Coluna

A refugiada síria que ficou em último lugar na natação, mas tem a história mais bonita das Olimpíadas

Publicado por: Marcelo Mariano | Postado em: 26 de julho de 2021

Marcelo Mariano*

Yusra Mardini nadou três horas e meia em alto mar para salvar sua vida e de outros refugiados | Crédito: Michael Kappeler/dpa pícture alliance

Eu gosto de esportes em geral, e de natação de forma específica. Também gosto de relações internacionais em geral, e do Oriente Médio de forma específica. Logo, é impossível não gostar da nadadora e refugiada síria Yusra Mardini, que, aos 23 anos, disputa sua segunda Olimpíada.

Em Tóquio, Mardini estreou no sábado, 24 de julho. Acordei cedo para ver sua bateria dos 100 metros borboleta, meu nado preferido. Das 33 atletas que competiram nesse estilo, ela ficou em último lugar, com tempo de 1:06:78.

Isso, porém, é o que menos importa. A emocionante trajetória de Mardini, que nadou durante horas em alto mar para salvar sua própria vida e de outros refugiados, faz dela uma campeã e dona de um verdadeiro espírito olímpico.

Nascida em uma família muçulmana de Darayya, subúrbio de Damasco, Mardini tem a natação no sangue. Sua irmã, Sara, e seu pai, Ezzat, também foram atletas. Aliás, Ezzat foi seu primeiro treinador, desde quando ela começou a competir, aos 12 anos.

Em 2011, no início de sua carreira, a Síria entrou em guerra, que dura até hoje, apesar de o período de maior instabilidade já ter passado. Em 2015, uma bomba atingiu a piscina onde treinava. Foi aí que Mardini decidiu que era preciso fugir do país.

Ela foi de avião até a Turquia, junto com sua irmã e outros parentes, e de lá tomaram um bote clandestino, com cerca de 20 pessoas, rumo à Grécia. Alguns minutos depois, o motor parou de funcionar.

Mardini e sua irmã, então, pularam na água, amarraram cordas ao punho e carregaram o bote por aproximadamente três horas e meia até a ilha de Lesbos, salvando a vida de todos a bordo. Elas eram as únicas que sabiam nadar.

O destino final de Mardini era a Alemanha. No meio do caminho, percorrido a pé, ela foi presa na Hungria, cujo governo tem um discurso anti-imigração. Em território alemão, recomeçou a vida – seus pais chegaram depois – e encontrou a paz nas piscinas de Berlim e Hamburgo, onde vive atualmente.

Fã do nadador americano Michael Phelps, Mardini sempre sonhou em disputar uma Olimpíada. A ideia de Sven, seu treinador na Alemanha, era prepará-la justamente para Tóquio, mas uma outra ideia fez o sonho se realizar mais cedo.

Em uma ação inédita, o Comitê Olímpico Internacional (COI) resolveu criar o Time Olímpico de Refugiados (ROT, na sigla em inglês). Sven mandou um e-mail para o COI, a história de Mardini chamou a atenção e ela virou a estrela do ROT nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016.

No Brasil, o tempo da nadadora síria na prova dos 100 metros borboleta foi de 1:09:21, ou seja, mesmo com o último lugar no Japão, ela melhorou sua marca, além de ter renovado a esperança de um mundo com menos guerras.

No ciclo olímpico entre Rio e Tóquio, Mardini não só treinou, mas também foi embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), discursou no Fórum Econômico Mundial e se encontrou com líderes internacionais, como Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, e Papa Francisco.

Sua vida já virou livro (“Butterfly”, ainda não lançado no Brasil) e será tema de um filme da Netflix, previsto para 2022. Claro que nas Olimpíadas há várias histórias de encher os olhos de lágrimas, mas, para mim, a de Mardini é a mais bonita.

*Assessor internacional da Prefeitura de Goiânia, vice-presidente do Instituto Goiano de Relações Internacionais (Gori) e autor do livro “Introdução ao Oriente Médio: um guia em dez perguntas sobre uma das regiões mais importantes e complexas do mundo”. Escreve sobre política internacional às segundas-feiras.

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