TDAH e autismo em adultos: neurologista explica por que sucesso profissional não descarta diagnóstico
Especialista alerta que alta performance pode esconder custo emocional elevado e que neurodivergência não deve ser tratada como superpoder nem como sentença
O diagnóstico de TDAH ou autismo nem sempre aparece na infância, tampouco impede a construção de uma carreira reconhecida. Casos de artistas, apresentadores e atletas que tornaram públicas suas experiências ajudam a desmontar a associação entre neurodivergência e incapacidade. Sabrina Sato, Virginia Fonseca, Ana Hickmann e Suzana Alves já falaram sobre transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Letícia Sabatella revelou ter descoberto o autismo aos 52 anos. Fora do Brasil, Simone Biles e Michael Phelps também relataram TDAH.
A visibilidade dessas histórias chama atenção para adultos que chegam aos 30, 40 ou 50 anos depois de passar décadas criando estratégias próprias para cumprir tarefas, organizar a rotina e responder às exigências profissionais sem entender por que determinadas situações exigiam tanto esforço.
“Quando observamos alguém extremamente bem-sucedido, enxergamos o resultado final. Não vemos necessariamente o esforço que aquela pessoa fez durante anos para se organizar, cumprir prazos, controlar impulsos, lidar com estímulos, interagir socialmente ou simplesmente acompanhar o ritmo esperado dela”, explica o neurologista Matheus Trilico.
O sucesso profissional, portanto, não elimina a possibilidade de um diagnóstico. “Existe uma ideia equivocada de que, se a pessoa estudou, construiu uma carreira, teve sucesso financeiro ou se tornou famosa, ela não poderia ter TDAH ou estar no espectro autista. Uma coisa não exclui a outra.”
Quando a descoberta ocorre na vida adulta, situações antes interpretadas como preguiça, desorganização, distração ou dificuldade de relacionamento podem ganhar outro significado. Há pessoas que recorrem a listas, alarmes, rotinas rígidas ou ajuda de terceiros para manter compromissos e entregar tarefas. Para quem observa de fora, o desempenho pode parecer normal, mesmo quando existe desgaste constante.
O diagnóstico, porém, não deve virar explicação automática para talento ou sucesso. Hiperfoco, criatividade e capacidade de aprofundamento podem aparecer em algumas pessoas neurodivergentes, mas não são características universais. “Não é correto afirmar que alguém se tornou famoso ou bem-sucedido por causa do TDAH ou do autismo. O sucesso é resultado de inúmeros fatores. Mas compreender o próprio funcionamento pode permitir que uma pessoa utilize melhor seus pontos fortes e encontre estratégias para aquilo que representa dificuldade.”
A mesma cautela vale para tratar a neurodivergência como “superpoder”. “Diagnóstico não é troféu e não é sentença. Também não deve ser tratado como um superpoder. Existem características que podem ser positivas em determinados contextos, mas existem dificuldades reais que precisam ser reconhecidas, acolhidas e, quando necessário, tratadas.”
Relatos públicos também podem levar adultos a reconhecer dificuldades que passaram anos tentando esconder ou compensar. Isso, porém, não substitui avaliação profissional. Identificar-se com uma celebridade ou com conteúdos nas redes pode levantar uma dúvida, mas não confirma TDAH ou autismo.
A discussão também ajuda a separar desempenho de bem-estar. Uma pessoa pode manter produtividade, reconhecimento e estabilidade profissional e, ainda assim, conviver com ansiedade, esgotamento ou sensação de inadequação. “Alta performance não significa ausência de dificuldade. Muitas vezes, existe um custo enorme por trás daquela entrega. E esse custo pode aparecer como ansiedade, esgotamento, problemas de relacionamento, sensação de fracasso ou sobrecarga constante”, afirma Trilico.
Para o neurologista, compreender o diagnóstico pode mudar a maneira como a pessoa interpreta a própria história. “Eles não definem inteligência, competência, talento ou potencial. O diagnóstico pode não mudar quem a pessoa é, mas pode mudar profundamente a maneira como ela entende quem sempre foi.”
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