Sem tecnologia, terras raras goianas rendem menos que pequi e pamonha
Despreparado para a industrialização que nunca chega, Goiás não tem máquinas nem profissionais para aproveitar os minérios, que só resultam em buracos, poluição e doenças, maldições administrativas em vez de bênçãos financeiras
O Estado de Goiás acaba de eleger 17 deputados federais: Cério, Disprósio, Érbio, Európio, Gadolínio, Hólmio, Itérbio, Lantânio, Lutécio, Neodímio, Praseodímio, Promécio, Samário, Térbio e Túlio. Quem nos dera se fossem esses aí. Descontadas as honrosas exceções, Goiás está do jeito que Bartolomeu Bueno da Silva o encontrou, há quase três séculos e meio. E os minérios que ele veio buscar rendem quase o mesmo que em 1682, ou seja, nada. Na época, nada se sabia sobre Escândio, Ítrio e os 15 Lantanídeos que formam as terras raras (os 17 citados no início). Foram descobertos por aqui e, até agora, o movimento de dinheiro com pamonha e pequi é maior que com as terras raras.
O que o Anhanguera queria era ouro, que acharia em profusão no Rio Vermelho. A fartura é tamanha que, 300 anos depois, um operador de máquina pesada encontrou em Santa Terezinha, a 280km de Goiânia, esmeraldas à beira de uma estrada que dava acesso à fazenda do advogado Edenval Caiado, pai do ex-presidenciável Ronaldo Caiado (PSD).
De grandioso, o único resultado que as esmeraldas deram para Santa Terezinha foi a perda de um pedaço do território na emancipação de Campos Verdes, local da descoberta do mineral. Pouco antes da eleição, o chefe do Instituto Mauro Borges, Erik Figueiredo, lançou o estudo “Goiás em Dados – A Influência da Mineração no Estado de Goiás”. Só notícia boa. Aumento disso e daquilo. Como nenhum político enterrou qualquer minério, haveria algo a comemorar se houvesse como produzir riquezas com o que está no solo.
Americanos estão lucrando com Disprósio, Neodímio, Praseodímio e Térbio
A única mina em ação para extrair terras raras fora da China é em Minaçu, no Norte de Goiás, a 288km de Campos Verdes, a capital das esmeraldas. Ali, os americanos estão lucrando com Disprósio, Neodímio, Praseodímio e Térbio, que se 99,99% da população vir na rua vai chutar pensando que é despacho. Na verdade, as terras raras são de tal forma misturadas às não tão raras assim que é preciso muita especialização para separá-las. Goiás não tem essa parte da especialização. Até agora, só quem ganhou dinheiro com os minérios foi a empresa Serra Verde, que vendeu a mina para a USA Rare Earth por R$ 14 bilhões.
Há diversas multinacionais interessadas em arrancar do chão o que não plantaram, exatamente nas três regiões mais abandonadas pelos governantes goianos, a Nordeste, com Nova Roma; a Oeste, com Iporá; além da citada Norte, com Minaçu. Essas empresas vão fazer aqui o que as demais sempre fizeram e estão fazendo: tirar o minério, carregá-lo para outros países sem verticalização alguma e depois transformá-los em algo milhares de vezes mais caro. Goiás nunca exigiu coisa alguma para liberar suas riquezas.
Mais uma vez, o país campeão em aproveitamento é a China, que lutou para ter a mina goiana de Minaçu. Só que na potência asiática essa estratégia está em curso desde os anos 1990. O pessoal é treinado para trabalhar com o minério e para desenvolver máquinas e equipamentos. O que Goiás fez nesse tempo? Nada além de 30 programas sociais para reeleições em série. Toda hora aparece uma notícia de bilhões na cadeia produtiva das terras raras. É provável que o antigo Cepaigo, que virou Penitenciária Odenir Guimarães, esteja com suas cadeias produzindo mais.
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Minaçu arrecadou uma quantia ridícula
A Agência Nacional de Mineração informa que, de janeiro a novembro do ano passado, Minaçu arrecadou uma quantia ridícula, R$ 8 milhões e meio, quase tudo de crisotila. No vizinho município de Niquelândia está o retrato do que o minério deixa no Estado, além de violência, poluição e doenças: buracos e mais buracos. As mineradoras Codemin e Níquel Tocantins pararam de extrair e é provável que a cidade vá melhorar. Mas continua à “sombra” de uma cratera equiparável a sua zona urbana.
O contribuinte goiano já bancou dezenas de viagens das tais missões governamentais que vão à Ásia, sobretudo à China. Fazer o quê? A maioria, passear. Outros, compras. Absorver ou semear conhecimento? Não se tem registro dessa avis rara. Alguns empresários que vão em comitivas oficiais até têm o interesse de voltar com algum ganho em sabedoria, mas o mar de assessores do governo só quer saber de farra e imagem para elogiar os chefes em redes sociais. O despreparo dos políticos goianos é tamanho que quando se abre uma janela de oportunidades, eles fogem pelo portão.
A grande ideia dos governos Lula e Daniel foi criar repartições públicas para cuidar das terras raras. Ou seja, mais cabidões de emprego para pendurar a companheirada. A China se moldou para esses minérios. Primeiro, qualificou os profissionais, da pesquisa à lavra. Depois, fabricou as ferramentas, as máquinas, os equipamentos. E amoitou tudo isso. É impossível comprar qualquer dessas novidades na Shopee. Para os Estados Unidos, então, os chineses nada enviam relacionado aos lantanídeos. Diante disso, sabendo que Daniel só tem de novembro de 2026 a março de 2030, quais seriam suas decisões se realmente tivesse interesse no desenvolvimento de Goiás, não somente na área de minerais? Fazer exatamente o contrário.
Juntar programas sociais em aprendizado das famílias na área de tecnologia
Em vez de dar meio bilhão de reais para uma empresa ligada a Daniel Vorcaro, investir em Saúde, não em doença. Juntar todos os 30 programas sociais em aprendizado das famílias na área de tecnologia (o Governo Federal continuaria com os seus Bolsa-Família etc.). Parar de mentir que está investindo em inovação, que não tem passado de arremedo de porcarias que menos de um mês depois de entregue já está obsoleto. Fazer um projeto de 2027 a 2050, sem se render à demagogia, ao compadrio, ao 2º turno da próxima eleição. Isso não é tudo, mas é um começo, melhor que nada. (Especial para O HOJE)
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