Quaresma impulsiona economia de pescados e avicultura em Goiás
Com o início dos 40 dias de Quaresma que antecedem a Páscoa, comerciantes e produtores goianos registram alta de até 30% na procura por peixes, enquanto ovos e frango também refletem a tradição religiosa
Com o encerramento das festividades de Carnaval e a chegada da Quarta-feira de Cinzas, o Estado de Goiás entra oficialmente no período da Quaresma. A Quaresma é o intervalo de 40 dias que antecede a Páscoa é marcado por tradições cristãs, como a abstinência de carne vermelha, e provoca uma transformação imediata na economia local, especialmente nos setores de pescados e avicultura. Em Goiânia e em cidades do interior, produtores e comerciantes já operam em ritmo acelerado para atender a uma demanda que costuma crescer de forma expressiva.
Nas peixarias da Capital, os efeitos do calendário religioso, com a Quaresma, foram sentidos antes mesmo do início oficial do período. A percepção dos lojistas é de que o consumidor goianiense tem se antecipado para garantir o produto, evitando aglomerações e os preços mais elevados da Semana Santa.
Entre os itens mais procurados nas gôndolas estão o pintado em postas, a caranha, o filé de tilápia, a sardinha e o tradicional bacalhau. Embora a Quaresma seja o principal motor desse movimento, o público demonstra interesse crescente pelo consumo de peixes ao longo de todo o ano, impulsionado pela busca por hábitos alimentares mais saudáveis.
Apesar do otimismo com o volume de vendas para a Quaresma, que deve superar os números de 2025, os comerciantes enfrentam desafios no repasse de custos. Alguns fornecedores já aplicaram reajustes em razão da alta demanda sazonal, mas estabelecimentos em Goiânia têm buscado segurar os valores e promover ações estratégicas para manter a competitividade e a acessibilidade a diferentes perfis de clientes.
O setor de pescados estima aumento de cerca de 20% na demanda em relação ao ano passado. Ao mesmo tempo, a oferta de algumas espécies tem se tornado mais escassa, como o pintado de rio, o que pressiona os preços. Para contornar a sazonalidade, o setor realiza compras estratégicas durante o período de safra, no segundo semestre do ano anterior, garantindo estoques congelados.
Produtos procurados durante a Quaresma
Entre os produtos que registraram as maiores altas está o bacalhau. O quilo do tipo porto dessalgado subiu cerca de 20%, passando de R$ 199 no ano anterior para R$ 249 em 2026. Segundo empresários locais, como esse aumento não foi acompanhado por outros itens importados, ele pode não estar diretamente ligado à variação do dólar.
Goiás não é apenas grande consumidor, mas também produtor relevante, abastecendo estados vizinhos e o Distrito Federal. No sudeste goiano, a produção de tilápia é exemplo dessa pujança. Piscicultores chegam a produzir cerca de 300 toneladas mensais.
Embora a alta nas vendas durante a Quaresma esteja hoje entre 20% e 30%, esse percentual já foi maior no passado, alcançando 50%. A redução da diferença sazonal ocorre porque o consumo de tilápia cresceu no dia a dia, impulsionado pelo setor de alimentação saudável e “fitness”.
A substituição da carne vermelha também impacta outras proteínas. O mercado goiano passa por ajustes, com expectativa de reajuste no preço do ovo nos próximos dias, em razão do pico de consumo típico do período. Em contrapartida, a carne de frango deve registrar retração nos preços ao consumidor final.
A Associação Goiana de Avicultura afirma que o Estado tem potencial para ampliar a produção de aves e ovos nos próximos meses. Goiás consolidou-se como o oitavo maior produtor de ovos do País, com avanços constantes tanto na produção quanto no plantel de galinhas poedeiras.
No comércio exterior, o frango goiano alcançou 94 destinos internacionais em 2025, tendo os Emirados Árabes como principal comprador. O setor gerou saldo na balança comercial de quase meio bilhão de dólares. Em 2025, o preço médio do quilo do frango em Goiás ficou em torno de R$ 8, influenciado por episódios de Influenza Aviária no Brasil, com recuperação no final daquele ano.
Além do impacto econômico, a Quaresma em Goiás também é marcada por ações sociais da Igreja Católica. Foi lançada recentemente a Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano foca no direito à moradia digna no Estado. O período convida os fiéis não apenas ao jejum de carne, mas à reflexão e à prática da caridade, movimentando também setores ligados a alimentos para cestas básicas e doações.
A expectativa é de que o movimento comercial siga intenso até 2 de abril, data que encerra o ciclo quaresmal, consolidando o período como o “Natal das peixarias” e um pilar relevante para a economia agroindustrial goiana.