Cuidados paliativos começam no diagnóstico e caminham junto com o tratamento, explica geriatra
Abordagem não se restringe ao fim da vida e busca controlar sintomas, reduzir sofrimento e preservar a autonomia diante de doenças graves
Cuidados paliativos podem começar ainda no diagnóstico de uma doença grave e seguir ao lado do tratamento dirigido à condição. A abordagem não significa interrupção de terapias nem ausência de alternativas. O objetivo é reduzir o sofrimento, controlar sintomas e preservar a qualidade de vida do paciente e da família ao longo da doença.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 56,8 milhões de pessoas precisam de cuidados paliativos a cada ano, e apenas cerca de 14% recebem a assistência. No Brasil, a Academia Nacional de Cuidados Paliativos calcula que mais de 625 mil pessoas necessitem desse acompanhamento anualmente. O Atlas Brasileiro de Cuidados Paliativos 2025 aponta que os serviços especializados passaram de 234, em 2022, para 423, em 2025.
A geriatra e paliativista Jackeline Gomes explica que a abordagem é indicada para pessoas com doenças graves, progressivas ou que ameaçam a vida. Câncer, demências, doenças neurológicas progressivas e insuficiências cardíaca, pulmonar, renal ou hepática estão entre as condições que podem demandar esse cuidado.
“Não cuidamos apenas da doença. O trabalho é feito, preferencialmente, por uma equipe multiprofissional, formada por médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas e nutricionistas, porque o sofrimento causado por uma doença grave raramente é apenas físico. Cuidamos da pessoa como um todo, considerando sua história, seus valores, suas necessidades e aquilo que é importante para ela”, explica.
A associação dos cuidados paliativos apenas ao fim da vida ainda provoca resistência entre pacientes e familiares. Para Jackeline, esse entendimento reduz o alcance de uma assistência que pode ser introduzida muito antes. “Há sempre muito a ser feito. Os cuidados paliativos podem ser introduzidos desde o diagnóstico de uma doença grave e caminhar junto com os tratamentos direcionados à doença”, observa.
Na prática, um paciente com câncer avançado pode continuar em quimioterapia enquanto recebe acompanhamento para controle de dor, falta de ar, enjoo e cansaço. Exames, medicamentos e procedimentos podem ser mantidos quando trazem benefício compatível com os objetivos do paciente.
Outro ponto central é conversar antecipadamente sobre preferências e limites do tratamento. Onde receber cuidados, quem poderá participar das decisões caso o paciente não consiga mais decidir e quais intervenções deseja ou não receber podem ser discutidas antes de uma piora clínica.
“Ter essas conversas com antecedência traz mais segurança para os parentes e ajuda a garantir que as escolhas e a autonomia do paciente sejam respeitadas”, orienta.
A lógica não é substituir o tratamento, mas somar cuidado voltado ao conforto, à autonomia e ao que a pessoa considera importante.
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