Ao não visitar Bolsonaro, Tarcísio desmonta plano estratégico de Flávio
Avaliação é de que primogênito do ex-presidente não possui condições de negociar apoio com governador de São Paulo e, por isso, delegou a tarefa ao pai
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), conseguiu fazer com que o plano do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), terminasse em fracasso. Estava marcada uma visita do republicano ao ex-presidente, que cumpre prisão em regime fechado por tentativa de golpe de Estado na Papudinha, em Brasília.
O governador desmarcou o compromisso, que seria nesta quinta-feira (22), e disse que pedirá um reagendamento futuramente, o que foi o suficiente para dar força à tese de que o chefe do Executivo paulista prefere não se posicionar com mais ênfase sobre a pré-candidatura de Flávio. Segundo analistas, a tática de Tarcísio seria a de não deixar sua a imagem ser prejudicada enquanto possível candidato à reeleição no Governo de São Paulo.

De acordo com interlocutores, o intuito de Bolsonaro em receber a visita de Tarcísio estaria ligado ao interesse do ex-presidente em fazer com que o governador confirmasse de vez sua reeleição e declarasse apoio, com mais firmeza, à pré-candidatura de Flávio a presidente da República.
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Nos bastidores, Bolsonaro tem apostado que, uma vez que Tarcísio demonstre com frequência que concorda e apoie a pré-candidatura de Flávio, a atitude pode ajudar, e muito, no ganho de popularidade do filho na corrida ao Palácio do Planalto, sobretudo em São Paulo, onde o bolsonarismo se faz fortemente presente.

O ex-presidente tenta fazer com que o governador de São Paulo confirme, de uma vez por todas, seu interesse na reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, pois isso pode fazer com que acabem os rumores de que Tarcísio pode, em algum momento, disputar o Palácio do Planalto. Inclusive com a interrupção das tentativas da esposa, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), de atrapalhar os planos de Flávio e trazer Tarcísio para a corrida presidencial.
Pré-campanha fora do Brasil
Ao contrário de Tarcísio, que ainda não confirmou publicamente o que quer, Flávio tenta passar a imagem de um pré-candidato decidido e interessado em concorrer à Presidência da República. Porém, ao invés de iniciar a pré-campanha com o intuito de fortalecer vínculos com forças políticas nacionais, o primogênito de Bolsonaro escolheu iniciar o giro eleitoral em Israel.

Flávio e seu irmão, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que teve o mandato de deputado federal cassado no ano passado por faltas, vão ministrar uma palestra sobre antissemitismo na próxima semana em Jerusalém. Consta na agenda dos irmãos Bolsonaro que o evento contará com a presença do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.
Em seguida, o senador deve fazer passagens pelo Bahrein e Emirados Árabes, além do interesse de Flávio em viajar para países da Europa. É tão grande o empenho do pré-candidato ao Planalto em receber o apoio de forças da extrema-direita em outros países que o filho do ex-presidente não poderá comparecer aos primeiros dias de trabalho deste ano no Senado, que retorna do recesso na primeira semana de fevereiro.

A previsão é de que Flávio retorne de viagem no dia 15 de fevereiro, após a Casa Alta do Congresso aceitar o pedido de missão oficial do senador e autorizar que a visita aos países ocorra de 26 de janeiro a 6 de fevereiro. A permissão não foi concedida pelo Senado para que o parlamentar visite países da Europa, como consta nos planos do parlamentar.
Especula-se que Flávio tenha aproveitado para fazer o giro eleitoral perto da data de visita de Tarcísio a Bolsonaro para deixar com o pai a tarefa de conversar com o governador de São Paulo e convencer o ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro a apoiar publicamente a pré-candidatura do senador.
Perda de apoio
Interlocutores afirmam que, caso o republicano dê a mesma justificativa de sempre sobre estar cedo demais para demonstrar apoio efetivo a Flávio, pode ocorrer de Tarcísio perder boa parte do apoio que tem dos bolsonaristas. Vale lembrar que o grupo compõe parte considerável do eleitorado do governador em São Paulo, apesar de Tarcísio contar hoje com o apoio de grande parte do Centrão.

Sobre o cancelamento da visita a Jair Bolsonaro, Tarcísio justificou que precisa cumprir compromissos oficiais da agenda de governador. Interlocutores do bolsonarismo e da base do chefe do Palácio dos Bandeirantes avaliam que Tarcisio teria dado uma desculpa para evitar o encontro com o ex-presidente na Papudinha.
Como Tarcísio preferiu não visitar Bolsonaro, analistas passaram a enfatizar que Flávio não demonstra, no momento, possuir estatura política suficiente para discutir com Tarcísio questões relacionadas a apoio eleitoral, muito menos impor um rumo eleitoral para o governador de São Paulo. Nos bastidores, líderes partidários do Centrão reforçam que Tarcísio tem mais força política do que o filho mais velho do ex-presidente. (Especial para O HOJE)