Bullying pode deixar marcas que persistem na vida adulta; neuropsicóloga explica os impactos
Em vídeo, Felca relata oito anos de agressões e revela como a ansiedade social passou a interferir em atividades cotidianas
O bullying pode transformar situações comuns, como entrar em uma sala de aula, conversar com desconhecidos ou frequentar um lugar movimentado, em motivo de medo. Para algumas vítimas, o sofrimento continua após as agressões. Aos 28 anos, o influenciador Felca revelou que ainda enfrenta dificuldades nas relações sociais após oito anos de violência na escola. O relato foi divulgado na última terça-feira (20), Dia Mundial de Combate ao Bullying, em um vídeo no qual apresentou seu diagnóstico de fobia social.
Felipe Bressanim Pereira contou que começou a sofrer bullying aos 12 anos. Os insultos deram lugar a agressões físicas, incluindo um espancamento por cinco estudantes no banheiro. Em outra ocasião, colegas fingiram fazer carinho enquanto colavam adesivos em suas costas. Depois, o exibiram pelos corredores.
A escola se tornou um lugar associado ao medo. Quando concluiu o ensino médio, Felca desistiu de frequentar a faculdade por medo de voltar a uma sala de aula. No vídeo, também relata que teve pensamentos suicidas durante a adolescência.
O caso de Felca está longe de ser isolado. Em 2025, o Brasil registrou 5.226 ocorrências de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes, um aumento de 67,3% em relação aos 3.161 registros do ano anterior, conforme o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Os números revelam apenas parte da violência, já que muitos episódios sequer chegam ao conhecimento da polícia. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta uma dimensão maior: quatro em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sofrido bullying na escola.
Quando o medo ultrapassa a escola
A neuropsicóloga Aparecida Tavares, de Goiânia, explica que o bullying envolve uma relação desigual de poder, capaz de afetar a autoestima e os vínculos. “Por se tratar de violência psicológica, verbal, física e até de gênero, o bullying gera na pessoa agredida comportamentos como de esquiva, isolamento social, rebaixamento no desempenho de suas atividades, inclusive as escolares/acadêmicas, baixa autoestima, o sentimento de menos valia, de insegurança e rejeição”, explica.
A fobia social, também chamada de transtorno de ansiedade social, não equivale à timidez. O medo persistente de avaliação negativa ou constrangimento pode dificultar o trabalho, os estudos e as tarefas cotidianas. A experiência de bullying pode ser um dos fatores associados ao quadro, mas não significa que todas as vítimas desenvolvem o transtorno.
No vídeo, Felca mostra bastidores de compromissos profissionais nos quais consegue falar diante do público, embora enfrente ansiedade intensa. Ele relata que seus batimentos cardíacos ultrapassavam 140 por minuto mesmo em situações simples, como entrar em um shopping. A imagem pública não revelava seu sofrimento. O contraste entre fama e isolamento atravessa seu relato.
“A fobia social, atualmente nomeada como ansiedade social tem como sinais e sintomas o isolamento social, a esquiva para não ter que lidar com a interação social ou exposição a situações vexatórias praticadas pelo bullying, por exemplo, que traz sintomas de medo exacerbado, taquicardia, problemas gastro intestinais, tremores, rubor facial, tonturas, sudorese, aumento da frequência cardiorrespiratória e desencadeamento de depressão severa”, afirma Aparecida.
Sinais além do silêncio
Para conseguir participar de gravações e eventos, Felca conta que passou a beber para amenizar a ansiedade. O consumo se tornou frequente e, após uma gravação, ele caiu em casa, fraturou duas costelas e precisou de atendimento hospitalar. O episódio expõe um sofrimento invisível para quem observa de fora.
Entre estudantes, a violência pode se manifestar na recusa de ir à escola, no afastamento dos colegas ou em queixas físicas recorrentes. Esses sinais não comprovam, isoladamente, a existência de bullying, mas pedem atenção de familiares e educadores.
“A vítima fica mais isolada, triste, pode ter dores estomacais, náuseas, diarréias, dor de cabeça, principalmente quando sabe que tem que ir para o local onde está instalado o bullying. O tratamento exige parceria importante da escola, dos pais, psicopedagogo, psicólogo, psiquiatra”, destaca a neuropsicóloga.
Aparecida também sofreu bullying na faculdade e lembra que a intimidação não se restringe à infância. Nos casos mais graves, experiências prolongadas podem contribuir para o agravamento de transtornos mentais, com risco de autolesão e pensamentos suicidas, o que exige atendimento especializado.
Da denúncia ao acolhimento
Durante anos, Felca tentou convencer a si mesmo de que as agressões eram apenas brincadeiras, apesar do medo constante de voltar à escola. Quando encontrou coragem para contar o que enfrentava, ouviu que estava exagerando ou que tudo não passava de uma fase. A reação contribuiu para que questionasse a gravidade da própria experiência e permanecesse em silêncio, sem encontrar o apoio de que precisava.
Ao final do vídeo, o influenciador anuncia que pretende visitar escolas para conversar gratuitamente com estudantes. Também apresentou um desafio de três meses para retomar atividades sociais que passou a evitar por causa da ansiedade. Embora a exposição gradual a situações temidas possa integrar o tratamento da fobia social, o processo exige acompanhamento profissional e respeito às condições individuais. No caso do bullying, a prioridade deve ser interromper as agressões, e não exigir que a vítima suporte a violência.
O depoimento do influenciador revela uma dimensão do bullying que as estatísticas não conseguem medir: o medo que permanece quando os agressores já não estão por perto. Para quem passou anos associando a convivência ao risco de humilhação, deixar a escola não significa necessariamente recuperar a segurança para estabelecer vínculos. As agressões podem terminar na adolescência, enquanto suas consequências continuam a interferir nas escolhas e nas relações da vida adulta.
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