O que significa, afinal, envelhecer com saúde? Programa da OMS vai além dos exames e monitora independência de idosos
Preservar a memória, a mobilidade e a independência ganha espaço em proposta da OMS estudada no Brasil
Aos 70 anos, uma pessoa pode estar com a pressão controlada, os exames em dia e, ainda assim, começar a enfrentar dificuldades que antes não faziam parte da rotina. Subir uma escada exige mais esforço, carregar as compras se torna cansativo e alguns compromissos passam a ser esquecidos. Muitas vezes, essas mudanças são tratadas como consequências inevitáveis da idade. Mas será que precisam ser?
É justamente essa pergunta que orienta uma proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente estudada no Brasil. O programa Icope, sigla em inglês para Cuidados Integrados para a Pessoa Idosa, pretende identificar alterações físicas e cognitivas antes que elas comprometam a independência. A ideia é ampliar o cuidado para além dos diagnósticos e dos resultados dos exames.
Isso porque envelhecer com saúde não significa necessariamente chegar à velhice sem doenças. Uma pessoa com diabetes ou hipertensão, por exemplo, pode continuar independente por muitos anos. O que também importa é conseguir caminhar, preparar uma refeição, conversar, lembrar compromissos e tomar decisões sobre a própria vida.
O Icope acompanha seis aspectos considerados essenciais para essa autonomia: memória, mobilidade, nutrição, visão, audição e saúde psicológica. A avaliação inicial é rápida e pode ser aplicada por profissionais da atenção primária, inclusive agentes comunitários de saúde.
Entre os procedimentos estão pedir que o idoso memorize três palavras, observar se consegue levantar de uma cadeira cinco vezes sem usar os braços e perguntar sobre perda involuntária de peso. Também são investigadas dificuldades para enxergar, ouvir e alterações de humor.
São testes simples, mas capazes de indicar problemas que merecem atenção. Uma pessoa que demora mais para se levantar, por exemplo, pode estar perdendo força muscular. Já a dificuldade para acompanhar conversas pode estar relacionada à audição, e não necessariamente à falta de interesse ou de atenção.
O resultado da triagem não representa, por si só, um diagnóstico. Quando alguma alteração é identificada, a proposta é investigar suas causas e definir o acompanhamento necessário. Dependendo da situação, isso pode envolver exercícios adaptados, orientação nutricional, revisão de medicamentos, apoio psicológico ou encaminhamento para especialistas.
A diferença está em não esperar que o problema se agrave. Uma dificuldade para caminhar pode ser percebida antes da primeira queda. A perda de apetite pode ser investigada antes de provocar maior comprometimento nutricional. Quanto mais cedo essas mudanças forem avaliadas, maiores podem ser as possibilidades de intervenção.
No Brasil, a proposta começou a ser investigada em Porto Alegre, entre 2022 e o início de 2024. Os primeiros resultados chamaram atenção para um grupo que costuma passar despercebido: idosos que não apresentavam fragilidade nas avaliações habituais, mas já tinham alterações em capacidades específicas.
Entre esses participantes, quase metade apresentava algum comprometimento da locomoção. Também foram observadas dificuldades cognitivas e sintomas depressivos. Os achados reforçam a importância de observar sinais que nem sempre aparecem nos exames tradicionais.
O estudo nacional, chamado Icope Brasil, já reúne mais de 2.600 idosos em 16 centros de pesquisa distribuídos pelo país. Os participantes serão acompanhados durante três anos para avaliar o desempenho da triagem e sua capacidade de identificar precocemente a perda de funções.
A preocupação acompanha uma mudança demográfica. Segundo projeções internacionais, a população mundial com 60 anos ou mais deverá chegar a 2,1 bilhões em 2050. No Brasil, o envelhecimento acelerado aumenta a necessidade de serviços capazes de acompanhar não apenas doenças crônicas, mas também a capacidade de viver com independência.
A experiência internacional oferece caminhos, embora ainda existam questões a responder. Na França, mais de 150 mil idosos foram cadastrados no Icope e mais de 10 mil profissionais receberam treinamento. Em março de 2026, novas normas regulamentaram a ampliação nacional da triagem prevista em uma lei de 2024.
No Brasil, a adoção do programa ainda depende de avaliações sobre sua eficácia, seus custos e a capacidade de incorporá-lo à rotina das unidades de saúde. Há preocupação com a sobrecarga das equipes, que já enfrentam dificuldades para atender à demanda da população.
Isso não significa que a rede pública esteja começando do zero. O SUS já utiliza o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), ferramenta desenvolvida no país para identificar riscos à saúde e à autonomia dos idosos. Incorporado ao prontuário eletrônico da atenção primária, o instrumento teve mais de 2,1 milhões de registros de aplicação em 2025, segundo o Ministério da Saúde.
A discussão, portanto, não se resume à escolha de um novo protocolo. O desafio é garantir que identificar uma dificuldade resulte em atendimento e acompanhamento, especialmente para quem depende exclusivamente da rede pública.
Para as famílias, essa atenção pode começar antes mesmo da consulta. Um idoso que deixa de sair por medo de cair, passa a evitar conversas porque não consegue ouvir bem ou perde interesse por atividades que antes apreciava merece ser ouvido e avaliado. Essas mudanças não devem ser ignoradas nem interpretadas automaticamente como parte natural do envelhecimento.
Também é importante respeitar a vontade da pessoa idosa. Preservar a autonomia não significa fazer tudo por ela, mas oferecer apoio para que continue participando das decisões e das atividades que fazem sentido em sua vida.
Afinal, viver mais não deveria significar apenas acumular anos. Poder escolher o que fazer, circular pela cidade, manter vínculos e realizar tarefas cotidianas também faz parte da saúde. E perceber quando essas capacidades começam a mudar pode fazer diferença na maneira como cada pessoa atravessa a velhice.
LEIA MAIS:
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.