terça-feira, 6 de outubro de 2026
INFRAESTRUTURA

Em Goiás, 148 de 216 municípios do projeto de esgoto não têm sistema coletivo

Nova licitação do esgoto está prevista para o primeiro trimestre de 2027, e o déficit se concentra nos municípios menores do estado

Gabriel Diaspor em
Em Goiás, 148 de 216 municípios do projeto de esgoto não têm sistema coletivo
No país, cerca de 90 milhões de pessoas não têm coleta de esgoto, o equivalente a 43,3% da população. (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

O governador Daniel Vilela (MDB) foi reeleito neste domingo (4) com 59,17% dos votos válidos, segundo apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e inicia o novo mandato com a licitação da parceria público-privada (PPP) do esgoto revogada. A nova licitação está prevista para o primeiro trimestre de 2027. A Saneamento de Goiás S.A. (Saneago) atende 75% da população com esgoto e precisa chegar a 90% até 2033, prazo fixado pelo Marco Legal do Saneamento.

A licitação revogada previa investimento de R$6,2 bilhões em contratos de 20 anos para ampliar a coleta e o tratamento de esgoto em 216 municípios, divididos em três blocos regionais, conforme edital publicado pela Saneago em dezembro de 2025. O leilão marcado para março deste ano não resultou em contratação, e a Saneago revogou o edital em agosto para reformular o projeto.

Segundo Fred Le Blue, urbanista e ambientalista do coletivo Goiânia 2030, o Governo de Goiás e as prefeituras precisam tomar decisões urgentes para tornar viável a meta de 90% de cobertura de esgoto em 2033. Segundo o urbanista, para efetivar a meta é necessário ampliar investimentos nos municípios mais necessitados, combinar sistemas convencionais com soluções pensadas fora dos grandes centros, integrar saneamento e planejamento urbano, fortalecer tecnicamente as prefeituras, estabelecer critérios de prioridade social e ambiental e garantir transparência no acompanhamento das metas.

“O desafio não é apenas construir mais redes de esgoto, mas criar uma política de saneamento territorialmente justa, ambientalmente responsável e economicamente sustentável”, afirmou.

Cobertura atual e metas do Marco Legal

Em março de 2026, a Saneago registrou 98% de atendimento com água e 75% com esgoto. A empresa tinha 2,6 milhões de ligações de água e 1,6 milhão de ligações de esgoto e atuava em 223 dos 246 municípios goianos. O Marco Legal do Saneamento, instituído pela Lei 14.026/2020, exige 99% de cobertura de água e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033.

O déficit se concentra nos municípios menores. Planos microrregionais da Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinfra) e da Saneago apresentados em 2025 mostram que 148 dos 216 municípios do projeto não têm sistema coletivo de esgotamento sanitário. Nesses locais, a população usa fossas. Entre os 68 municípios que têm sistema, 35 registram cobertura urbana de rede coletora superior a 60%. O projeto da PPP previa a construção de 302 estações de tratamento de esgoto e de 14 mil quilômetros de redes coletoras.

Fred afirma que a desigualdade entre a capital e o interior é um dos principais desafios do saneamento em Goiás. Para o urbanista, a diferença está relacionada, à concentração histórica de investimentos e à maior capacidade de pressão institucional, política e midiática das grandes cidades. Nos pequenos municípios, onde essa capacidade é menor, o urbanista defende políticas que considerem as características e as necessidades específicas de cada território.

O urbanista também afirmou que a baixa densidade populacional e o alto custo por ligação tornam os sistemas convencionais de redes coletivas pouco viáveis em muitos municípios. Fred defende sistemas descentralizados e soluções baseadas na natureza para pequenos núcleos urbanos, distritos, comunidades rurais e áreas isoladas, inclusive de forma complementar às redes convencionais. “Essas soluções podem apresentar menor complexidade e custos de implantação e operação, permitindo ampliar a cobertura de saneamento de maneira mais adequada à realidade local”, disse.

No país, cerca de 90 milhões de pessoas não têm coleta de esgoto, o equivalente a 43,3% da população, segundo o Instituto Trata Brasil com base no Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa) do Ministério das Cidades, ano-base 2024. O mesmo levantamento aponta que 51,8% do esgoto gerado no país é tratado.

O Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, coloca Goiânia em sexto lugar e Aparecida de Goiânia em oitavo entre os 100 municípios mais populosos do país. Goiânia também está entre as sete capitais com mais de 90% de coleta de esgoto.

Fred apontou o crescimento desordenado da Região Metropolitana de Goiânia, especialmente nas áreas periféricas, com novos loteamentos e ocupações irregulares que nem sempre são acompanhados de planejamento de redes de esgoto, abastecimento de água e drenagem urbana. “Quando a expansão ocorre sem os devidos estudos técnicos e ambientais, o custo da infraestrutura aumenta e os impactos acabam sendo transferidos para toda a sociedade, afetando rios, córregos, drenagem, saúde pública e qualidade de vida”, afirmou.

Plano de governo menciona investimentos no saneamento básico

O plano de governo de Daniel Vilela trata do saneamento no eixo Infraestrutura, Território e Sustentabilidade. O documento menciona investimentos em coleta e tratamento de esgoto, abastecimento de água e segurança hídrica urbana. Também cita um programa de água, saneamento e cidades voltado a obras de esgoto, drenagem e resíduos.

O urbanista afirmou que o saneamento precisa estar articulado aos Planos Diretores municipais e ao planejamento das três microrregiões de saneamento. “Na prática, muitos municípios não possuem capacidade técnica e recursos humanos suficientes para acompanhar a velocidade de sua expansão urbana, fazendo com que o Plano Diretor se transforme, muitas vezes, em uma carta de intenções com pouca aplicação concreta”, disse. Para Fred, “as metas de universalização de água potável e esgotamento sanitário só serão alcançadas se houver integração entre planejamento urbano, saneamento, investimentos, fiscalização e capacidade técnica municipal”.

Em nota, a Saneago informou que o atendimento com esgotamento sanitário chegou a 75,57% da população e o de água tratada a 98,35%. A companhia afirmou que mais de 1,3 milhão de pessoas passaram a contar com esgotamento sanitário desde 2019 e que investiu R$2,8 bilhões em sistemas de água e esgoto entre 2021 e 2025. Segundo a empresa, o investimento acumulado com parceiros ultrapassou R$1 bilhão em 2025. A Saneago também informou que as perdas de água na distribuição são de 21,5% em Goiás e de 13,5% em Goiânia, enquanto a média nacional é de 39,53%.

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Daniel Vilela saneago Saneamento Básico

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