Coluna

A geopolítica dos jogos da Copa América em Goiânia

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em: 14 de junho de 2021
O Brasil, que estreou na Copa América com vitória de 3 a 0 contra a Venezuela, encerra sua participação na fase de grupos em Goiânia, quando encara o Equador, país com o qual o governo brasileiro ensaia um aprofundamento das relações diplomáticas | Foto: Lucas Figueiredo/Flickr CBF

Marcelo Mariano*

Depois de muita polêmica, começou a Copa América, que tem Goiânia como uma das sedes. Como não sou especialista em saúde e futebol, deixo esses assuntos para quem realmente entende.

O que gostaria é de chamar a atenção para os aspectos geopolíticos e diplomáticos dos jogos que ocorrem em Goiânia. Ao todo, são cinco partidas da fase de grupos: Paraguai x Bolívia, Colômbia x Venezuela, Colômbia x Peru, Equador x Peru e Brasil x Equador.

Entre 1932 a 1935, Paraguai e Bolívia se envolveram em um conflito militar conhecido como Guerra do Chaco. Os bolivianos perderam e, como consequência, parte de seu território foi anexado pelos paraguaios, formando as fronteiras que conhecemos hoje.

Recentemente, Bolívia e Paraguai romperam relações diplomáticas devido à destituição relâmpago do ex-presidente paraguaio Fernando Lugo, aliado do governo boliviano. Em 2013, a normalidade foi restabelecida.

A fronteira entre Colômbia e Venezuela é uma das mais tensas da região. Em busca de esconderijo, guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) já a cruzaram diversas vezes, o que, inclusive, causou a ruptura de relações diplomáticas entre ambos os países durante alguns meses de 2010.

A crise na Venezuela também gerou um movimento no outro sentido da fronteira, mas, dessa vez, de refugiados, em quantidade muito maior do que no Brasil, por exemplo, já que as condições de travessia são mais fáceis.

Na mesma época da Guerra do Chaco entre Paraguai e Bolívia, Colômbia e Peru também entraram em conflito. O palco do confronto foi em uma cidade chamada Letícia, na região amazônica, na tríplice fronteira entre esses dois países e o Brasil. No fim, Leticia permaneceu sob domínio colombiano.

Equador e Peru acumulam desavenças fronteiriças desde os anos 1820, período em que conquistaram independência da Espanha. Nesse contexto, nem todas as demarcações de fronteiras ficaram claras.

Com o passar dos anos, as divergências resultaram em confrontos de fato, com destaque para 1941, quando o Peru ocupou províncias equatorianas (Guerra de 41), e 1995, quando houve disputas armadas em regiões de floresta (Guerra de Cenepa).

Nos dois casos, vale dizer, o Brasil, atuando como um bom mediador regional, teve papel importante na resolução dos conflitos, com acordos de paz assinados no Rio de Janeiro (Guerra de 41) e em Brasília (Guerra de Cenepa).

Por fim, Brasil e Equador, que não fazem fronteira, ensaiam um aprofundamento das relações diplomáticas. A presença de Jair Bolsonaro na posse de Guillermo Lasso, recém-eleito presidente equatoriano, é um sinal desse movimento.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia, vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori) e autor do livro “Introdução ao Oriente Médio: um guia em dez perguntas sobre uma das regiões mais importantes e complexas do mundo”. Escreve sobre política internacional às segundas-feiras.

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