sábado, 17 de outubro de 2026
saúde

TDAH e autismo em adultos: neurologista explica por que sucesso profissional não descarta diagnóstico

Especialista alerta que alta performance pode esconder custo emocional elevado e que neurodivergência não deve ser tratada como superpoder nem como sentença

Luana Avelarpor em
TDAH e autismo em adultos: neurologista explica por que sucesso profissional não descarta diagnóstico
Sabrina Sato está entre as personalidades que já tornaram público o diagnóstico de TDAH

O diagnóstico de TDAH ou autismo nem sempre aparece na infância, tampouco impede a construção de uma carreira reconhecida. Casos de artistas, apresentadores e atletas que tornaram públicas suas experiências ajudam a desmontar a associação entre neurodivergência e incapacidade. Sabrina Sato, Virginia Fonseca, Ana Hickmann e Suzana Alves já falaram sobre transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Letícia Sabatella revelou ter descoberto o autismo aos 52 anos. Fora do Brasil, Simone Biles e Michael Phelps também relataram TDAH.

A visibilidade dessas histórias chama atenção para adultos que chegam aos 30, 40 ou 50 anos depois de passar décadas criando estratégias próprias para cumprir tarefas, organizar a rotina e responder às exigências profissionais sem entender por que determinadas situações exigiam tanto esforço.

“Quando observamos alguém extremamente bem-sucedido, enxergamos o resultado final. Não vemos necessariamente o esforço que aquela pessoa fez durante anos para se organizar, cumprir prazos, controlar impulsos, lidar com estímulos, interagir socialmente ou simplesmente acompanhar o ritmo esperado dela”, explica o neurologista Matheus Trilico.

O sucesso profissional, portanto, não elimina a possibilidade de um diagnóstico. “Existe uma ideia equivocada de que, se a pessoa estudou, construiu uma carreira, teve sucesso financeiro ou se tornou famosa, ela não poderia ter TDAH ou estar no espectro autista. Uma coisa não exclui a outra.”

Quando a descoberta ocorre na vida adulta, situações antes interpretadas como preguiça, desorganização, distração ou dificuldade de relacionamento podem ganhar outro significado. Há pessoas que recorrem a listas, alarmes, rotinas rígidas ou ajuda de terceiros para manter compromissos e entregar tarefas. Para quem observa de fora, o desempenho pode parecer normal, mesmo quando existe desgaste constante.

O diagnóstico, porém, não deve virar explicação automática para talento ou sucesso. Hiperfoco, criatividade e capacidade de aprofundamento podem aparecer em algumas pessoas neurodivergentes, mas não são características universais. “Não é correto afirmar que alguém se tornou famoso ou bem-sucedido por causa do TDAH ou do autismo. O sucesso é resultado de inúmeros fatores. Mas compreender o próprio funcionamento pode permitir que uma pessoa utilize melhor seus pontos fortes e encontre estratégias para aquilo que representa dificuldade.”

A mesma cautela vale para tratar a neurodivergência como “superpoder”. “Diagnóstico não é troféu e não é sentença. Também não deve ser tratado como um superpoder. Existem características que podem ser positivas em determinados contextos, mas existem dificuldades reais que precisam ser reconhecidas, acolhidas e, quando necessário, tratadas.”

Relatos públicos também podem levar adultos a reconhecer dificuldades que passaram anos tentando esconder ou compensar. Isso, porém, não substitui avaliação profissional. Identificar-se com uma celebridade ou com conteúdos nas redes pode levantar uma dúvida, mas não confirma TDAH ou autismo.

A discussão também ajuda a separar desempenho de bem-estar. Uma pessoa pode manter produtividade, reconhecimento e estabilidade profissional e, ainda assim, conviver com ansiedade, esgotamento ou sensação de inadequação. “Alta performance não significa ausência de dificuldade. Muitas vezes, existe um custo enorme por trás daquela entrega. E esse custo pode aparecer como ansiedade, esgotamento, problemas de relacionamento, sensação de fracasso ou sobrecarga constante”, afirma Trilico.

Para o neurologista, compreender o diagnóstico pode mudar a maneira como a pessoa interpreta a própria história. “Eles não definem inteligência, competência, talento ou potencial. O diagnóstico pode não mudar quem a pessoa é, mas pode mudar profundamente a maneira como ela entende quem sempre foi.”

LEIA MAIS:

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
neurologista Saúde TDAH

Veja também

Eudóxia de Barros

Cultura

Goiânia recebe recital gratuito de Eudóxia de Barros neste sábado

Pianista interpreta obras de Beethoven, Schumann e compositores brasileiros neste sábado (17), no C...
Festival de Comida Afetiva reúne receitas de família, empreendedorismo feminino e música em Porangatu

neste sábado

Festival de Comida Afetiva reúne receitas de família, empreendedorismo feminino e música em Porangatu

Evento gratuito no Centro Cultural da cidade espera 3 mil visitantes e inclui competição entre mai...
coluna

SAÚDE E BEM-ESTAR

Cinco dicas para cuidar da coluna em sua rotina; ortopedista explica o que realmente funciona

Ortopedista alerta que ficar imóvel é tão prejudicial quanto sentar errado e explica como adaptar...
Cuidados paliativos começam no diagnóstico e caminham junto com o tratamento, explica geriatra

saúde

Cuidados paliativos começam no diagnóstico e caminham junto com o tratamento, explica geriatra

Abordagem não se restringe ao fim da vida e busca controlar sintomas, reduzir sofrimento e preserva...
Horóscopo

ASTROS

Horóscopo do dia (17/10): veja as previsões para o seu signo

Leitura astrológica destaca diálogo nos relacionamentos, cooperação no trabalho e organização ...
Edson & Hudson e Gian & Giovani se apresentam em Goiânia

Clássicos do Sertanejo

Edson & Hudson e Gian & Giovani se apresentam em Goiânia

Clássicos do Sertanejo reúne as duas duplas no dia 31 de outubro, na Arena Multiplace, com sucesso...
antirracista

EDUCAÇÃO E DIREITOS

Educação antirracista avança, mas desafio está no cotidiano

Escolas ampliam formação, protocolos e ações de equidade racial; mudança efetiva depende de com...
Cátia Damasceno

Espetáculo

Cátia Damasceno apresenta comédia sobre relacionamentos em Goiânia

Espetáculo “O que pode dar errado na cama?” mistura humor e reflexões sobre intimidade, respei...