Afinidade política com parlamentares pode facilitar governo de Celina Leão
Governadora reeleita terá maioria na CLDF e uma bancada federal mais alinhada à direita, mas precisará negociar apoio a cada projeto e manter diálogo institucional com o governo Lula
A governadora reeleita do Distrito Federal, Celina Leão (PP), começa o segundo mandato com um cenário político que pode favorecer a aprovação de projetos e a articulação por investimentos para a capital. A nova composição da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), da Câmara dos Deputados e do Senado reúne parlamentares de diferentes partidos, mas com forte presença de legendas que estiveram próximas da governadora durante a campanha.
Na avaliação de especialistas, a afinidade política pode facilitar a construção de uma base de apoio, mas não significa que o Palácio do Buriti terá votos garantidos para todas as propostas. O desafio de Celina será transformar a maioria política em uma relação institucional estável, capaz de sustentar projetos do Executivo e, ao mesmo tempo, atender às diferentes demandas dos parlamentares e da população.
Na CLDF, os 24 deputados distritais eleitos estarão distribuídos por dez partidos. O PL terá a maior bancada, com cinco cadeiras. MDB, PP, PT e Republicanos terão três parlamentares cada. PSOL e PSB elegeram dois representantes cada, enquanto União Brasil, Podemos e PSD terão uma cadeira cada.
Com esse desenho, a governadora poderá iniciar o mandato com uma base estimada entre 60% e 70% dos deputados distritais. A composição, porém, exigirá articulação permanente. Mesmo partidos que integram a base do governo podem apresentar demandas próprias ou discordar de determinadas medidas.
A relação próxima com o Legislativo é considerada um dos pontos favoráveis para Celina. Presidente da CLDF, o deputado distrital Wellington Luiz (MDB) assumirá interinamente o Governo do Distrito Federal durante o período de descanso da governadora, em um movimento que também evidencia a interlocução entre Executivo e Legislativo.
Para Wellington, a relação entre os poderes deve ser pautada pela independência, mas também pela cooperação.
“Os poderes instituídos são independentes e autônomos, mas devem atuar em harmonia para que os interesses da população sejam sempre o objetivo de todas as ações. A governadora Celina Leão é extremamente habilidosa e respeitosa na relação com o parlamento. Já foi deputada distrital e conhece o trabalho legislativo. Possui uma enorme capacidade de realizar. Teremos muito a avançar em uma relação colaborativa.”
A experiência de Celina no Legislativo é apontada como um fator que pode contribuir para a articulação. Antes de chegar ao comando do Executivo, ela foi deputada distrital e ocupou a presidência da CLDF. O trânsito construído ao longo da trajetória política pode ajudar nas negociações, principalmente em pautas que dependam de maioria na Casa.
Bancada federal
Fora do âmbito local, o cenário também apresenta oportunidades para o governo. Na Câmara dos Deputados, o PL terá três das oito vagas destinadas ao Distrito Federal. MDB, Republicanos, PSOL, PT e PV terão um deputado cada.
No Senado, o DF será representado por três mulheres: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, e Damares Alves (Republicanos), que tem mandato até 2031.
O fortalecimento de partidos de direita na representação do Distrito Federal pode facilitar a articulação de recursos e investimentos para a capital, principalmente por meio de emendas parlamentares e da atuação conjunta da bancada federal. Ao mesmo tempo, a diversidade partidária exigirá da governadora capacidade de diálogo para evitar que a disputa política nacional contamine as relações institucionais locais.
Para o cientista político e especialista em relações governamentais Eduardo Galvão, professor do Ibmec Brasília, o cenário é favorável à governadora, mas exige coordenação política.
Segundo ele, Celina começa o novo mandato com uma base confortável na CLDF, o que tende a facilitar a aprovação de projetos. O principal desafio será administrar uma maioria formada por diferentes grupos e interesses, especialmente diante do crescimento do PL no cenário político do DF.
A nova configuração também pode contribuir para a busca de recursos federais, mas a articulação não deverá se limitar aos parlamentares alinhados ideologicamente à governadora. Celina terá de manter uma relação institucional pragmática com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sobretudo em temas que dependem diretamente da União, como o Fundo Constitucional, saúde, segurança pública e infraestrutura.
Equilíbrio entre aliados
Nesse cenário, o desempenho político do segundo mandato dependerá menos do tamanho formal da base e mais da capacidade do governo de coordenar os diferentes interesses que estarão representados no Legislativo.
Na CLDF, a prioridade será garantir apoio para projetos considerados estratégicos pelo Executivo, além de negociar pautas de interesse dos próprios deputados. Já em Brasília, a bancada federal terá papel importante na busca por recursos e na interlocução com ministérios e órgãos da União.
A expectativa é de que áreas como saúde, educação, segurança e infraestrutura estejam entre os principais pontos de negociação ao longo do mandato. A liberação de recursos, a execução de obras e a ampliação de serviços públicos dependerão, em diferentes níveis, da capacidade de articulação entre o governo local, o Legislativo e a União.
Assim, a governabilidade de Celina no segundo mandato deverá ser construída em duas frentes. De um lado, a governadora terá uma maioria relativamente confortável na Câmara Legislativa e aliados com os quais mantém proximidade política. De outro, precisará preservar canais de diálogo com parlamentares de diferentes partidos e com o governo federal.
O desafio, portanto, não será apenas reunir votos suficientes para aprovar projetos, mas coordenar interesses locais e federais, manter uma relação institucional equilibrada com os demais poderes e transformar a articulação política em investimentos e políticas públicas para o Distrito Federal.
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