quarta-feira, 4 de novembro de 2026
POLÍTICA

Mulheres conquistam espaços de poder, mas desafios de representação persistem na política do DF

Celina Leão comandará o GDF, Senado terá três mulheres e CLDF contará com cinco deputadas; especialista aponta que avanço numérico precisa se refletir em políticas públicas e maior participação feminina nas decisões

Jéssica Nascimentopor em
Mulheres conquistam espaços de poder, mas desafios de representação persistem na política do DF
Entre as eleitas, Keka Bagno chega ao Legislativo com uma marca histórica: será a primeira mulher negra de esquerda eleita para a Câmara Legislativa do Distrito Federal. (Foto: Divulgação)

As mulheres terão presença expressiva em posições de destaque na política do Distrito Federal nos próximos anos. A partir de 2027, o cenário contará com a governadora reeleita Celina Leão (PP), três representantes femininas no Senado Federal: Damares Alves (Republicanos), Bia Kicis (PL) e Michelle Bolsonaro (PL), e cinco deputadas distritais na Câmara Legislativa (CLDF). Ao todo, oito mulheres foram eleitas no DF em 2026 para cargos de governadora, senadora e deputada distrital.

Apesar dos avanços, a representatividade ainda apresenta contrastes. As cinco mulheres eleitas ocuparão 20,8% das 24 cadeiras da CLDF, enquanto nenhuma mulher conquistou uma das oito vagas do Distrito Federal na Câmara dos Deputados. O resultado evidencia que a ampliação da presença feminina não ocorre de maneira uniforme entre os diferentes espaços de poder.

Para a advogada especialista em Direito Eleitoral e cientista política Gabriela Rollemberg, o resultado das urnas representa um marco na ocupação feminina dos espaços institucionais, mas também exige uma reflexão sobre a diversidade de posicionamentos entre as mulheres que chegam ao poder. Ela avalia que a representação feminina não deve ser interpretada como um grupo politicamente homogêneo e que o desafio agora é transformar a presença numérica em ações concretas para a sociedade.

“O cenário desenhado pelas urnas no Distrito Federal em 2026 é um marco que desafia leituras simplistas sobre gênero e poder. Ter o comando do Palácio do Buriti com Celina Leão e a totalidade dos três assentos do Senado ocupados por mulheres — Damares Alves, Bia Kicis e Michelle Bolsonaro — consolida uma vitória expressiva da representação descritiva, ou seja, a ocupação física dos espaços de poder por quem compõe a maioria do eleitorado.”

Sob a perspectiva da especialista, a diversidade ideológica entre as eleitas também precisa ser considerada. Para ela, a presença de mulheres em diferentes campos políticos demonstra que não existe uma única forma de atuação feminina na política. O desafio, acrescenta, é fazer com que a ocupação desses cargos resulte em políticas que alcancem diferentes grupos sociais.

“A política precisa compreender que as mulheres possuem divergências programáticas e ideológicas legítimas, e que lideranças conservadoras conquistaram densidade eleitoral própria, com forte ligação popular e representatividade nas urnas.”

Gabriela destaca ainda que a responsabilidade das representantes eleitas não se limita à defesa de pautas direcionadas exclusivamente às mulheres. Na avaliação dela, é necessário avançar em temas estruturais, como autonomia econômica, divisão das responsabilidades de cuidado e enfrentamento à violência política de gênero.

“Contudo, sob o ponto de vista do direito e da governança democrática, o grande desafio que se impõe agora é a transição da representação descritiva para a substantiva. O poder institucional alcançado por estas quatro lideranças traz uma responsabilidade proporcional: legislar e governar para a totalidade das mulheres, superando a polarização para avançar em agendas estruturantes e transversais, como a economia do cuidado, a autonomia econômica feminina e a proteção integral contra a violência política de gênero.”

Cinco mulheres ocuparão cadeiras na CLDF

Na Câmara Legislativa, a próxima legislatura terá cinco deputadas distritais: Dayse Amarílio (PSB), Estefane Sampaio (Republicanos), Jaqueline Silva (MDB), Keka Bagno (PSOL) e Renata Daguiar (Republicanos). O número representa uma cadeira a mais em relação à atual composição, que conta com quatro mulheres.

Entre as eleitas, Keka Bagno (PL) chega ao Legislativo com uma marca histórica: será a primeira mulher negra de esquerda eleita para a Câmara Legislativa do Distrito Federal. Assistente social e ex-conselheira tutelar, ela recebeu 40.569 votos e afirma que pretende construir um mandato conectado às demandas populares, com atenção especial às mulheres, às crianças e às populações periféricas.

A parlamentar eleita afirma que a conquista ultrapassa sua trajetória individual e representa a abertura de espaço para outras mulheres que ainda enfrentam obstáculos para chegar aos cargos de decisão. Entre as prioridades do mandato, ela cita o combate ao feminicídio e à violência contra as mulheres, o direito à moradia, a valorização da saúde e da educação públicas e a ampliação das políticas de cuidado.

