terça-feira, 3 de novembro de 2026
SISTEMA ELEITORAL

Centrão vê no voto distrital misto caminho para fortalecer bases regionais

Proposta muda forma de eleger deputados, reduz peso dos puxadores de votos e pode favorecer candidatos com atuação em regiões específicas

Bruno Goulartpor em
Câmara dos Deputados
No voto distrital, cada região elege seu próprio representante. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Bruno Goulart

O resultado das eleições de 2026, que deixou o PL com a maior bancada da Câmara dos Deputados, trouxe de volta uma discussão antiga no Congresso: a mudança do sistema eleitoral. Partidos do Centrão defendem a adoção do voto distrital misto, modelo que pode alterar a disputa por vagas, diminuir a influência dos chamados puxadores de votos e dar mais espaço a candidatos com força eleitoral em regiões específicas.

O interesse não é apenas mudar a forma de contar os votos. O novo sistema pode beneficiar políticos que já possuem bases eleitorais bem definidas e não dependem de uma votação espalhada por todo o Estado. Com uma área menor para percorrer durante a campanha, esses candidatos também poderiam gastar menos e concentrar esforços em um eleitorado que já conhecem.

O consultor em marketing político e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG) Felipe Fulquim explica que essa é uma das principais razões para o interesse de parte dos parlamentares. “O interesse é reduzir a abrangência das disputas e promover eleições com players mais localizados ou regionalizados. Isso reduz o custo das campanhas e o esforço de convencimento de eleitorados mais distantes do território dominante de determinadas figuras ou grupos políticos”, afirma.

Pelo voto distrital misto, metade das cadeiras seria ocupada por deputados eleitos diretamente em regiões delimitadas, chamadas de distritos. A outra metade seria distribuída entre os partidos, de acordo com a votação recebida pelas legendas. Na prática, o eleitor teria dois votos: um para escolher o candidato de seu distrito e outro para definir o partido que deseja representar na Câmara.

A proposta combina dois modelos. No voto distrital, cada região elege seu próprio representante. Já na parte proporcional, os partidos recebem vagas conforme o total de votos obtidos. Dessa forma, a intenção é manter a representação partidária, mas também garantir que cada região tenha um deputado escolhido diretamente por seus eleitores.

Fim dos puxadores de votos?

Uma das principais mudanças seria o enfraquecimento dos puxadores de votos. Atualmente, deputados com votação muito alta ajudam a legenda a conquistar mais cadeiras e podem contribuir para a eleição de colegas que tiveram menos votos. Isso acontece porque o sistema brasileiro soma os votos dos candidatos de um mesmo partido ou federação para calcular quantas vagas cada grupo terá direito.

Com o distrital misto, parte das cadeiras deixaria de depender desse cálculo e seria disputada diretamente em cada região. Fulquim compara esse cenário ao que já acontece nas eleições para vereador em cidades como Goiânia, Aparecida de Goiânia e Anápolis. Segundo o consultor, muitos parlamentares constroem suas candidaturas a partir de bairros e regiões onde possuem maior presença política. Mesmo eleitos para representar toda a cidade, acabam por manter uma atuação muito ligada a essas localidades.

Risco de desigualdade

Para Fulquim, a mudança pode fortalecer a representação regional e diminuir a concentração de poder em lideranças que disputam votos em todo o Estado. Entretanto, o especialista alerta que o Congresso precisará tomar cuidado na divisão dos distritos e na distribuição das vagas.

Uma das preocupações é evitar que regiões com maior força política ou eleitoral tenham mais representantes e recursos do que outras. Por isso, será necessário estabelecer critérios que garantam equilíbrio entre as localidades e mantenham a proporcionalidade na representação.

“Os legisladores devem se preocupar em estabelecer mecanismos na nova regra que equilibrem a distribuição de recursos e a proporcionalidade na representação que cada parte da região terá, considerando o todo, para tentar reduzir as desigualdades que o novo modelo pode representar para a população”, observa. (Especial para O HOJE)

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