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sábado, 21 de fevereiro de 2026
Saúde

Café pode reduzir risco de demência, sugere estudo com 43 anos de acompanhamento

O consumo moderado de café com cafeína é considerado seguro

Leticia Mariellepor Leticia Marielle em 21 de fevereiro de 2026
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Café pode reduzir risco de demência, sugere estudo com 43 anos de acompanhamento. | Foto: Reprodução/Freepik

O consumo moderado e regular de café com cafeína pode estar associado a menor risco de demência ao longo da vida, segundo um dos acompanhamentos mais extensos já realizados sobre o tema. O estudo, publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), analisou dados de 131.821 adultos acompanhados por até 43 anos nos Estados Unidos.

Os participantes integravam duas grandes pesquisas de longo prazo, o Nurses’ Health Study e o Health Professionals Follow-up Study, e responderam a questionários alimentares periodicamente. Pessoas com diagnóstico prévio de câncer, doença de Parkinson ou demência foram excluídas do início da análise. Ao longo do acompanhamento, 11.033 casos de demência foram registrados.

Os resultados indicam que o alto consumo de café com cafeína esteve associado a menor incidência da doença. Entre pessoas com ingestão mais baixa, foram observados 330 casos por ano a cada 100 mil participantes. Entre os maiores consumidores, o número caiu para 141 casos por ano. Após ajustes para fatores como idade, tabagismo, atividade física, dieta, índice de massa corporal, hipertensão e diabetes, a associação permaneceu: os maiores consumidores apresentaram 18% menos risco de desenvolver demência.

Padrão semelhante foi observado para o consumo de chá. Já o café descafeinado não demonstrou relação consistente com redução do risco. A menor incidência de demência apareceu entre pessoas que ingeriam cerca de duas a três xícaras de café por dia, o equivalente a aproximadamente 300 miligramas de cafeína. Quantidades superiores não mostraram benefício adicional claro.

Para especialistas, o resultado é plausível do ponto de vista biológico. A cafeína atua no cérebro bloqueando receptores de adenosina e pode influenciar processos inflamatórios e metabólicos ligados à neurodegeneração. Ainda assim, os autores destacam que não é possível atribuir o efeito apenas à cafeína, já que café e chá também contêm antioxidantes e outros compostos bioativos que podem contribuir para a proteção cognitiva. Segundo pesquisadores as substâncias bioativas costumam apresentar um ponto ideal de efeito, em que doses moderadas trazem benefícios, mas quantidades maiores não necessariamente ampliam a proteção.

Correlação não significa prevenção

Apesar do longo período de acompanhamento e do grande número de participantes, os próprios autores destacam que se trata de um estudo observacional. Esse tipo de pesquisa permite identificar associações estatísticas, mas não comprova que um fator seja diretamente responsável por evitar a doença. Neurologistas avaliam que o principal mérito do trabalho está na consistência dos dados coletados ao longo de décadas e na repetição periódica dos questionários alimentares, o que reduz distorções pontuais. Ainda assim, eles ressaltam que os resultados devem ser interpretados como correlação, e não como relação de causa e efeito.

Uma das limitações apontadas é a possibilidade de causalidade reversa. Alterações cerebrais relacionadas à demência podem começar muitos anos antes do diagnóstico clínico. Nesse intervalo, mudanças sutis de comportamento, como a redução do consumo de café, podem ocorrer sem que a pessoa saiba que está em processo de adoecimento, o que pode influenciar os resultados observados. Além disso, mesmo com ajustes estatísticos para fatores como estilo de vida e condições de saúde, não é possível descartar completamente a presença de variáveis de confusão. Aspectos como nível socioeconômico, grau de estímulo cognitivo e outros hábitos cotidianos podem interferir tanto no consumo de café quanto no risco de demência.

Outro ponto de atenção é o perfil da população analisada: profissionais de saúde norte-americanos, em sua maioria com alto nível de escolaridade e acesso facilitado a serviços médicos. Esse recorte pode limitar a aplicação dos resultados a populações com características diferentes.

Além do diagnóstico de demência, os pesquisadores avaliaram o desempenho cognitivo de parte das participantes, mulheres com mais de 70 anos, por meio de testes realizados por telefone ao longo do acompanhamento. O principal instrumento utilizado foi o Telephone Interview for Cognitive Status (TICS), escala padronizada que mede memória, atenção e orientação em uma pontuação que vai de 0 a 41. Nesse grupo, as mulheres que consumiam mais café com cafeína apresentaram, em média, 0,11 ponto a mais do que aquelas com menor consumo.

Embora estatisticamente detectável, a diferença é considerada pequena. A queda média anual esperada nesse teste é de cerca de 0,18 ponto, o que significa que o ganho observado equivale a pouco mais de meio ano de envelhecimento cognitivo. Para o neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e pesquisador com pós-doutorado pela Universidade de São Paulo, variações desse tamanho dificilmente se traduzem em mudanças perceptíveis no dia a dia dos pacientes. Ainda assim, ele observa que reduções de risco entre 15% e 20% podem ter impacto relevante quando analisadas em escala populacional, sobretudo em um contexto de envelhecimento acelerado da população.

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O consumo moderado de café com cafeína é considerado seguro. | Foto: Reprodução/Freepik

Formas de evitar 

O consumo moderado de café com cafeína é considerado seguro para a maioria das pessoas e, neste estudo, esteve associado a menor risco de demência. Especialistas, no entanto, alertam que a relação observada não permite concluir que a bebida previna doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

A prevenção do declínio cognitivo segue baseada em fatores com evidência científica mais consolidada: controle da pressão arterial e do diabetes, prática regular de atividade física, estímulo intelectual, sono adequado e manutenção de vínculos sociais. Esses elementos continuam sendo apontados como as estratégias mais eficazes para reduzir o risco de perda cognitiva ao longo do envelhecimento.

O novo estudo reforça uma hipótese considerada plausível do ponto de vista biológico e sustentada por décadas de acompanhamento. Ainda assim, como ocorre na maioria das pesquisas observacionais sobre alimentação e estilo de vida, os resultados devem ser interpretados como parte de um conjunto maior de evidências científicas, e não como prova isolada de efeito preventivo.

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