“Chego à CLDF como a primeira mulher negra de esquerda eleita para o parlamento distrital, com uma enorme responsabilidade. Essa cadeira não é só minha, ela representa muitas mulheres que abriram caminhos e tantas outras que ainda precisam ocupar esses espaços.”

Keka também defende que a participação feminina seja acompanhada de compromisso com a transformação das políticas públicas. Para ela, a diversidade nos espaços de poder precisa considerar as diferenças sociais, raciais e econômicas entre as mulheres.

“Não basta ser mulher para defender os direitos das mulheres. Representatividade importa, mas precisamos discutir quais projetos políticos essas mulheres defendem. Não quero mais mulheres na Câmara apenas para melhorar a fotografia oficial. Quero mulheres comprometidas em transformar as decisões tomadas lá dentro.”

A deputada eleita afirma que pretende manter uma atuação próxima dos movimentos sociais e das comunidades, além de fiscalizar as ações do Governo do Distrito Federal. Ela também aponta a necessidade de políticas que reconheçam o trabalho de cuidado, frequentemente assumido pelas mulheres, como parte das discussões sobre desenvolvimento econômico.

“Porque não existe autonomia econômica quando uma mulher precisa escolher entre cuidar dos filhos e construir o próprio futuro.”

Paula Belmonte destaca votação e continuidade na vida pública

Mesmo sem conquistar um novo mandato nas eleições de 2026, a deputada federal Paula Belmonte (PSDB) também aparece entre as mulheres que tiveram participação relevante na disputa política do Distrito Federal. Candidata ao Governo do DF, ela recebeu 140.765 votos no primeiro turno, o equivalente a 8,51% dos votos válidos.

A votação, segundo Paula, representa a confiança de milhares de eleitores em suas propostas e reforça seu compromisso com a atuação pública, mesmo fora de um cargo eletivo. A parlamentar afirma que pretende concluir o mandato atual e continuar participando do debate político, além de fortalecer o PSDB no Distrito Federal, partido que preside localmente.

“Recebi 140.765 votos de pessoas que confiaram nas nossas propostas e na possibilidade de construir um caminho diferente para o Distrito Federal. Sou muito grata por essa confiança e tenho consciência da responsabilidade que ela representa.”

Com experiência como empresária e parlamentar, Paula avalia que a presença feminina nas instituições é necessária para que as decisões públicas contemplem diferentes realidades sociais. Ela também ressalta que a ampliação da participação precisa vir acompanhada de condições efetivas para que as mulheres exerçam posições de liderança.

“Não basta ampliar numericamente a presença feminina. Precisamos garantir que as mulheres tenham condições reais de participar das decisões, exercer liderança e ocupar posições de comando. Isso exige enfrentar preconceitos, combater a violência política de gênero e criar oportunidades para que mais mulheres ingressem e permaneçam na vida pública.”

A tucana também defende que a atuação política não termina com o encerramento de um mandato. Para ela, mulheres com experiência na vida pública podem continuar influenciando decisões por meio de partidos, organizações sociais, entidades representativas e iniciativas ligadas ao empreendedorismo e à comunidade.

“A política não acontece apenas dentro dos parlamentos ou dos governos. Ela também está presente na atuação das organizações sociais, nas entidades representativas, nos partidos políticos, no empreendedorismo, nos movimentos comunitários e em todos os espaços onde as pessoas se mobilizam para transformar a realidade.”

Ausência na Câmara Federal evidencia desigualdade

Se no Executivo, no Senado e na CLDF as mulheres conquistaram espaço, o resultado da eleição para a Câmara dos Deputados aponta uma realidade diferente. As oito vagas destinadas ao Distrito Federal foram preenchidas por homens. Mariana Naime (PL), mulher mais bem votada na disputa, recebeu 67.218 votos, mas não conseguiu se eleger pelo sistema proporcional.

O contraste também foi destacado por Gabriela Rollemberg. Para a especialista, a presença feminina nos cargos majoritários não elimina as barreiras que dificultam o acesso das mulheres ao Legislativo federal, especialmente em disputas proporcionais, nas quais o resultado depende também do desempenho dos partidos e das federações.

“Vale destacar ainda o contraste do sistema eleitoral: ao mesmo tempo em que o DF consagra a presença feminina nos cargos majoritários, a bancada eleita para a Câmara dos Deputados resultou exclusivamente masculina pelo sistema proporcional. Isso evidencia que a barreira institucional de acesso das mulheres ao Parlamento permanece como um dos principais desafios da nossa legislação, exigindo reformas estruturais contínuas.”

O cenário que se desenha para 2027, portanto, reúne diferentes trajetórias e posições políticas femininas em espaços importantes do poder público. Para além da quantidade de mulheres eleitas, o desafio será garantir participação efetiva nas decisões, ampliar oportunidades para novas lideranças e transformar a representatividade em políticas que alcancem a população do Distrito Federal.

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