Irã ameaça bases dos EUA em países vizinhos após declarações de Trump
Teerã alerta países vizinhos que sediam tropas dos EUA sobre retaliação a bases caso Washington intervenha na região
O Irã elevou o tom contra os Estados Unidos e alertou países vizinhos que sediam tropas norte-americanas de que vai retaliar bases militares na região caso Washington cumpra as ameaças de intervir nos protestos em curso no país. A informação foi divulgada nesta quarta-feira (14), segundo a CNN, por um alto funcionário iraniano à agência Reuters, em meio ao agravamento das tensões diplomáticas e militares envolvendo Teerã, Washington e aliados regionais.
Segundo três diplomatas ouvidos pela agência, alguns militares norte-americanos foram aconselhados a deixar a Base Aérea de Al Udeid, no Catar, até a noite desta quarta. Um dos diplomatas descreveu a medida como uma “mudança de postura”, e não uma retirada ordenada.
Trump ameaça Irã com “ações muito fortes”
O alerta ocorre após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem ameaçando abertamente intervir no país em apoio aos manifestantes. Em entrevista à CBS News, na terça-feira (13), Trump prometeu “ações muito fortes” caso o regime execute manifestantes. “Se eles os enforcarem, vocês verão o que acontece”, disse. Erfan Soltani, detido por participação em atos contra o regime, foi o primeiro a ser condenado à execução após o início dos protestos.
O presidente norte-americano também incentivou a população a continuarem protestando e a tomarem o controle das instituições, afirmando que “a ajuda está a caminho”, sem dar mais detalhes do que seria a “ajuda”.
Autoridades israelenses também acompanham o cenário. Um funcionário do governo afirmou que o gabinete de segurança do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu foi informado sobre as chances de colapso do regime ou de uma intervenção norte-americana. Israel travou um conflito, conhecido como “guerra dos 12 dias” contra o Irã no ano passado, no qual os Estados Unidos também participaram, já na fase final.

Irã acusa os EUA de violar o direito internacional
No plano diplomático, o embaixador do Irã na ONU acusou Trump de violar o direito internacional após as publicações do presidente norte-americano na rede Truth Social. Em carta enviada ao secretário-geral da ONU, António Guterres, e ao presidente do Conselho de Segurança, Abukar Dahir Osman, Amir Saeid Iravani pediu a condenação dos Estados Unidos e de Israel por incitação à violência e interferência nos assuntos internos do país.
“Esta declaração irresponsável encoraja explicitamente a desestabilização política, incita e convida à violência e ameaça a soberania, a integridade territorial e a segurança nacional da República Islâmica do Irã”, escreveu.
Iravani também apelou para que os Estados-membros condenem “todas as formas de incitação à violência, ameaças de uso da força e interferência” e afirmou que EUA e Israel têm “responsabilidade legal direta e inegável” pela perda de vidas civis.
Protestos deixam milhares de mortos
Os protestos começaram no final de dezembro de 2025, motivados por queixas econômicas, e evoluíram para um dos maiores movimentos contra o regime. A organização de direitos humanos HRANA afirmou ter verificado a morte de 2.403 manifestantes e 147 pessoas ligadas ao governo, além de 18.137 prisões.
O regime, que classifica os manifestantes como “vândalos e terroristas” e acusam EUA e Israel de fomentar os atos, mantém um bloqueio nacional de internet há seis dias, medida que, segundo a agência estatal Fars, pode durar mais uma ou duas semanas. A restrição dificulta o fluxo de informações e torna quase impossível o contato com o país a partir do exterior, inclusive com o bloqueio de terminais de internet via satélite Starlink.