Alerta urbano expõe falhas históricas e risco crescente de colapso em Goiânia com as chuvas
A Capital convive com chuvas cada vez mais intensas, infraestrutura insuficiente e um modelo de ocupação que ignora o ciclo natural das águas, o que amplia alagamentos e a insegurança cotidiana, apontam especialistas
A capital de Goiás iniciou o ano de 2026 mergulhada em um cenário de caos que, embora recorrente, parece ter atingido um ponto de saturação técnica e social devido as chuvas. Goiânia lidera hoje o ranking estadual de áreas de risco, com 4.260 pontos mapeados como vulneráveis a enchentes, enxurradas e deslizamentos.
O número não reflete apenas a expansão urbana acelerada, mas sobretudo problemas estruturais acumulados ao longo de décadas de um planejamento que ignorou o ciclo natural das águas.
Enquanto os celulares da população vibram com alertas de emergência, o debate sobre o futuro da Capital se divide entre a urgência de grandes obras de engenharia e a necessidade de uma mudança radical na relação da cidade com o meio ambiente.
Para o professor Glauco Gonçalves, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de São Paulo (USP), o que Goiânia vive é a “crônica de uma morte anunciada”. Ele divide o problema em duas frentes: a global e a local.
No plano global, o especialista aponta que relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicam que cidades tropicais como Goiânia enfrentarão acirramentos climáticos, com secas mais prolongadas e chuvas cada vez mais vorazes e intensas.
Já no plano local, ele critica o que chama de “erro primário” de ocupar as várzeas dos rios para a construção de avenidas marginais, como a Botafogo. “A várzea é o rio”, afirma o professor, explicando que essas áreas foram feitas para encher e que projetar vias expressas ali desconsidera princípios básicos da hidrologia.
Glauco também chama atenção para um fator muitas vezes ignorado: a “cimentação” das árvores. Segundo ele, a prefeitura permite que as bases das árvores nas calçadas sejam completamente seladas por concreto, o que impede a absorção da água e provoca o apodrecimento das raízes, levando a quedas frequentes durante as tempestades.
Como alternativa, sugere medidas simples e de baixo custo, como leis que obriguem a manutenção de pelo menos um metro quadrado de terra ao redor de cada árvore, o que aumentaria significativamente a permeabilidade do solo urbano.
Complementando essa análise, o urbanista Fred Le Blue argumenta que os alagamentos evidenciam o esgotamento do atual modelo de desenvolvimento urbano. Ele ressalta que a cidade cresceu horizontal e verticalmente sem que a infraestrutura de drenagem acompanhasse esse ritmo.
Para Fred, a impermeabilização acelerada criou um “labirinto de prédios e avenidas largas”, onde o fluxo da água se tornou tortuoso e destrutivo. O urbanista defende a adoção da Agenda 2030 da ONU, com foco no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11, que trata de “cidades inteligentes”, e propõe soluções como jardins de chuva e a descanalização de rios para a gestão de riscos.
Distante das teorias acadêmicas, a realidade de quem transita diariamente pelas ruas é marcada pelo medo. Ana Júlia Mendes, estudante, relata que sua rotina passou a ser uma “aposta” diária contra o tempo. Em um dos temporais de janeiro, ela ficou “ilhada” no trabalho e só conseguiu retornar para casa no fim da noite.
Na quarta-feira (7), Ana Júlia presenciou uma cena traumática na Avenida Pio XII. Enquanto tentava alcançar um ponto de ônibus em meio a uma enxurrada que impedia a distinção entre calçada e rua, ela viu uma mulher cair em um buraco de fiação destampado, encoberto pela água turva.
“Ela perdeu os sapatos na enxurrada”, conta, destacando que o bueiro aberto, identificado como ponto 961, representa um perigo constante. Para ela, a percepção é clara: com o excesso de construções novas, a tendência é de agravamento da situação. Em dias de chuva forte, confessa preferir embarcar em qualquer ônibus disponível, mesmo fora de sua rota, para evitar os riscos sanitários e a força da correnteza nas ruas.
Pressionada pelos alagamentos em pontos críticos, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) tenta justificar os transtornos pelo volume excepcional de precipitação registrado neste início de ano. No dia 7 de janeiro, um pluviômetro apontou 91 milímetros de chuva em apenas uma hora e meia.
No dia anterior, houve picos de até 160 milímetros em menos de uma hora em regiões como o Lago das Rosas e a Marginal Botafogo. A pasta sustenta que o rápido escoamento após o fim da chuva comprova a eficiência da rede de drenagem, mas admite falhas em projetos específicos.
O caso mais emblemático é o do Terminal Praça da Bíblia, recém-inaugurado após um investimento de R$ 29 milhões, que sofreu alagamento severo logo nas primeiras chuvas. O diretor da Seinfra, Lucas Gontijo, admitiu um “equívoco no projeto altimétrico”.
Segundo ele, a nova estrutura não considerou a captação da água pluvial externa proveniente da Rua 256 e da Avenida Anhanguera. Como medida paliativa, equipes atuam na ampliação da capacidade de captação das bocas de lobo no entorno.
Paralelamente, a Seinfra aposta no novo Plano Diretor de Drenagem Urbana (PDDU), elaborado em parceria com a UFG, como estratégia para soluções de longo prazo.
LEIA MAIS: Médicos credenciados anunciam paralisação na rede municipal a partir de terça (13)

Alertas sonoros como estratégia para salvar vidas em verão de chuvas extremas
À frente da coordenação da Defesa Civil, Robledo Mendonça reforça que o sistema de alertas foi desenhado para proteger vidas, apesar das críticas relacionadas ao barulho e à frequência das notificações. Ele explica que o alerta severo é preventivo e é emitido quando se registra 10 milímetros de chuva em dez minutos. Já o alerta extremo indica risco iminente, como transbordamento de córregos e enxurradas com potencial para arrastar veículos.
Somente em uma tarde de janeiro, foram enviados 11 alertas em menos de duas horas durantes as chuvas. Robledo destaca o uso da tecnologia Cell Broadcast (CBS), que permite o envio de mensagens para qualquer celular localizado em áreas de risco, sem necessidade de cadastro e mesmo com o aparelho em modo silencioso.
Segundo ele, as duas grandes chuvas registradas no mês não causaram danos estruturais permanentes à cidade, mas serviram para validar o mapeamento dos pontos críticos. O coordenador orienta ainda que a população utilize os canais complementares de SMS, enviando o CEP para o número 40199, e o WhatsApp.
O cenário para os próximos meses segue instável. De acordo com o informativo de verão do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), a estação será marcada por dias longos e rápidas mudanças nas condições do tempo. A combinação de calor intenso e alta umidade favorecerá a formação de pancadas de chuva de forte intensidade, especialmente no período da tarde.
A atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), corredor de umidade que se estende da região Norte do País, continuará provocando chuvas volumosas acompanhadas de descargas elétricas e rajadas de vento. A tendência para o trimestre de janeiro a março é de temperaturas ligeiramente acima da média, o que amplia o risco potencial de tempestades severas e episódios de queda de granizo.
Goiânia encerra esta primeira semana de 2026 diante de um espelho de águas que reflete sua própria negligência histórica. Entre a tecnologia de ponta dos alertas da Defesa Civil e os erros de engenharia em terminais milionários, a Capital busca um caminho para não se tornar, definitivamente, uma cidade submersa por seu próprio asfalto.