa densidade populacional e o alto custo por ligação tornam os sistemas convencionais de redes coletivas pouco viáveis em muitos municípios. Fred defende sistemas descentralizados e soluções baseadas na natureza para pequenos núcleos urbanos, distritos, comunidades rurais e áreas isoladas, inclusive de forma complementar às redes convencionais. “Essas soluções podem apresentar menor complexidade e custos de implantação e operação, permitindo ampliar a cobertura de saneamento de maneira mais adequada à realidade local”, disse.
No país, cerca de 90 milhões de pessoas não têm coleta de esgoto, o equivalente a 43,3% da população, segundo o Instituto Trata Brasil com base no Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa) do Ministério das Cidades, ano-base 2024. O mesmo levantamento aponta que 51,8% do esgoto gerado no país é tratado.
O Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, coloca Goiânia em sexto lugar e Aparecida de Goiânia em oitavo entre os 100 municípios mais populosos do país. Goiânia também está entre as sete capitais com mais de 90% de coleta de esgoto.
Fred apontou o crescimento desordenado da Região Metropolitana de Goiânia, especialmente nas áreas periféricas, com novos loteamentos e ocupações irregulares que nem sempre são acompanhados de planejamento de redes de esgoto, abastecimento de água e drenagem urbana. “Quando a expansão ocorre sem os devidos estudos técnicos e ambientais, o custo da infraestrutura aumenta e os impactos acabam sendo transferidos para toda a sociedade, afetando rios, córregos, drenagem, saúde pública e qualidade de vida”, afirmou.
Plano de governo menciona investimentos no saneamento básico
O plano de governo de Daniel Vilela trata do saneamento no eixo Infraestrutura, Território e Sustentabilidade. O documento menciona investimentos em coleta e tratamento de esgoto, abastecimento de água e segurança hídrica urbana. Também cita um programa de água, saneamento e cidades voltado a obras de esgoto, drenagem e resíduos.
O urbanista afirmou que o saneamento precisa estar articulado aos Planos Diretores municipais e ao planejamento das três microrregiões de saneamento. “Na prática, muitos municípios não possuem capacidade técnica e recursos humanos suficientes para acompanhar a velocidade de sua expansão urbana, fazendo com que o Plano Diretor se transforme, muitas vezes, em uma carta de intenções com pouca aplicação concreta”, disse. Para Fred, “as metas de universalização de água potável e esgotamento sanitário só serão alcançadas se houver integração entre planejamento urbano, saneamento, investimentos, fiscalização e capacidade técnica municipal”.
Em nota, a Saneago informou que o atendimento com esgotamento sanitário chegou a 75,57% da população e o de água tratada a 98,35%. A companhia afirmou que mais de 1,3 milhão de pessoas passaram a contar com esgotamento sanitário desde 2019 e que investiu R$2,8 bilhões em sistemas de água e esgoto entre 2021 e 2025. Segundo a empresa, o investimento acumulado com parceiros ultrapassou R$1 bilhão em 2025. A Saneago também informou que as perdas de água na distribuição são de 21,5% em Goiás e de 13,5% em Goiânia, enquanto a média nacional é de 39,53%.
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.